Leiloado o revólver que Van Gogh teria usado em seu suicídio

19 junho 2019

Vincent havia saído para pintar na tarde de 27 de julho, quando nessa hora costumava trabalhar na sala dos fundos do albergue. Deu um tiro de revólver contra o peito, caiu e depois se ergueu para retornar. Caiu três vezes no caminho de volta e notaram sua ausência, pois estava atrasado para o jantar. Sua atitude ao chegar pareceu estranha aos Ravoux: Vincent subiu diretamente ao seu quarto. Depois, como não descia para jantar, o sr. Ravoux subiu para vê-lo, encontro-o estendido no leito e perguntou o que tinha. Vincent virou-se bruscamente, abriu o casaco e mostrou a camisa ensanguentada. “É isso, quis me matar e falhei”, ele diz. (Trecho de Van Gogh, David Haziot, Série Biografias L&PM Pocket).

Vincent Van Gogh não sairia mais da cama. Dois dias depois, em 29 de julho de 1890, morreria nos braços do irmão Theo, aos 37 anos e poucos meses.

Pois na quarta-feira, 19 de junho de 2019, o revólver Lefaucheux calibre 7 mm que o pintor holandês teria usado para dar o tiro contra ele próprio foi leiloado por 162 mil euros (o equivalente a R$ 703 mil). O comprador, que não teve sua identidade revelada, participou do leilão pelo telefone.

revolver suicidio

A arma foi descoberta em 1965 por um agricultor no mesmo campo em que Van Gogh tentou o suicídio, próximo da hospedaria onde, na época, o pintor estava estava instalado em Auvers-sur-Oise. Depois de sua descoberta, o camponês entregou a arma – muito danificada – a Arthur Ravoux, proprietário dessa hospedaria. O objeto teria permanecido na família até ser leiloado, conta a casa de leilões AuctionArt.

Estudos científicos apontam que o revólver permaneceu enterrado por entre 50 e 80 anos, tempo transcorrido até sua descoberta. E, em 2016, o museu Van Gogh em Amsterdã apresentou a arma na exposição “Nos confins da loucura, a doença de Vincent Van Gogh”.

Outra teoria sobre a origem da arma, muito polêmica, foi apresentada em 2011 por dois investigadores americanos. Segundo eles, Van Gogh não se suicidou. Ele teria sido, na verdade, vítima de um disparo acidental por parte de dois irmãos adolescentes que brincavam com uma arma.

A L&PM Editores publica vários livros sobre Van Gogh, veja aqui.

Visite a rua de Bukowski de onde você estiver!

11 junho 2019

Em 2008, foi determinado que a primeira casa de Charles Bukowski, localizada na Avenida De Longpre, tornaria-se um monumento municipal de Los Angeles, Califórnia. A decisão, assim, impediria qualquer construção no terreno onde ele produziu seu primeiro livro Cartas na rua. O local onde Hank viveu por 9 anos continua intocável, e resiste aos novos e luxuosos prédios construídos em seu entorno.

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Que tal conhecer a humilde casa e a rua do Velho Safado? Clique aqui!

 

Ruy Castro diz que só deixará de admirar Woody Allen quando sua culpa for provada

24 maio 2019

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Crônica de Ruy Castro publicada originalmente no jornal Folha de S. Paulo em 24 de maio de 2019

Quando Woody Allen tiver sua culpa provada, deixarei de admirá-lo. Mas só então

Em off, na abertura de seu filme “Manhattan”, de 1979, em cima de uma fabulosa tomada noturna de Nova York e logo antes da “Rhapsody in Blue”, de George Gershwin, inundar a trilha sonora, ouve-se a voz de Woody Allen: “Nova York era sua cidade. E sempre seria”.

