Artigo

Encontrei o Leonardo!

sexta-feira, 1 outubro 2010

Por Paula Taitelbaum*

Enquanto leio o primoroso Roubaram a Mona Lisa! de R. A. Scotti (você não leu? Tá esperando o quê?) descubro, além de um livro muitíssimo bem escrito – sobre o verídico roubo do quadro mais famoso do mundo em 1911 – que alguns personagens das belas artes mundiais possuem um lado que eu desconhecia. Primeiro, deparei com um Picasso que envolvia-se com freqüência em furtos de obras de arte: “No final da audiência, Picasso, que havia comprado as peças roubadas, foi liberado depois de assumir o ato e ser alertado para que não saísse de Paris”. Depois, fiquei sabendo que Leonardo da Vinci arrasava os corações de Florença com um rosto que tinha uma beleza “fora do comum”. Para mim, a imagem que surgia ao ouvir falar do mestre da Vinci era a de um velho homem de nariz adunco, muitas rugas e vasta cabeleira – e não a figura do titã de cabelos louros e encaracolados que lhe caiam sobre os ombros despertando suspiros nas donzelas. Confesso que duvidei. E por isso fui ao Google procurar algo que pudesse atestar a beleza do pai da Mona Lisa. O que encontrei foi o vídeo produzido pelo TED – Ideas worth spreading. É uma micro palestra do artista Siegfried Woldhek sobre o verdadeiro rosto de Leonardo da Vinci. Muito bom!

Este texto foi originalmente publicado em março de 2010, mas como considero esse livro e esse vídeo imperdíveis, decidi postá-lo novamente.

Paula é jornalista, escritora e coordenadora do Núcleo de Comunicação L&PM

A aventura de traduzir Kerouac

sexta-feira, 9 abril 2010

Guilherme da Silva Braga enfrentou o desafio de traduzir Jack Kerouac: Visões de Cody, Big Sur e agora Anjos da desolação, que deverá ser lançado no início do segundo sementre de 2010. Obras viscerais de um autor que marcou o século XX, que inovou na linguagem e segue sendo contemporâneo, e que chega até nós na versão impecável de Guilherme que narra, abaixo, o duro caminho que percorreu para traduzir o texto e a alma de Kerouac.

Por Guilherme da Silva Braga

Depois de três meses de trabalhos começados logo após o Ano-Novo e de quase quatrocentas páginas de prosa ensandecida, hoje terminei a tradução de mais um livro do Kerouac, que vai sair em português pela L&PM com o título de Anjos da desolação (“Desolation Angels”). Assim como aconteceu com Visões de Cody, essa é a primeira tradução de Anjos da desolação para o português, o que é uma ótima notícia para os leitores ávidos por novidade.
Não sei se algum leitor faz idéia, mas esse jeitão largado dos textos do Kerouac pode ser um tanto intimidador para quem traduz, mesmo quando a gente trabalha com o maior cuidado e o maior respeito pelo texto. Quando terminei a minha tradução do difícil poema Mar, que encerra o Big Sur, por exemplo, foi um grande incentivo descobrir que a tradução do Paulo Henriques Britto (Brasiliense, 1985) – embora muito diferente da minha – tinha dado um tratamento mais ou menos similar ao texto. Faz bem saber que o que a gente está fazendo não é uma loucura e que outros tradutores de reconhecida competência e talento tomaram decisões parecidas quando precisaram.

