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Aleluia!!! Os quadrinhos foram reabilitados!!!

terça-feira, 28 fevereiro 2012

Bons ventos sopram pela chamada “academia”; finalmente foram “descriminalizadas” as histórias em quadrinhos nas escolas. Aqueles que são jovens há mais tempo lembram muito bem que, num passado bem recente, as HQs eram proibidas em sala de aula. Professores de literatura e português faziam sinal da cruz diante de um álbum de quadrinhos, como se estivessem em frente ao demônio.

Mas, como tudo passa, esta onda também passou. Uma geração mais arejada de professores absolveu as HQs dos pecados da superficialidade dos quais era acusada e colocou finalmente nas mãos dos jovens leitores algumas obras-primas de arte e literatura.

Nós aqui da L&PM, que mourejamos nesta área desde os anos 70 – e que tivemos que abandonar temporariamente o barco devido à profunda rejeição - estamos de volta já há algum tempo e com um extraordinário cardápio de lançamentos. Na Coleção L&PM POCKET, os quadrinhos já conquistaram milhares de novos leitores com títulos dos consagrados Garfield, Snoopy, Hagar, Dilbert e o timaço de autores brasileiros composto por Laerte, Angeli, Adão Iturrusgarai, Glauco, Edgar Vasques, Paulo Caruso, Mauricio de Sousa, Santiago entre outros. Todos por R$ 11,00.

Além do quadrinho em livros de bolso, a editora voltou a investir em grandes projetos, como Peanuts Completo, uma série em capa dura e acabamento luxuoso que publicará todo o magnífico trabalho de Charles Schulz. Já foram editados 4 volumes e o quinto sai em março. Publicamos também belas adaptações a cores das histórias de Agatha Christie, o clássico pacifista Valsa com Bashir, cuja versão em animação foi finalista ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2010 e iniciamos a publicar a festejada série afro-francesa Aya de Margarite Abouet, que trata da vida dos jovens nos países africanos. Recomeçamos também a publicar álbuns para adultos como o clássico Erma Jaguar do craque do desenho erótico Alex Varenne.

Como estamos livres para publicar o que de melhor se faz no mundo e para recomendar às escolas que usem e abusem das histórias em quadrinhos (já que não é mais pecado), um dos grandes destaques da programação de HQ da L&PM Editores é sem dúvida a série de Clássicos da literatura em quadrinhos. Um coleção espetacular feita por roteiristas e desenhistas belgas e franceses, publicada originalmente pela Editora Glénat com o apoio da UNESCO, órgão cultural da ONU que só chancela projetos de alto valor pedagógico. Estes livros possuem, além da história em quadrinhos a cores, um “dossier” que traça um rico painel sobre o livro, o autor, sua vida e seu tempo. Já foram lançados Volta ao mundo em 80 dias de Júlio Verne, A Ilha do Tesouro de Robert Louis Stevenson, Um conto de Natal de Charles Dickens, Dom Quixote de Miguel de Cervantes, Odisseia de Homero e Robinson Crusoé de Daniel Defoe. Deverão sair nos próximos meses Guerra e Paz de Leon Tolstoi e Os miseráveis de Victor Hugo.

Mangás

Mas a grande novidade de 2011 foi a nossa entrada no mundo dos mangás. Iniciamos com os dois volumes de Solanin de Inio Asano e Aventuras de menino de Mitsuru Adashi, os três livros disponíveis nos mais de 2 mil pontos de venda da coleção L&PM Pocket pelo Brasil inteiro. Com a colaboração e a consultoria do tradutor e especialista em mangás Alexandre Boide, a L&PM está preparando novos títulos para 2012.

Enfim, a editora está definitivamente retomando uma de suas vocações que sempre foi a de editar HQs. E a prova disso é que, justamente o primeiro título da L&PM Editores, foi um livro de quadrinhos: Rango 1 de Edgar Vasques. (Ivan Pinheiro Machado)

A(s) possibilidade(s) de uma ilha – Parte III

sábado, 3 setembro 2011

Alexandre Boide conta a história dos Mangás* (Leia antes a parte I e parte II)

Livres da obrigação autoimposta de agradar somente a uma faixa de público específica, os mangás puderam atingir o grande público a partir de temas quase sempre inexplorados e evitados pelos quadrinhos ocidentais produzidos para o consumo de massa: a violência gráfica explícita e impactante de artistas como Buronson (de Hokuto no Ken) e Ryoichi Ikegami (de Crying Freeman); o retrato glamourizado da atividade criminosa na obra de quadrinistas como Takao Saito (de Golgo 13) e Monkey Punch (de Lupin III); a sensualidade despudorada do traço de Oh! great (de Tenjho Tenge); a ficção intimista dos retratos urbanos presentes nas histórias curtas de Yoshihiro Tatsumi e Jiro Taniguchi; a ficção científica apocalíptica de Katsuhiro Otomo (de Akira) e Masamune Shirow (de Ghost in the Shell); o terror visualmente fascinante de Junji Ito (de Uzumaki) e Hitosi Iwaaki (de Parasyte).