Será? Não mais. Nova York traiu o amor que Woody Allen lhe dedicou em dezenas de filmes, entrevistas, reflexões e frases apaixonadas durante 50 anos como diretor, roteirista, ator, músico e seu principal símbolo. Manhattan virou-lhe as costas. Quatro grandes editoras americanas, baseadas lá, recusaram ou ignoraram sua oferta de um livro de memórias. A Amazon engavetou seu último filme, “A Rainy Day in New York”, e prefere ser processada a produzir os outros que já tinha sob contrato. E não sei se, mesmo sob o chapéu desabado e os óculos escuros, ele pode continuar andando pelas ruas da cidade, como sempre fez. Não são mais suas ruas.

Gosto de Woody Allen desde seu primeiro filme como ator, “O Que é Que Há, Gatinha”, de 1966. Quando ele estreou como diretor, com “Um Assaltante Bem Trapalhão”, em 1970, eu já lia suas crônicas de humor em revistas como Playboy e The New Yorker. Crônicas que, depois, ele compilaria em livros que, em fins dos anos 70, eu traduziria para a editora L&PM: “Cuca Fundida”, “Sem Plumas” e “Que Loucura!”. E assisti a rigorosamente todos os seus filmes. Ele fez com que nos sentíssemos adultos, inteligentes e sofisticados.

Woody Allen está sendo linchado. Por causa de uma acusação, da qual —note bem— ele já foi legalmente inocentado, sua carreira e sua vida acabaram. Tornou-se alguém de quem não se deve chegar perto. Mas eu gostaria de ler seu livro de memórias. Gostaria também de ver seu filme engavetado e os que ele viesse a fazer. Gostaria de apertar-lhe a mão se o encontrasse na rua.

Quando sua culpa for provada, deixarei de admirá-lo. Mas só então.
Ruy Castro - Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues.

 

O encantador assombro da tranquilidade

9 maio 2019

Três novas coletâneas resgatam escritos inéditos de Charles Bukowski

Por Marcos Losnak – Folha de Londrina – 8 de maio de 2019

Existem dois grandes grupos de pessoas quando o assunto é animal de estimação. De um lado estão aqueles que amam os cachorros. De outro lado estão aqueles que amam os gatos.

O escritor Charles Bukowski (1920 – 1994) se enquadra no segundo grupo. Tinha uma coleção de gatos em casa: Manx, Ting, Butch, Bhau, Ding, Beeker, Bugger, Feather, Prana, Craney e Beauty.

O escritor norte-americano achava que os gatos possuíam um tipo de conhecimento que poderia servir como exemplo para os homens, como a independência de suas vontades, como a capacidade de lutar, como a garra de sobreviver. Provocativamente, definia os gatos como “belíssimos diabos”.

A editora L&PM está lançando três novos livros de Bukowski organizados por Abel Debritto, biógrafo do escritor: “Sobre Gatos”, “Escrever Para Não Enlouquecer” e “Tempestade Para os Vivos e Para os Mortos”.

Sobre gatos

Sobre gatos

Sobre Gatos” reúne textos e poemas sobre a experiência cotidiana de Bukowski com os felinos. Parte dos escritos é inédita, recolhidos em manuscritos deixados pelo escritor. Outra parte foi originalmente publicada em revistas literárias alternativas de pequenas tiragens. O livro estava previsto para ser lançado em setembro de 2018, mas acabou chegando às livrarias somente agora.

As abordagens trafegam entre observações cotidianas, situações inusitadas, relatos humorados, percepções elaboradas e constatações pueris.

Um exemplo: “Ter um monte de gatos em volta é bom. Quando você não se sente bem, é só olhar para os gatos, você logo se sente melhor, porque eles sabem que tudo é simplesmente do jeito que é. Não há nenhum motivo para grandes exaltações. Eles simplesmente sabem. São salvadores. Quanto mais gatos têm, mais tempo você vive. Se tiver cem gatos, vai viver dez vezes mais tempo do que se tiver dez. Um dia vão descobrir isso, e as pessoas vão ter mil gatos e viver para sempre.”

