L&PM Editores

Os escritores e suas manias

sexta-feira, 3 dezembro 2010

No blog do escritor e jornalista Michael Laub encontramos um projeto muito bacana. Laub criou a serie Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem. Por lá estão as manias de dois escritores publicados pela L&PM: Moacyr Scliar e Luiz Antonio de Assis Brasil.

Luiz Antonio de Assis Brasil – “Escrevo por acaso, isto é, nunca pensei em ser escritor. Tudo foi acontecendo e eu me fui acostumando. Hoje já não posso me conceber julgando processos, que era o destino que minha família me dissera para cumprir. Escrevo no meu melhor à tardinha: já não é mais tarde, e ainda não é noite. Mas se eu me empolgo, posso entrar noite a dentro, desde que tenha começado à tardinha. Antes eu escrevia melhor pela manhã, cedo. Depois descobri que sofria de deficiência de um produto químico no sangue. Corrigi isso e hoje me acordo tarde, isto é, pelas 7, quando tenho de sair correndo para a Universidade. Uma pequena mania: não termino uma cena, ou capítulo, no mesmo dia em que estive trabalhando nele. Deixo correr uma noite e aí, no dia seguinte, descansado, escrevo o final. E enfim: só sei escrever romances. Fico paralisado ante o conto e a poesia. Poesia e conto são para quem sabe.”

Moacyr Scliar – “Em termos de escrever, o meu método, ou mania, ou superstição consiste em não ter método, ou mania, ou superstição. Desenvolvi minha atividade literária paralelamente a uma intensa carreira médica (primeiro clínica, depois em saúde pública), escrevia quando podia, quando dava tempo. E isso podia acontecer em qualquer lugar: numa lanchonete, esperando a comida, num hotel, no aeroporto (o laptop ajudou muito). Não preciso de silêncio, não preciso de solidão, não preciso de condições especiais – só preciso de um teclado. E ah, sim, de ideias (mas diante do teclado as ideias surgem).”

Quer saber outras manias de escritores brasileiros? Clica aqui.

4. A ditadura que odiava os livros – parte II

terça-feira, 30 novembro 2010

Por Ivan Pinheiro Machado*

Leia (ou releia) aqui a primeira parte dessa história.

Hélio Silva assumiu a editoria e a responsabilidade – junto conosco – da publicação do livro que ganhou o nome de “Memórias: a verdade de um revolucionário”. Hélio assinou como organizador e prefaciador do livro. Foi um longo trabalho, pois eram muitas páginas e muitas informações. Para a época, era uma verdadeira bomba atômica e – confesso 32 anos depois – eu retirei do livro, em consenso com Hélio Silva, ­as chamadas “ofensas de baixo calão” que  Mourão dirigia a Médici e, principalmente, a Costa e Silva. Os velhos generais eram brindados com os piores adjetivos disponíveis no nosso idioma. Preservamos 90% das ofensas. Os 10 % que cortamos foram em nome da viabilização da empreitada. Mas não adiantou. O livro já estava impresso, empacotado na gráfica EPECÊ, antiga gráfica Champagnat, pertencente à PUC RS. Estava tudo pronto para a distribuição dos livros quando recebemos o telefonema de um dos padres que comandavam a empresa. “Corram aqui!!! A polícia está prendendo o livro!!!”. Meu pai havia detectado por acaso, no Fórum, uma movimentação para “apreensão de livro em segredo de justiça”, promovida por um conhecido escritório de advocacia de Porto Alegre, ligado a um Ministro da ditadura. Advogado, ele assumiu a causa na hora e já estava na gráfica quando chegamos.

Para nos proteger, havíamos convocado toda a imprensa, pois o testemunho dos repórteres evitaria alguma violência contra nós. Receosos, fomos tirar satisfação do delegado do DOPS que liderava a operação. Ele olhou para mim com uma cara de nojo e grunhiu: “Não toquem nos livros e não saiam daqui”. Enquanto isso, o Lima já estava tratando de fugir pela porta dos fundos com 200 livros. Passou-se uma meia hora de enorme tensão. Usando a forma mais respeitosa que eu encontrei, comuniquei a ele que ia me retirar por alguns momentos para buscar um amigo meu no aeroporto. O cara me olhou com absoluta indiferença e voltou a grunhir: “Tu não entendeu, meu? Tu tá preso!” Fiquei parado e meu pai se aproximou. Eu falei bem baixinho: “o cara disse que eu estou preso!”. Dr. Antonio Pinheiro Machado Netto era um velho combatente e me perguntou. “Tu conheces o pessoal do JB?”. “Sim. Por quê?” Meu pai sussurrou: “Está ali o carro deles, quando o cara se distrair entra dentro e te manda!” A repórter Ângela Caporal não estranhou quando eu pulei dentro da Brasília com o enorme logotipo do jornal e me deitei no banco. Discretamente, ela ordenou ao motorista: “Vamos embora daqui!” Foi assim que eu escapei, graças à generosidade da Ângela e à respeitabilidade do saudoso JB, o jornal mais importante do Brasil, na época. O que se seguiu foi uma encarniçada batalha judicial. O livro era enorme e o prejuízo foi maior ainda. Quando estávamos já sem esperanças, vendendo os nossos Volkswagens para pagar a gráfica e fechar a editora, o livro foi surpreendentemente liberado depois de uma sentença histórica do juiz que tratava do caso. Era fevereiro de 1979 e a história recomeçava para nós. A liberação foi manchete em todos os jornais importantes do país e o livro vendeu mais de 50 mil exemplares colocando a L&PM no mapa do Brasil… Hoje, apesar de esgotado, é uma importantíssima referência para elucidar os passos do movimento golpista de 1964.