Um bom começo para quem quer conhecer Kerouac

Guilherme também traduziu "Visões de Cody" / Divulgação

Digo sem dúvida que Anjos da desolação é o meu livro favorito do Kerouac até o momento, bem como uma excelente apresentação para quem nunca leu nenhuma obra do cara. Anjos da desolação não é tão surtado quanto Visões de Cody, mas ainda assim quaisquer concessões à “arte do bem escrever” no sentido acadêmico-babaca do termo passaram longe: Kerouac acerta a mão na escrita de sua prosa tipicamente escalafobética, mantendo a estranheza, a espontaneidade e o experimentalismo subversivo do texto, porém sem descambar o tempo inteiro para o absurdo. O resultado é um livro a um só tempo mais cativante e de leitura mais agradável.
Como de costume, em Anjos da desolação Kerouac faz da vida uma aventura e relata desde as experiências espirituais que teve durante a solidão prolongada no topo do Desolation Peak, onde trabalhou como vigia de incêndios, até cenas absolutamente hilárias ao lado dos amigos Allen Ginsberg, Peter Orlovsky, Lafcadio Orlovsky e Gregory Corso na Cidade do México – tudo regado a viagens, garotas, alegrias, bebidas, paranoias, tristezas e ternuras, como qualquer leitor devoto está cansado de saber.
Como tradutor que sou, no entanto, não me cabe contar a história do livro, mas apenas a da tradução. Anjos da desolação, diferente do que ocorreu em Visões de Cody, não virá acompanhado de nenhuma nota introdutória minha sobre a tradução, uma vez que as dificuldades que apresenta – embora não tenham faltado – não são nem tão específicas nem tão extremas a ponto de justificar a tal nota. O que não me impede de escrever estas breves palavras sobre alguns dos percalços que enfrentei com tanta alegria durante a tradução da obra, claro.
Ao contrário do que reza a cartilha tradutória – mas a exemplo do que quase todos os tradutores literários que conheço e com quem já troquei idéias fazem –, não costumo ler os livros que traduzo antes de começar a traduzi-los. No caso específico do Kerouac, parece-me que abrir mão de uma leitura prévia pode ter o benéfico efeito colateral de manter o frescor do texto, o que evidentemente não me dispensa, ao cabo da tradução, de reler todo o texto produzido em português uma segunda vez com o maior cuidado possível para corrigir erros, completar lacunas e aparar arestas a fim de deixar o texto o mais fluente possível.

Parte da série "Beats", publicada pela L&PM

Cada página, um desafio

Tenho certeza de que há quem pegue os livros do Kerouac – seja no original, seja em uma tradução minha ou dos outros valentes tradutores que arriscaram o pescoço nas outras versões brasileiras dos livros do autor – e pense que é fácil escrever ou traduzir prosa em um estilo mais livre, já que certas preocupações com correção gramatical, coerência e coesão textual vão em boa parte para o espaço. O que menos gente percebe é que toda essa liberdade estilística gera um conjunto muito particular de problemas tradutórios. Um dos aspectos mais gritantes, no caso específico de Kerouac, é o som e o ritmo da prosa original, dotada de uma naturalidade incrível, que a faz soar quase como se fosse de fato um texto falado – o que às vezes de fato acontece, como por exemplo no enorme capítulo de Visões de Cody intitulado Frisco: a fita. Assim, um dos grandes desafios de traduzir Kerouac é manter essa espontaneidade, essa vivacidade da língua falada no texto escrito – algo que não estamos acostumados a ver. Muito do que pode parecer desleixo e improviso destrambelhado quando escrito na página soa exatamente como falaríamos no dia-a-dia se lido em voz alta com a entonação adequada (verdade que em certos casos soa tal como falaríamos depois de tomar um porre, mas ainda assim o efeito de verossimilhança permanece).

Os diálogos, um dos pontos altos

Outro aspecto muito comentado e raras vezes explicado quando se fala sobre tradução é a necessidade de conferir a cada personagem uma voz própria. As primeiras vezes em que ouvi falar a respeito, não entendi muito bem como esse efeito seria alcançado. Mas durante a tradução de Visões de Cody descobri um caminho que tem me prestado bons serviços e me permitido dar uma cara própria às falas de Kerouac, Neal Cassady, Gregory Corso, Allen Ginsberg, William Burroughs e o resto desse pessoal. No texto original, o modo como alguns dos personagens falam – Cassady em particular – é tão flagrantemente diferente dos demais que me vi obrigado a elaborar um guia pessoal de estilo para os diferentes protagonistas, a fim de registrar as peculiaridades que eu conferi, em português, à fala de cada um. Assim, nas minhas traduções, o leitor notará por exemplo que Cassady prefere a forma “cê” em vez de “você”, e que Kerouac e Ginsberg falam “teu”, enquanto Corso fala “seu”. Claro, esses são apenas exemplos simplórios, mas depois de traduzir três livros de Kerouac – Visões de Cody, Big Sur e agora Anjos da desolação, com um quarto livro do autor já em vista – o meu pequeno guia cresceu a ponto de incluir expressões e maneirismos menos óbvios, como “fiadaputa” (em geral dito por Neal Cassady), “tá legal” (Gregory Corso), “hmmm” (William Burroughs) e “volta e meia” (Jack Kerouac). É óbvio que estas são apenas orientações gerais que elaborei para a minha própria consulta e não regras infalíveis a que me ative de maneira obstinada – o que sequer seria desejável –, mas de qualquer modo pareceu-me que adotar este ou aquele modo de dizer dependendo de quem está falando seria uma boa forma de marcar a individualidade dos personagens nos diálogos.
Os diálogos de Anjos da desolação, aliás, são um dos pontos mais altos do livro. Em algumas das melhores cenas, Gregory Corso, sempre aos berros, faz um breve e inflamado discurso sobre a beleza e a verdade para os atônitos passageiros de um ônibus; Allen Ginsberg trava uma divertidíssima conversa trilíngüe em que mistura inglês (português), espanhol e francês para pechinchar o aluguel de um apartamento na Cidade do México com a senhoria; e Lafcadio, o irmão parcialmente catatônico de Peter Orlovsky, insiste em fazer perguntas sobre os sonhos de Kerouac.