Outro exemplo: “Não existem espíritos ou deuses num gato, não procure por eles. Um gato é a imagem da maquinaria eterna, igual ao mar. Nós não domesticamos o mar porque ele é bonitinho, mas domesticamos o gato. Por quê? Só porque ele nos deixa. E um gato não sabe nunca o que é ter medo, ele só se mete na mola do mar e da rocha, e mesmo em uma luta mortal ele não pensa em nada exceto na majestade da escuridão.”

Escrever para não enlouquecer

Escrever para não enlouquecer

Escrever Para Não Enlouquecer” reúne cartas redigidas e ilustradas por Bukowski entre 1945 e 1993. Grande parte das cartas está endereçada a editores de revistas literárias que o escritor enviava seus textos para possível publicação.

O destaque está nos desenhos e nas tentativas de persuasão utilizada para convencer os editores a publicarem seus escritos. Exemplo: “Agora estou trabalhando numa fábrica de ferramentas – e bebendo. Mas continuei matutando. Onde estão aqueles contos que mandei para ela em março de 1946? Ela está zangada? Isso é a vingança dela? Será que ela queimou as minhas coisas? Ela transformou as páginas em barquinhos de papel para a banheira? Ou será que Henry Miller dorme com elas embaixo de seu colchão? Não posso esperar mais. Se não receber resposta, terei minha resposta.”

Tempestade Para os Vivos e Para os Mortos”, que chega às livrarias no final de maio, reúne poemas inéditos

Em breve, chegará Tempestade para os vivos e para os mortos

Em breve, chegará Tempestade para os vivos e para os mortos

recolhidos na gaveta de Charles Bukowski. Uma parte representa textos que ele não pretendia publicar, escritos apenas como prática de escrita. Outra parte representa textos que pretendia publicar em seu último livro que não chegou a existir. Entre os poemas está o intitulado “#1”, considerado o último poema escrito pelo autor semanas antes de falecer, vítima de leucemia, em 1994.

Em seus últimos anos de vida, Bukowski chegou a ter em casa 13 gatos entre população fixa e flutuante. Os felinos de rua eram sempre bem vindos para devorar uma lata de sardinha na varanda para revelar aquilo que ele chamava de “encantador assombro da tranquilidade”.

John Fante, uma das paixões de Bukowski

8 maio 2019

Um dia, quando o velho Bukowski ainda era o jovem Bukowski, ele encontrou uma velha edição de Pergunte ao pó, de John Fante, na Biblioteca Pública de Los Angeles. Segundo suas próprias palavras, foi “ouro no lixo”. Bukowski apaixonou-se pelo personagem de Fante, Arturo Bandini, um aspirante a escritor sem recursos que mora em motéis baratos, passa fome e se embebeda sempre que pode. Foi a inspiração que faltava para Bukowski seguir o caminho de uma literatura visceral, de humor ácido e carregada de passagens autobiográficas. No artigo “Eu conheço o mestre”, que está em Pedaços de um caderno manchado de vinho, Bukowski conta com detalhes como descobriu “John Bante” – assim mesmo, com “B”, numa escrachada brincadeira ou talvez para mostrar que o seu Johh Fante era diferente, era só dele:

Nessa tarde eu matava o meu dia com o costumeiro baixar de livros das prateleiras, o abrir de páginas, ler uma ou duas de cada volume, devolvê-los aos seus lugares. Bem, peguei mais um. Sporting Times? Yeah?, de um tal John Bante. Abri numa das páginas, esperando o de sempre, mas as palavras, sim, as palavras pularam sobre mim, assim mesmo. Saíram do papel e me perfuraram. As palavras eram simples, concisas, e falavam de alguma coisa que estava acontecendo agora! Até mesmo a fonte parecia diferente. As palavras era legíveis. Havia alguns espaços e então mais palavras. As palavras eram quase como uma voz na sala. Peguei o livro e fui me sentar a uma mesa. Cada página era poderosa. Não podia acreditar naquilo. Era como se as páginas fossem pular do livro e começar a caminhar por ali, voar ao meu redor. Possuíam uma força notável, um realismo total. Por que esse homem nunca tinha sido mencionado antes? Eu também estava lendo crítica literária, Winters, todos aqueles vigaristas, os queridinhos da Kenyon Review e da Sewanee Review, e nunca haviam mencionado este homem. O mesmo ocorreu nos meus dois anos de coma profundo no LA City College, nem uma menção sequer.

