Resenha

Um mundo melhor?

terça-feira, 11 maio 2010

O crítico Jacob Klintowitz escreveu sobre o conto “Um mundo melhor”, do seu amigo Sergio Faraco, no Suplemento Literário de Minas Gerais. Leia um trecho:

“Tudo poderia levar a crer que se trata de um conto de ideias, pois a história contém todos os elementos indispensáveis da vida intelectual. Dos três personagens, dois são homens de atividade artística, um é escritor e o  outro é diretor de teatro. Há dois cenários, e um deles é um teatro. A ação objetiva tem dois momentos. O primeiro é um ensaio em que se discute o caráter da representação. A outra ação é inexpressa, uma cena de violência física. E o único diálogo coloca as questões fundamentais sobre a natureza da arte. Entretanto, ainda que o conto “Um Mundo Melhor”, de Sergio Faraco, obviamente contenha ideias, elas estão subordinadas a um conflito existencial.”

- Para ter acesso à íntegra da crítica de Jacob, acesse a página do SLMG. A resenha ocupa as páginas 8 e 9.
- Para assistir à conversa de Faraco e Klintowitz na FestiPoa Literária, clique aqui.

Um corpo aos pedaços… mas sem cabeça. E o gênio de Simenon

segunda-feira, 26 abril 2010

Por Ivan Pinheiro Machado

Robert e seu irmão estavam intrigados. O motor fazia um barulho diferente e a barcaça curiosamente não saía do lugar. Parecia que a hélice girava no vazio. O diagnóstico era fácil: a embarcação levava um carregamento de pedras e, com o peso, o casco estava próximo ao lodo no fundo do canal. Naquele ponto, no Sena, as pessoas jogavam de tudo no rio e algo havia se enroscado na hélice. Desligaram o motor e cada um dos irmãos pegou um arpão. Depois de várias tentativas, um deles conseguiu firmar o objeto intruso e finalmente Robert o arrancou das engrenagens. Para espanto dos irmãos, na ponta do arpão havia um braço humano. Este é o mote. Mais um problema para o comissário Maigret. Ou melhor, dois problemas. Chamada a polícia, foram retirados do fundo do rio mais uma perna, um tronco, outro braço… e nada da cabeça. Portanto, era preciso descobrir, primeiro, quem viria a ser o morto e, depois, quem o matou.

Inédito no Brasil Maigret e o corpo sem cabeça é, entre todos o “Maigrets”, um dos mais verdadeiros e emblemáticos do célebre comissário.

O gênio de Georges Simenon resplandece nesta história que ultrapassa o gênero policial. É um livro tão profundo que pode até decepcionar os mais ortodoxos amantes do gênero. Pois ele se eleva a um patamar maior, que é a grande literatura e mergulha nas profundezas da condição humana. Desesperança, desamor, solidão, tristeza, fraquezas e incertezas são mazelas próprias do homem e que estão, frequentemente, na origem do mal e do crime.

Nesta história genial o leitor verá, até o ponto final na página 171, que foi guiado pela mão de um mestre que questiona, diverte e, sobretudo, emociona milhões de leitores em todo o mundo.