Agora é só esperar mais alguns meses para o livro chegar às livrarias.

Banco Van Gogh: o banco que jamais aceitaria Van Gogh como cliente

segunda-feira, 5 abril 2010

Por Ivan Pinheiro Machado

Imagine um banco onde os clientes não precisam de banco. Não pedem empréstimos, nunca utilizaram o cheque especial e só podem investir se tiverem mais de R$ 40 mil. Nem jamais ficaram, como os mortais em geral, tensos na fila de espera, aguardando um gerente que certamente vai negar o emprestimozinho tão necessário para pagar uma operação cirúrgica, uma reforminha na casa ou as prestações atrasadas da faculdade do filho. Enfim, imagine um banco do qual Vincent Van Gogh jamais poderia ser cliente. Imaginou? Pois este banco, 120 anos depois da sua morte, chama-se Van Gogh. E é anunciado na televisão como o banco dos ricos, dos que não precisam de banco. E eu fico pensando. Quem imaginou isso? Será que a escolha do nome foi ignorância, mau gosto ou uma ironia tão refinada que não se consegue alcançar a olho nu? Eu vejo o anúncio do banco dourado e fico lembrando do genial, incompreendido, miserável e desesperado pintor que se matou porque a vida tinha negado o mínimo que ele precisava para viver. Aconselho aos publicitários e banqueiros que bolaram isto, que leiam a biografia de Van Gogh, coleção L&PM Pocket, R$ 19,50.

Freud explica: agora em livro de bolso

quarta-feira, 17 março 2010

Por Caroline Chang*

Minha tia, uma das figuras principais da minha formação, é psicóloga de orientação freudiana. Numa certa fase da minha infância, eu dizia que, quando crescesse, queria ser “pepsicóloga”. Quando a realidade oferecia algum fenômeno, alguma relação ou explicação não-evidente, mas inconsciente, logo aprendi a lascar, do alto do meu então um metro de altura: “Freud explica” ou “Que lapso!”. Em seguida, quando meu pai e a minha mãe se separaram, e eu, em 1983 e com sete anos, passei a viver com o meu pai, a importância do Freud na minha vida recrudesceu. Passei a frequentar duas vezes por semana o consultório de uma “psi” (as diferenciações profissionais não eram claras para mim então) que, entre uma brincadeira aqui e um jogo ali (meu preferido, e acho que o dela também, era o “Jogo da vida”), me incitava a falar e fazia perguntas, algumas das quais incômodas. Na minha adolescência, o hábito de falar para elocubrar já era parte de mim, e mais uma vez fiz psicoterapia, com uma freudiana-kleiniana. De forma que não considero um exagero dizer que devo muito a Freud, esse gênio da raça, “Sigi de ouro”, como lhe chamava a mãe. De forma que me senti imbuída não só de uma pesada responsabilidade moral e profissional, mas de um senso de responsabilidade íntimo, talvez primo da gratidão, quando, cerca de três anos antes de janeiro de 2010 (data em que a obra freudiana entraria em domínio público), demos início à necessariamente longa, lenta e pedregosa empreitada de publicar algumas de suas principais obras em formato de bolso.