Ergui os olhos da minha mesa. Bem, não era minha, pertencia à cidade, aos contribuintes, e eu não podia me enquadrar nessa categoria. Mas eu tinha o livro de John Bante diante de mim e eu olhava para as pessoas nas outras mesas, para as pessoas que caminhavam por ali ou que estavam apenas sentadas, muitos vagabundos como eu e nenhum deles sabia sobre John Bante… ou teriam começado a brilhar, a se sentir melhor, não teriam se importado em ser o que eram ou que deveriam ser.

John Fante era filho de imigrantes italianos pobres e toda a sua literatura estava ligada às suas origens. Mas assim como o seu personagem, Bandini, Fante não teve o devido reconhecimento em vida e trabalhou durante 40 anos como roteirista em Hollywood. Sua trajetória só começaria a mudar a partir dos anos 1980, quando a Black Sparrow Press, editora dos livros de Bukowski, tirou Pergunte ao pó do limbo. Foi a vez do discípulo salvar o mestre. Fante morreria em 8 de maio 1983, já cego devido ao diabetes. Dele, a Coleção L&PM Pocket publica 1933 foi um ano ruim e Sonhos de Bunker Hill.

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Biografia de Pinheiro Machado é sucesso literário em Brasília

29 abril 2019

Por José Antônio Severo / Blog Edgar Lisboa

O_senador_acaba_de_morrerO Condestável da República. Este era o título que se dava ao senador José Gomes Pinheiro Machado (PRRG/RS), que foi o político mais influente no período inicial da República, tido por aliados e adversários como o “fazedor de presidentes”, assim chamado pela força de suas articulações que, invariavelmente, levavam à escolha do novo ocupante do Palácio do Catete.

Lançado no ano passado, o livro sobre o senador (1851/1915) chega a Brasília. Não é uma biografia convencional. Editado pela L&PM, está nos comentários boca-a-boca de parlamentares e jornalistas da capital como obra oportuna neste momento nacional. Intitula-se “O Senador Acaba de Morrer”, referindo-se ao assassinato de Pinheiro Machado em 1915, pondo fim à sua carreira. O autor é o escritor José Antonio Gomes Pinheiro Machado, sobrinho-bisneto da personagem.

Na sua narrativa, o escritor produz uma obra sem precedentes, usando de sua intimidade intrínseca com o biografado, traz Pinheiro Machado para os dias atuais e o insere na sua própria história: José Antônio foi preso no famoso Congresso da UNE em Ibiúna (SP), em 1968, escapando de uma condenação certa porque o policial que o interrogou era descendente do motorista do senador. Seria esse chofer aquele interlocutor da mais célebre recomendação de gestão de crise de um político. Ao se ver no meio de uma multidão hostil nas proximidades do Senado, o motorista pergunta ao passageiro o que fazer, Pinheiro responde: “siga em frente, mas não tão rápido que pareça que estou com medo; nem tão devagar que pareça uma provocação”. Em reconhecimento, o policial soltou o jovem Pinheiro Machado.