Hélio Silva escreveu mais de 60 livros sobre história do Brasil e em alguns deles utilizou muitas das informações do General Mourão. Em 1990, fez voto de pobreza e passou a ser monge beneditino. Morreu em 1995, aos 91 anos, no Mosteiro de São Bento no Rio de Janeiro, onde está enterrado.

Para ler o próximo post da série “Era uma vez uma editora…” clique aqui.

Salve o “Almirante negro”!

quinta-feira, 28 outubro 2010

Nas páginas iniciais de João Cândido, o almirante negro, Alcy Cheuiche dedica seu livro a Aldir Blanc, João Bosco, Elis Regina e todos os demais que ajudaram a tirar João Cândido da sua última masmorra, o esquecimento. Marinheiro, negro, filho de escravos, João Cândido foi o líder da “Revolta da Chibata”, um extraordinário acontecimento político e social que teve início no dia 22 de novembro de 1910 no Rio de Janeiro. João Cândido nasceu em 1880 e morreu como pária em 1969 sem conhecer a música feita para ele. Aqui, você assiste a Elis Regina cantando, em 1974, “O mestre-sala dos mares”, música de Aldir Blanc e João Bosco que dá uma pequena pista de quem foi João Cândido. Prepare-se, pois é emocionante.

Freud explica: agora em livro de bolso

quarta-feira, 17 março 2010

Por Caroline Chang*

Minha tia, uma das figuras principais da minha formação, é psicóloga de orientação freudiana. Numa certa fase da minha infância, eu dizia que, quando crescesse, queria ser “pepsicóloga”. Quando a realidade oferecia algum fenômeno, alguma relação ou explicação não-evidente, mas inconsciente, logo aprendi a lascar, do alto do meu então um metro de altura: “Freud explica” ou “Que lapso!”. Em seguida, quando meu pai e a minha mãe se separaram, e eu, em 1983 e com sete anos, passei a viver com o meu pai, a importância do Freud na minha vida recrudesceu. Passei a frequentar duas vezes por semana o consultório de uma “psi” (as diferenciações profissionais não eram claras para mim então) que, entre uma brincadeira aqui e um jogo ali (meu preferido, e acho que o dela também, era o “Jogo da vida”), me incitava a falar e fazia perguntas, algumas das quais incômodas. Na minha adolescência, o hábito de falar para elocubrar já era parte de mim, e mais uma vez fiz psicoterapia, com uma freudiana-kleiniana. De forma que não considero um exagero dizer que devo muito a Freud, esse gênio da raça, “Sigi de ouro”, como lhe chamava a mãe. De forma que me senti imbuída não só de uma pesada responsabilidade moral e profissional, mas de um senso de responsabilidade íntimo, talvez primo da gratidão, quando, cerca de três anos antes de janeiro de 2010 (data em que a obra freudiana entraria em domínio público), demos início à necessariamente longa, lenta e pedregosa empreitada de publicar algumas de suas principais obras em formato de bolso.

Assim como acho que num mundo ideal todo mundo deveria/poderia fazer psicoterapia ou análise pelo menos uma vez na vida, considero – respeitadas as leis de direito autoral – um motivo de comemoração para a humanidade quando obras do calibre das de Freud se tornam disponíveis em várias edições, em várias traduções, editadas por diversos profissionais e pelas mais variadas casas. E creio que é uma razão de orgulho para nós, brasileiros, o fato de no nosso país haver uma tradição psicanalítica forte a ponto de várias editoras respeitadas estarem neste momento trabalhando em novas edições e traduções de Freud. (Eu, que cresci lendo tão-somente as coleções Vaga-Lume e Pra Gostar de Ler, que era o que havia de disponível na época, garanto: quanto mais numerosas as opções, melhor para o público-leitor).
Foi um nervosismo, mas sobretudo um prazer, editar O futuro de uma ilusão e O mal-estar na cultura, duas das obras chamadas “sociais” de Freud, com a colaboração de Renato Zwick (que não poupou esforços para alcançar, no português, o mesmo nível de clareza linguística e conceitual dos originais em alemão); de Edson Sousa e Paulo Endo, profundos e apaixonados conhecedores não apenas da obra freudiana, mas da vida do pai da psicanálise; de Márcio Seligmann-Silva, verdadeiro entusiasta das releituras que as novas traduções de Freud proporcionarão a todos, e que foi suficientemente audaz e suficientemente fiel ao espírito revolucionário do autor ao propor “cultura” para tradução de “Kultur”, em vez da tradução tradicional, “civilização”; e de Renata Udler Cromberg, que enriquece e atualiza a leitura de O futuro de uma ilusão com seu prefácio, tão humanista, tão certo da possibilidade de melhora das pessoas.
Espero que os leitores gostem. Para aqueles que tomarem contato com Freud pela primeira vez por meio desses livros, que suas vidas sejam doravante iluminadas por essa inteligência maior.