Assim como acho que num mundo ideal todo mundo deveria/poderia fazer psicoterapia ou análise pelo menos uma vez na vida, considero – respeitadas as leis de direito autoral – um motivo de comemoração para a humanidade quando obras do calibre das de Freud se tornam disponíveis em várias edições, em várias traduções, editadas por diversos profissionais e pelas mais variadas casas. E creio que é uma razão de orgulho para nós, brasileiros, o fato de no nosso país haver uma tradição psicanalítica forte a ponto de várias editoras respeitadas estarem neste momento trabalhando em novas edições e traduções de Freud. (Eu, que cresci lendo tão-somente as coleções Vaga-Lume e Pra Gostar de Ler, que era o que havia de disponível na época, garanto: quanto mais numerosas as opções, melhor para o público-leitor).
Foi um nervosismo, mas sobretudo um prazer, editar O futuro de uma ilusão e O mal-estar na cultura, duas das obras chamadas “sociais” de Freud, com a colaboração de Renato Zwick (que não poupou esforços para alcançar, no português, o mesmo nível de clareza linguística e conceitual dos originais em alemão); de Edson Sousa e Paulo Endo, profundos e apaixonados conhecedores não apenas da obra freudiana, mas da vida do pai da psicanálise; de Márcio Seligmann-Silva, verdadeiro entusiasta das releituras que as novas traduções de Freud proporcionarão a todos, e que foi suficientemente audaz e suficientemente fiel ao espírito revolucionário do autor ao propor “cultura” para tradução de “Kultur”, em vez da tradução tradicional, “civilização”; e de Renata Udler Cromberg, que enriquece e atualiza a leitura de O futuro de uma ilusão com seu prefácio, tão humanista, tão certo da possibilidade de melhora das pessoas.
Espero que os leitores gostem. Para aqueles que tomarem contato com Freud pela primeira vez por meio desses livros, que suas vidas sejam doravante iluminadas por essa inteligência maior.

Boa leitura.

* Caroline Chang é editora e tradutora da L&PM

Blog, WebTV e um novo site comemoram 36 anos de L&PM e 15 anos na internet

terça-feira, 16 março 2010

Por Ivan Pinheiro Machado

A internet ainda engatinhava no Brasil de 1995. Em Porto Alegre, eram apenas dois provedores: a Nutec (que mais tarde seria o ZAZ e, na bolha das grandes aquisições, acabaria sendo absorvida pelo Terra) e a estatal PROCERGS, que cuidava de toda a parte técnica dos sistemas de informática do Governo do Estado. Eram essas duas empresas que abrigavam os 450 internautas até então registrados no Rio Grande do Sul. A “operação internet” começava muito mais como uma excentricidade, um investimento no futuro. Nem Bill Gates tinha entrado na jogada, e a única ferramenta de acesso à internet era o velho “Netscape”. Atenta à novidade, a L&PM entrou em contato com diretora da PROCERGS, Marli Nunes Vieira, e propôs uma parceria com a estatal – imediatamente aceita – para colocar no ar o site inaugural da editora. Depois de seis meses de trabalho, em setembro de 1995, a página virtual da L&PM foi lançada. Era o primeiro site comercial do Rio Grande e o primeiro site de uma editora no Brasil, com todos os livros cadastrados, capas, sinopses e biobibliografias do autores. E lá se foram 15 anos.

Em 2010 já não são 450 internautas. São milhões de pessoas conectadas, dependentes, interligadas, transformando a internet no mais corriqueiro meio de comunicação e informação. De lá para cá, assim como a web mudou, a L&PM cresceu. E tornou-se protagonista da única grande revolução que aconteceu no mercado editorial brasileiros nos últimos 20 anos: a implantação do livro de bolso como um hábito do brasileiro. Portanto, não é soberba dizer que está no DNA da editora abrir caminhos e perseguir o novo, o inusitado.

No distante ano de 1974, dois jovens de 21 anos juntaram seus nomes e seus sonhos para criar uma microeditora que, em princípio, deveria ser uma experiência undergournd, bem ao gosto dos anos 70. Hoje, a L&PM se posiciona entre as grandes editoras brasileiras, e é líder de mercado no segmento de livro de bolso. O que faz com que tenhamos muito para comemorar.

Pois é na esteira dessa comemoração, para registrar essa vontade de lançar o novo, que estamos inovando mais uma vez. A partir dessa segunda-feira, 15 de março, o site pioneiro da L&PM estará novo – de novo. Além da mudança no design, de notícias, sinopses de livros e biografias, vamos inaugurar o Blog da L&PM e a primeira WebTV de uma editora no Brasil. O Blog será um espaço em que pretendemos expor o cotidiano do nosso trabalho e publicar idéias, comentários e mensagens de nossos amigos, autores e leitores. A Web TV, que entra no ar já na segunda-feira, é um projeto piloto que deverá se consolidar e ganhar novos programas a partir do início de abril. Lá, você encontrará os autores da editora falando sobre sua vida e obra, além de vídeos relacionados com o nosso trabalho, entrevistas, curiosidades e tudo o que tem a ver com cultura em geral. Mais uma vez – a exemplo dos livros de bolso – os nossos colegas vão ter que correr atrás. E o beneficiado será sempre o leitor. A idéia é essa.