Com autoridade de familiar, José Antônio (o escritor é conhecido como Pinheiro Machado, mas aqui embolaria a compreensão de quem é quem), mergulha profundamente na alma de seu personagem. Um exemplo é que Pinheiro nunca pensou se colocar como candidato ao governo. Certamente dessa explícita desambição viria uma parte de sua força. Seu grande antagonista, contra o qual se bateu nos palanques e parlamentos, foi nada menos que Ruy Barbosa.  A Águia de Haia, no entretanto, foi além de Pinheiro, pois candidatou-se duas vezes, sempre derrotado nas urnas.

Porém, era tão elevada essa polêmica entre Ruy e Pinheiro que, sem deixarem de ser contundentes, os debates e enfrentamentos entre os dois ficaram na História como disputas virulentas e espirituosas. Não obstante, eram companheiros de mesa. Ruy era comensal nos jantares na casa do senador gaúcho, no Morro da Graça, em que a mulher de Pinheiro, dona Nhãnhã (apelido caseiro de dona Benedita Brazilina) mandava preparar seu doce de batata-doce especialmente para o senador baiano. Nas refeições, os dois próceres bebiam do vinho Chateau d’Yquen da safra de 1898, a favorita dos dois parlamentares. Na crônica política da época, os dois eram apresentados como antagonistas ferozes. É verdade, mas nada que se compare ao baixo nível caracteriza a retórica os adversários, nestes tempos de “estética do ódio”.

Nesta apresentação (não é uma resenha nem crítica literária), o repórter convida o leitor a saborear uma obra literária de primeira linha. Bem escrito, vivo, deliciosos é “O Senador Acaba de Morrer”, com o subtítulo “A vida e o assassinato de um dos políticos mais importantes da História do Brasil”.  Realmente, Pinheiro Machado é um personagem histórico a ser melhor qualificado no ranking dos fundadores da Pátria. No Século XX nenhum parlamentar teve tamanha influência, nem mesmo Getúlio Vargas, seu sucessor no quadro de políticos gaúchos. Getúlio teve poder inigualável, mas Pinheiro foi mais influente.

Esse livro é tema para páginas e mais páginas de um comentarista. É tão vasto que não se pode valorizar esta parte ou aquela passagem sem se sentir culpado pelo que deixou de fora. Então optamos por convidar o leitor e dar uma olhada esta obra impar sobre a História política do Brasil.

Certamente o leitor nunca terá visto tamanha criatividade para contar uma história desta natureza. É um livro único. José Antônio Pinheiro Machado, autor consagrado, jornalista com passagem pelas maiores redações do Brasil, apresentador famoso de televisão (com seu personagem Anonymus Gourmet) , repórter que deu o furo mundial do fim da Guerra do Vietnam, cobrindo a conferência de Paz em Paris para o Correio do Povo de Porto Alegre, traz agora, com sua alma de jornalista e o talento de escritor de texto limpo e veloz, um novo furo de reportagem. Não está abrindo um velho baú de reminiscências familiares, nem revisitando livros de História. Esse livro é uma verdadeira reportagem, em que o repórter viaja pela máquina do tempo, e se encontra com a personagem nas duas épocas: o do biografado e o do próprio autor. É um livro imperdível.

 

Você precisa conhecer a poeta russa Anna Akhmátova

16 abril 2019

Na maioria das vezes, quando se fala em literatura russa, os nomes que vêm à mente costumam ser sempre os mesmos e, na maioria das vezes, masculinos. Mas se o nome de Anna Akhmátova quase nunca é pronunciado na lista de notáveis, isso se deve não por falta de mérito, mas ao fato de ainda ser pouco lida fora da Rússia. Perseguida por Stálin, a poeta merece (e muito!) ser descoberta pelos leitores como mostra a ótima coluna de Gustavo Pacheco na Revista Época online. Os poemas de Akhmátova, com tradução de Lauro Machado Coelho, há anos são publicados pela L&PM Editores em diferentes edições.