Boa leitura.

* Caroline Chang é editora e tradutora da L&PM

L&PM em tempo real #1 – “História regional da infâmia”

terça-feira, 16 março 2010

Como prometemos lá na primeira apresentação (sim, já tivemos duas) do blog, o nosso objetivo é fazer com que você, caro leitor, fique sempre por dentro do que está acontecendo na editora.  Na última semana, por exemplo, quem veio fazer uma visita ao editor Ivan Pinheiro Machado foi o jornalista e escritor Juremir Machado da Silva.

Juremir e Ivan discutem "História regional da infâmia", que deve ser lançado no segundo semestre de 2010 / Fotos: Cristine Kist

Os dois conversaram sobre o próximo livro de Juremir, que deve ser lançado no segundo semestre desse ano sob o título provisório de História regional da infâmia – O destino dos negros farrapos e outras iniquidades brasileiras.

Saiba mais sobre o livro nesse pequeno resumo feito pelo Ivan:

“Juremir Machado da Silva pesquisou 3 anos, estudou 15 mil documentos com a ajuda de mais 10 pesquisadores. O resultado foi um livro que desnuda a Revolução Farroupilha do manto de mitos que a envolve. É um livro, ao mesmo tempo, sobre a história da revolta e sobre ‘a questão do mito’.  Há um estudo minucioso sobre o célebre combate de Porongos, onde foram massacrados mais de 100 soldados que faziam parte do batalhão dos ‘lanceiros negros’. Juremir alimenta a discussão sobre se houve ou não traição em Porongos. E conclui, como tantos outros historiadores, que tudo não passou de um estratagema para se livrarem dos negros revolucionários. Afinal, os chefes farroupilhas prometeram libertar os negros combatentes da escravidão e este era um item polêmico na hora de acertarem a capitulação com o Império.
‘História regional da infâmia’ é um livro ímpar pela profundidade com que ataca assuntos considerados ‘tabus’ no Rio Grande. E mostra que na realidade a revolução Farroupilha foi uma revolta de estancieiros com menos de 3.000 baixas. Se considerarmos que a guerra da Secessão americana consumiu mais de 600 mil vidas em 5 anos, devemos louvar a guerra farroupilha que fez muito barulho, mas na realidade consumiu 0,5% das vidas da guerra civil americana, no dobro do tempo. Enfim, o livro, ao desnudar o mito, reduz o movimento a uma dimensão infinitamente menor do que aquela que nos ensinam nas escolas. Ele analisa a mistificação criada a partir do século XX e a espantosa competência daqueles que ‘incharam’ a história de uma revolta que não foi assim tão terrível. Afinal, os revolucionários jamais controlaram Porto Alegre, Rio Grande e Pelotas, praticamente as únicas cidades importantes do estado à época. E, ao contrário de todas as revoluções, esta acabou muito bem, com os seus chefes indenizados regiamente pelos vencedores imperiais e voltando para suas fazendas sem serem incomodados.”

Ivan Pinheiro Machado

Apresentação

sexta-feira, 12 fevereiro 2010


Por Ivan Pinheiro Machado

O Blog da L&PM Editores será um espaço de opinião e serviço que trata, preferencialmente, de tudo que acontece no mundo da cultura e do entretenimento. Opiniões, resenhas de livros, polêmicas, contestações, informações, entrevistas, grandes textos de grandes autores, poetas jovens e nem tanto, planos, utopias, histórias, ensaios, ironias, iconoclastias, enfim, onde houver vida inteligente, nós pretendemos nos habilitar, divulgar e interagir com os nossos amigos e leitores.

Entre tantas possibilidades, iniciamos como convém aos que celebram: à mesa. E vejam só que mesa! O jornalista e escritor José Antonio Pinheiro Machado – que também atende pelo codinome Anonymus Gourmet–  está na primeira Paris Cookbook Fair, a Feira Mundial do Livro de Gastronomia na capital francesa. E de lá ele vai mandar boletins diários contando com exclusividade o que se passa neste verdadeiro paraíso da gastronomia.