Arthur Rimbaud: a tragédia, o charme e o mito

quinta-feira, 25 fevereiro 2010

Por Ivan Pinheiro Machado

A padiola é suspensa e içada até o navio. Lá embaixo, dezesseis homens olham calados depois de realizarem seu trabalho. Abdo Rimbo, como chamavam Arthur Rimbaud, está indo embora para morrer. A dor lancinante impede o riso, um aceno mais efusivo. Calados, aqueles homens do deserto quase perdoam seu algoz; aquele europeu duro, irrascível, que só se referia a eles como “negros sujos, imbecis, bestas de carga”. Depois de 11 anos na África Oriental, a maldita doença interromperia sua fuga.

O navio o levaria de Aden a Marselha e o grande poeta da França morreria poucos meses mais tarde, depois de um sofrimento atroz, aos 37 anos, em 10 de outubro de 1891.

Ninguém notou quando morreu. Mesmo o grande Verlaine já tinha esquecido o seu grande amor adolescente, o poeta irreverente, tresloucado, de grandes olhos azuis que escandalizara o Quartier Latin. Também pudera, ele havia sumido em 1880 na chamada “terra das sombras”, a tenebrosa Abissínia na África Oriental e ninguém, salvo sua família, havia tido notícias dele.

O tempo foi passando e sua poesia, enfim descoberta, espalhou-se pelo ar da França, como pólen na primavera. Seus versos ardentes, suas alucinações, seus poemas geniais, suas iluminações e sua temporada no inferno espantaram o mundo. Todos estavam perplexos; como aquela obra genial fora produzida por um adolescente que aos dezoito anos abandonara a poesia, a família, os amigos, a França?

Depois de rolar pela Europa e o Oriente próximo, aos 24 anos Arthur chegou ao norte da África. Nunca mais escrevera um verso. Queria enriquecer, queria desaparecer. Não seria mais Jean-Nicholas Arthur Rimbaud. Seria Abdo Rimbo, o mercador da Abssínia. O traficante de armas e – dizem, sem nunca ter sido provado– de escravos. O obsessivo francês que carregava consigo, sob o sol de 50 graus, um cinturão com o ouro acumulado atado à cintura. Vagarosamente a lenda cresceu. O poeta solitário, calado, internado no fundo da África. Traficando armas, escravos, camelos. Ingredientes poderosíssimos para excitar os sofisticados círculos literários parisienses e daí ganhar o mundo. O mito cresceu, histórias aqueceram a lenda do menino poeta que abandonou a poesia aos 18 anos e fugiu para a África. Milhares de livros foram escritos; biografias, ensaios, teses, todos tentavam decifrar o enigma. Seus passos pelos confins da África foram seguidos meticulosamente por centenas de biógrafos que escreveram milhares de páginas. Mas nada foi descoberto. Ficou o mito. Que cresceu com tempo e continua a crescer, ficando, quem sabe, maior que a obra poderosa, fundamental, que influenciou decisivamente a poesia dos séculos que vieram depois.

Rimbaud no Brasil

A coleção L&PM POCKET publicou Uma temporada no inferno, com tradução e introdução de Paulo Hecker Filho. Entre a reduzida bibliografia rimbaldiana publicada no Brasil destacam-se Poesia Completa (Top Books), com tradução e introdução de Ivo Barroso, a Correspondência Completa (Top Books), também um magnífico trabalho de tradução, introdução e notas do poeta e tradutor Ivo Barroso, Rimbaud Livre, um ensaio de Augusto de Campos, e o excelente livro Rimbaud na África (Nova Fronteira), do inglês Charles Nicholl. Destaque também para o livro A hora dos assassinos, um ensaio sobre a vida de Rimbaud por Henry Miller (L&PM POCKET). No início da década de 80 a L&PM publicou Rimbaud na Abssínia e Rimbaud da Arábia do especialista francês Alain Borer e uma antologia de cartas, “Correspondência de Arthur Rimbaud” (seleção e edição de Ivan Pinheiro Machado) com introdução de Ivo Barroso. Estes livros estão totalmente esgotados podendo ser encontrados somente em sebos ou no site Estande Virtual.

Rimbaud também está na Série Biografias L&PM.