Anna Akhmátova merece ser lida

Anna Akhmátova merece ser lida

ANNA AKHMÁTOVA E O POEMA DE UM MILHÃO DE GRITOS

Por Gustavo Pacheco – Revista Época – 16 de abril de 2019

É uma manhã de inverno na cidade que um dia voltará a se chamar São Petersburgo, mas neste momento se chama Leningrado. Em frente à prisão de Kresty, há uma fila com centenas de mulheres encasacadas que carregam embrulhos e cartas para seus maridos, pais e filhos presos pela polícia política de Stálin. As portas da prisão estão fechadas e ninguém vem falar com elas, mas todos os dias elas voltam, à espera de alguma notícia, algum sinal de vida.

É então que uma mulher de lábios lívidos se aproxima da poeta Anna Akhmátova, que está na mesma fila, e lhe pergunta, sussurrando:

- E isso, a senhora pode descrever?

A poeta responde:

- Posso.

Anos depois, ela contaria assim a reação da mulher: “Aí, uma coisa parecida com um sorriso surgiu naquilo que, um dia, tinha sido o seu rosto.”

Essa história é narrada como uma espécie de prefácio em Réquiem, o conjunto de poemas mais conhecido de Anna Akhmátova e um dos pontos mais altos da poesia do século XX, em qualquer idioma. Escrito entre 1935 e 1961, Réquiem condensa o sofrimento de incontáveis mulheres russas e também da própria autora. Escrevendo às vezes na primeira pessoa, às vezes na terceira, sempre com linguagem clara e concisa, ela transita entre o seu próprio desespero e o de tantas outras mulheres anônimas, com sua “boca fatigada, através da qual jorra um milhão de gritos”:

Gostaria de poder chamá-las, a todas, por seus nomes,
mas levaram a lista embora, e onde posso me informar?
Para elas teci uma ampla mortalha
com suas pobres palavras que consegui escutar.

Anna Akhmátova nasceu em 1889 em Odessa, na Ucrânia, e ainda criança se mudou para uma pequena cidade perto de São Petersburgo. Começou a escrever poemas aos onze anos de idade. Quando publicou seu primeiro livro, aos 23, já era uma das poetas mais aclamadas de São Petersburgo, ao lado de Óssip Mandelstam e de Nikolai Gumilióv, com quem viria a se casar. O estilo lírico e ao mesmo tempo contido de Akhmátova, que combinava alta carga emocional com uma linguagem direta e sem metáforas flácidas, rapidamente ganhou popularidade e gerou uma multidão de admiradores e imitadores. Segundo Joseph Brodsky, seu amigo e discípulo, os poemas dedicados a ela ocupariam mais volumes do que suas próprias obras reunidas.

Tudo começou a mudar com a entrada da Rússia na Primeira Guerra Mundial e a onda de devastação que veio em seguida. Em 1915, Akhmátova escreveu um poema intitulado Oração, em que se oferecia em sacrifício pelo fim da guerra:

Manda-me amargos anos de doença,
a febre, a insônia, a inquietação,
leva de mim meu filho, meu amigo,
e o dom misterioso de cantar.

Essa é a minha oração durante a tua liturgia:
após as tormentas de tão longos dias,
que a nuvem que pesou sombria sobre a Rússia,
transforme-se noutra nuvem, de gloriosos raios.

Quando lemos esse poema à luz da biografia da poeta, é difícil não ver nele uma premonição sinistra. Com o advento da Revolução Russa, a poesia de Anna Akhmátova passou a ser considerada “ultrapassada”, “individualista” e incompatível com o espírito coletivista do novo regime. Além disso, ela ficou marcada como viúva de um “inimigo do povo”. Nikolai Gumilióv, de quem ela havia se separado em 1918, foi acusado de envolvimento em uma conspiração e fuzilado sumariamente, três anos depois. Ela ficou sabendo pelos jornais, e escreveu este poema:

Não estás mais entre os vivos.
Da neve não podes erguer-te.
Vinte e oito baionetadas.
Cinco buracos de bala.