O professor e o louco: um grande livro

terça-feira, 13 abril 2010

*Por Ivan Pinheiro Machado

Tomara que eu me engane, mas não me lembro de ter visto na imprensa brasileira uma matéria ou uma nota sobre O Professor e o Louco (Cia. das Letras, 2008). Não quero fazer uma injustiça. Pode até ter saído alguma coisa. Mas o certo é que em nenhum lugar saiu um texto à altura deste livro extraordinário.
Simon Winchester, o autor, dá uma verdadeira aula de como fazer um livro de não-ficção muito mais empolgante, com muito mais suspense e “fantasia” do que a maioria das chatices de ficção que tomam conta das livrarias e aborrecem os leitores.
A saga do Dr. James Murray – o professor – e do Dr. W. C. Minor – o louco –, tendo como mote a construção do “Oxford English Dictionary” é uma daquelas inesquecíveis experiências de leitura. Se todos escrevessem como Winchester e traduzissem como Flávia Villas-Boas, certamente o mundo teria muito mais leitores. Eu falei construção, pois colocar de pé um dicionário como o OED, com a missão de fixar a língua inglesa, é uma empreitada tão gigantesca quanto construir uma hidrelétrica no rio Amazonas, algo que não encontra similar na história da cultura ocidental. Foram 70 anos de trabalho (de 1858 até 1928) que resultaram em meio milhão de verbetes, quase dois milhões de citações de obras clássicas, numa média de quatro citações literárias utilizando a palavra de forma diferente, por verbete, tudo isso em 12 imensos volumes. Durante 40 anos o Dr. Murray comandou este projeto que contou com a participação do corpo editorial da Oxfdord University Press e milhares de voluntários convocados através de jornais. E o mais assíduo, brilhante e preciso de todos esses voluntários foi exatamente o Dr. W. C. Minor.
O livro começa quando,curioso e grato, Murray decide, 20 anos depois de intenso contato epistolar, conhecer pessoalmente o velho colaborador que morava nos arredores de Londres. O fiacre cruza a cidade rumo ao endereço que  ainda guardava na memória, tantas vezes chegara à sua mesa a correspondência endereçada na letra precisa e bem feita do médico americano William Chester Minor. Ao fim de uma hora cruzando a neblina fria da noite londrina, Dr. Murray chega ao seu destino. Para seu espanto, a casa de Minor era o asilo de loucos de Broadmoor, onde há duas décadas estava internado seu mais fiel colaborador. Como e por quê Minor, veterano médico de campanha na Guerra da Secessão americana, chegou a um asilo nos arredores de Londres?
Não vou dizer.
Leia e deleite-se com este livro magistral. Uma história que mistura crime, erudição, maldade, generosidade e a ambição de conceber uma obra monumental que se eternizaria como o mais importante documento da língua inglesa.

Encontrei o Leonardo!

quinta-feira, 18 março 2010

Por Paula Taitelbaum*

Enquanto leio o primoroso Roubaram a Mona Lisa! de R. A. Scotti (você não leu? Tá esperando o quê?) descubro, além de um livro muitíssimo bem escrito – sobre o verídico roubo do quadro mais famoso do mundo em 1911 –  que alguns personagens das belas artes mundiais possuem um lado que eu desconhecia. Primeiro, deparei com um Picasso que envolvia-se com freqüência em furtos de obras de arte: “No final da audiência, Picasso, que havia comprado as peças roubadas, foi liberado depois de assumir o ato e ser alertado para que não saísse de Paris”. Depois, fiquei sabendo que Leonardo da Vinci arrasava os corações de Florença com um rosto que tinha uma beleza “fora do comum”. Para mim, a imagem que surgia ao ouvir falar do mestre da Vinci era a de um velho homem de nariz adunco, muitas rugas e vasta cabeleira – e não a figura do titã de cabelos louros e encaracolados que lhe caiam sobre os ombros despertando suspiros nas donzelas. Confesso que duvidei. E por isso fui ao Google procurar algo que pudesse atestar a beleza do pai da Mona Lisa. O que encontrei foi o vídeo produzido pelo TED – Ideas worth spreading. É uma micro palestra do artista Siegfried Woldhek sobre o verdadeiro rosto de Leonardo da Vinci. Muito bom!

Paula é jornalista, escritora e coordenadora da L&PM WebTV

Freud explica: agora em livro de bolso

quarta-feira, 17 março 2010

Por Caroline Chang*

Minha tia, uma das figuras principais da minha formação, é psicóloga de orientação freudiana. Numa certa fase da minha infância, eu dizia que, quando crescesse, queria ser “pepsicóloga”. Quando a realidade oferecia algum fenômeno, alguma relação ou explicação não-evidente, mas inconsciente, logo aprendi a lascar, do alto do meu então um metro de altura: “Freud explica” ou “Que lapso!”. Em seguida, quando meu pai e a minha mãe se separaram, e eu, em 1983 e com sete anos, passei a viver com o meu pai, a importância do Freud na minha vida recrudesceu. Passei a frequentar duas vezes por semana o consultório de uma “psi” (as diferenciações profissionais não eram claras para mim então) que, entre uma brincadeira aqui e um jogo ali (meu preferido, e acho que o dela também, era o “Jogo da vida”), me incitava a falar e fazia perguntas, algumas das quais incômodas. Na minha adolescência, o hábito de falar para elocubrar já era parte de mim, e mais uma vez fiz psicoterapia, com uma freudiana-kleiniana. De forma que não considero um exagero dizer que devo muito a Freud, esse gênio da raça, “Sigi de ouro”, como lhe chamava a mãe. De forma que me senti imbuída não só de uma pesada responsabilidade moral e profissional, mas de um senso de responsabilidade íntimo, talvez primo da gratidão, quando, cerca de três anos antes de janeiro de 2010 (data em que a obra freudiana entraria em domínio público), demos início à necessariamente longa, lenta e pedregosa empreitada de publicar algumas de suas principais obras em formato de bolso.