Da mesma forma como não se limita a uma determinada faixa etária, a popularidade dos mangás também não faz distinção de gênero. Aliás, a própria noção dos quadrinhos como uma diversão destinada a meninos pode ser considerada uma herança maldita do Comics Code, que vetava qualquer abordagem de temas românticos que não viesse impregnada de um escancarado viés moralizante. No Japão, as histórias para meninas estão presentes desde os primórdios das revistas de mangás, com títulos dedicados exclusivamente a elas. E, pelo menos desde a década de 1960, são elas que põem a mão na massa: com poucas exceções (como A princesa e o cavaleiro, de Osamu Tezuka), os grandes sucessos dos mangás para meninas são de autoras do sexo feminino. Nesse universo, personagens masculinos de aparência andrógina também são bastante frequentes, assim como romances envolvendo personagens do mesmo sexo, especialmente meninos.

"A princesa e o cavaleiro" de

"A princesa e o cavaleiro", de Osamu Tezuka

Passados mais de 60 anos desde a publicação de Shin-Takarajima, a aventura pioneira de Osamu Tezuka, existem mangás para todos os públicos, gostos, gêneros e faixas etárias. O leque de opções é o mais variado possível: desde as onipresentes sagas de samurais, histórias de ação e humor ininterruptos voltadas para meninos e as tradicionais aventuras de capa e espada até temas muito mais improváveis como gastronomia, pescaria, jogos de tabuleiro e degustação de vinhos finos. E isso sem levar em conta um mercado de quadrinhos alternativos repleto de subgêneros de assimilação nem sempre tão fácil, como lolicon (ou “complexo de Lolita”, com suas fantasias sexuais envolvendo adolescentes) ou ero-guro (“erótico grotesco”, cuja denominação dispensa maiores explicações).

Os dois primeiros mangás a ser lançados pela L&PM são um bom exemplo dessa diversidade. Os dois volumes de Solanin, de Inio Asano — publicado na revista Weekly Young Sunday, da editora Shogakukan, entre 2005 e 2006 —, narram a luta de um jovem casal de recém-formados para se integrar à sociedade adulta sem abrir mão de seus sonhos e ideais. Transformada em filme no Japão, a série foi indicada ao Harvey Award de Melhor Edição de Material Estrangeiro ao ser publicada nos Estados Unidos, em 2008. Já Aventuras de menino, do veterano Mitsuru Adachi, é uma compilação de sete histórias publicadas na revista Big Comic Original, também da Shogakukan, entre 1998 e 2006, e têm em comum o fato de tratarem de recordações do universo infantil, um terreno que o autor explorou com maestria em seus popularíssimos mangás para meninos.

Apesar de tudo isso, ainda há quem pense que os quadrinhos japoneses se resumem à violência extrema e imagens que beiram o pornográfico. Afinal, no Brasil, os mangás são um fenômeno um tanto recente. Alguns títulos chegaram a ser publicados no final da década de 1980 e no início dos anos 1990, mas foi só no ano 2000 que eles desembarcaram por aqui com toda a força, a reboque do sucesso dos desenhos animados na televisão, e respeitando na medida do possível o formato de publicação das histórias em volumes encadernados no Japão. Nessa época, não havia muita gente disposta a apostar no potencial de histórias em quadrinhos em preto e branco feitas para ser lidas “de trás para a frente”. Hoje elas são maioria nas bancas, e estão chegando ao mercado de pocket books através da maior coleção de livros de bolso do país.

(Fim)

(leia aqui a parte II)

*Alexandre Boide é tradutor e coordenador editorial dos Mangás que serão publicados no final de 2011 pela L&PM. “A(s) possibilidade(s) de uma ilha” foi escrito especialmente para este Blog e será publicado em três partes, do dia 01 ao dia 03 de setembro. Não deixe de acompanhar.