Amarga camisa nova
cosi para o meu amado.
Esta terra russa gosta,
gosta do gosto de sangue

A partir de 1923, Anna Akhmátova não conseguia mais publicar poemas e vivia na penúria quase absoluta, subsistindo com a magérrima renda de tradutora e pesquisadora. Ainda assim, mais tarde ela chamaria esses anos de “vegetarianos”, em comparação com o terror “carnívoro” que Stálin impôs à União Soviética a partir da metade da década de 1930. Seu marido, Nikolai Púnin, foi preso e levado para a Sibéria; o mesmo aconteceu com seu amigo Óssip Mandelstam, mais tarde assassinado na prisão, e com seu filho Lev, que passaria longos anos em campos de trabalho.

Mesmo privada do marido e do filho, proscrita, paupérrima, tuberculosa e com problemas na tireoide, Anna Akhmátova nunca deixou a poesia de lado. Foi nessa época que começou a escrever Réquiem e outras obras célebres, como o longo e épico Poema sem herói. Sabendo do risco que corria caso seus poemas fossem descobertos, ela confiou a um pequeno grupo de amigas a tarefa de memorizá-los. Uma dessas amigas, Lídia Tchukovskaia, descreve em suas memórias como isso acontecia: “Subitamente, no meio de uma conversa, ela ficava em silêncio, dirigia seu olhar para o teto e para as paredes, pegava um pedaço de papel e um lápis; então dizia em voz alta algo deveras mundano… cobria o papel com uma escrita apressada e me entregava. Eu lia os poemas e, após memorizá-los, devolvia-os em silêncio… e então ela queimava o papel…”

Com a chegada da Segunda Guerra Mundial, o esforço de união nacional deu margem a uma relativa abertura para os poetas e demais artistas proscritos. Mesmo sem publicar poemas há mais de quinze anos, Anna Akhmátova não tinha sido esquecida; foi chamada para falar a seus compatriotas no rádio, durante o cerco de Leningrado, e escreveu poemas patrióticos como Coragem, que se espalhavam de boca a boca entre os soldados no front.

O governo autorizou a edição de uma antologia de seus poemas e, no dia do lançamento, formaram-se imensas filas que disputavam a edição limitada de 10 mil exemplares. As autoridades foram pegas de surpresa e o Presidente do Soviete Supremo, Andrei Jdanov, ordenou que o livro fosse retirado de circulação. Em 1946, o mesmo Jdanov foi encarregado por Stálin de coordenar a política cultural soviética. Seu primeiro ato foi lançar uma campanha pública de condenação à arte “burguesa” e “reacionária”. Seu primeiro alvo foi Anna Akhmátova, que foi expulsa da União Soviética de Escritores, teve seu cartão de racionamento confiscado e foi mais uma vez proibida de publicar seus poemas.

Ela suportou a condenação com a sobriedade e dignidade de sempre, e continuou a escrever e reescrever seus poemas em segredo. Viveu o suficiente para ver a morte de Jdanov e do próprio Stálin, e o relaxamento gradual da censura sobre seus poemas. Na década de 1960, voltou a publicar livros, se tornou ainda mais popular do que era na sua juventude e sua reputação cresceu de forma sólida e consistente entre as novas gerações de poetas e leitores. Havia se tornado um dos poucos artistas russos de primeiríssima grandeza que não tinham sido assassinados ou escapado para o exílio. Talvez ela tivesse pressentido que um dia voltaria a ser a poeta mais amada da Rússia, pois muitos anos antes escrevera, no epílogo de Réquiem:

E se, neste país, um dia decidirem
à minha memória erguer um monumento,

eu concordarei com essa honraria,
desde que não me façam essa estátua

nem à beira do mar, onde nasci –
meus últimos laços com o mar já se romperam –,

nem no jardim do Tsar, junto ao tronco consagrado,
onde uma sombra inconsolável ainda procura por mim,

mas aqui, onde fiquei de pé trezentas horas
sem que os portões para mim se destrancassem.