Assim como acho que num mundo ideal todo mundo deveria/poderia fazer psicoterapia ou análise pelo menos uma vez na vida, considero – respeitadas as leis de direito autoral – um motivo de comemoração para a humanidade quando obras do calibre das de Freud se tornam disponíveis em várias edições, em várias traduções, editadas por diversos profissionais e pelas mais variadas casas. E creio que é uma razão de orgulho para nós, brasileiros, o fato de no nosso país haver uma tradição psicanalítica forte a ponto de várias editoras respeitadas estarem neste momento trabalhando em novas edições e traduções de Freud. (Eu, que cresci lendo tão-somente as coleções Vaga-Lume e Pra Gostar de Ler, que era o que havia de disponível na época, garanto: quanto mais numerosas as opções, melhor para o público-leitor).
Foi um nervosismo, mas sobretudo um prazer, editar O futuro de uma ilusão e O mal-estar na cultura, duas das obras chamadas “sociais” de Freud, com a colaboração de Renato Zwick (que não poupou esforços para alcançar, no português, o mesmo nível de clareza linguística e conceitual dos originais em alemão); de Edson Sousa e Paulo Endo, profundos e apaixonados conhecedores não apenas da obra freudiana, mas da vida do pai da psicanálise; de Márcio Seligmann-Silva, verdadeiro entusiasta das releituras que as novas traduções de Freud proporcionarão a todos, e que foi suficientemente audaz e suficientemente fiel ao espírito revolucionário do autor ao propor “cultura” para tradução de “Kultur”, em vez da tradução tradicional, “civilização”; e de Renata Udler Cromberg, que enriquece e atualiza a leitura de O futuro de uma ilusão com seu prefácio, tão humanista, tão certo da possibilidade de melhora das pessoas.
Espero que os leitores gostem. Para aqueles que tomarem contato com Freud pela primeira vez por meio desses livros, que suas vidas sejam doravante iluminadas por essa inteligência maior.

Boa leitura.

* Caroline Chang é editora e tradutora da L&PM

Elogio da velhice

sexta-feira, 19 fevereiro 2010

Por Luiz Antonio de Assis Brasil

O insuperável texto a respeito é o De Senectute (A Velhice, às vezes traduzido como Saber Envelhecer), de Cícero. O pensador usa um método: apresenta argumentos contra a velhice e depois os rebate. De Senectute não pretende consolar: Cícero nada vê de mau na velhice.

Vamos sumariamente aos argumentos e aos contra-argumentos.
Primeiro: a velhice nos afasta da vida ativa. Qual vida? A natureza dota cada idade de vidas próprias, com seus próprios ritmos de atividade.
Segundo: a velhice não tem forças; sim, mas ninguém exige dela ser forte! Mesmo ao suposto enfraquecimento da memória, Cícero tem resposta espantosa: diz ele que jamais viu um velho esquecer-se do lugar onde escondeu seu dinheiro: quo thesaurum obruisset. Ainda dentro deste item, diz-se que os velhos são rabujentos: difficiles. Nada disso. São rabugentos porque sempre o foram, desde a juventude; os outros é que não se aperceberam disso.
Terceiro: a velhice nos priva dos melhores prazeres. Os melhores prazeres, entretanto, mudam com a idade. Um velho terá imenso prazer nas antigas amizades, no bom vinho, no paladar pausado, na reflexão, na arte e na cultura e os desfrutará com muito mais volúpia que o jovem, pois tem mais vagares e compreensão das coisas. Além disso -vejam o bom-humor de Cícero – não se sofre por ser privado daquilo de que não se tem saudades: quod non desideres.
Quarto: a velhice nos aproxima da morte. Certo, se pensarmos apenas na cronologia; entretanto, os mais propensos a morrer cedo são os jovens, por sua afoiteza e pelo caráter devastador das doenças juvenis; ademais, não há razão para temer a morte: se houver uma vida futura post mortem, ótimo; se não houver, nunca o saberemos, aut nullus est. O autor crê na imortalidade da alma, mas prefere ficar em sua argumentação terrena.
Conclusão de Cícero: os velhos não devem nem se apegar nem renunciar sem razão à vida. Para isso é preciso ser sábio e a sabedoria é coisa natural na velhice.
Leia De Senectute. Lá está tudo isso, e melhor. Se você não lê latim, há boas traduções. Se for jovem, rirá muito; se for velho, ficará feliz – o que é muitíssimo diferente.

Texto publicado no jornal Zero Hora