Em 2006, quando as autoridades de São Petersburgo decidiram erguer um monumento a Anna Akhmátova no aniversário de quarenta anos de sua morte, não foi difícil escolher o lugar. A estátua de bronze, de três metros de altura, foi colocada em frente à prisão de Kresty.

* Devemos todos os poemas aqui transcritos a Lauro Machado Coelho (1944-2018), tradutor e biógrafo de Anna Akhmátova, a quem esta coluna é dedicada.

O lançamento de Eduardo Bueno no jornal Zero Hora

29 março 2019

Eduardo Bueno autografou seu novo livro na quinta-feira, dia 28 de março às 18h, na PocketStore Livraria em Porto Alegre e sábado, dia 6 de abril também às 18h estará na Livraria da Travessa Ipanema. Leia aqui o texto do repórter Fabio Prikladnicki:

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Em Paris, uma viagem luminosa às maiores obras de Van Gogh

14 março 2019

Vincent Van Gogh é a estrela da nova exposição digital do Atelier des Lumières, em Paris. Fã do pintor holandês (e responsável pela edição dos tantos livros que a L&PM publica sobre a vida de Van Gogh), o editor da L&PM, Ivan Pinheiro Machado, que está na Cidade Luz para o Salão do Livro, não poderia deixar de passar por lá. Ele, aliás, mandou dizer que é “um fantástico show tecnológico de som e imagem sofisticadíssimas.É o grande hit parisiense neste fim de inverno.”

A exposição criada por Gianfranco Iannuzzi, Renato Gatto e Massimiliano Siccardi, foi batizada de “Van Gogh – Starry Night” (Van Gogh – Noite Estrelada) e explora as numerosas obras de Van Gogh, que evoluíram radicalmente ao longo dos anos e destaca as pinceladas expressivas e poderosas do pintor holandês, iluminadas pelas cores ousadas de suas pinturas únicas.  A exposição imersiva evoca o mundo interior altamente emocional, caótico e poético de Van Gogh e destaca a interação constante de luz e sombra.

O itinerário temático remonta os estágios da vida do artista e suas estadas em Neunen, Arles, Paris, Saint-Rémy-de-Provence e Auvers-sur-Oise. Os visitantes são transportados para o coração de suas obras, desde seus primeiros anos até os mais maduros, e de suas paisagens ensolaradas e paisagens noturnas para seus retratos e naturezas-mortas.

Os visitantes que desejarem conhecer mais sobre as obras durante o tour, podem baixar o aplicativo Baixe nosso aplicativo gratuito “Van Gogh, Starry Night” na AppStore ou no Google Play.

Dê só uma olhada na maravilha que é essa experiência que estará aberta até 31 de dezembro de 2019. Ou seja, dá tempo de conseguir uma passagem promocional e ir lá conferir (não custa sonhar!).

Para completar, Ivan avisa que, no mesmo espaço, há também uma exposição de gravuras japonesas lindíssimas.

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Conheça todas as obras que a L&PM publica sobre Van Gogh: tem de biografia à graphic novel, passando por cartas e estudos.

 

Garfield é show

7 março 2019

Garfield é um dos gatos mais famosos dos quadrinhos. Isso se não for “o” mais famoso. Ele está em tirinhas de jornais, em livros publicados pela L&PM e, para quem quer vê-lo em movimento e a cores, também na série “O Show de Garfield”, cuja primeira temporada está disponível na Netflix em 26 episódios de 24 minutos cada.

No primeiro episódio há duas histórias: “Guerra das Massas” e “Mamãe Garfield”. Na primeira, a Terra é invadida por alienígenas no formato do prato favorito de Garfield: lasanha. Na segunda, quando mamãe passarinho fica presa na garagem, adivinha quem vai cuidar de seus ovos?

Garfield mamae passarinho