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53. Três gerações de amizade e parceria

terça-feira, 8 novembro 2011

Por Ivan Pinheiro Machado*

Carlos Augusto Lacerda, meu amigo, dublê de surfista e brilhante editor, foi a terceira geração na proa da editora Nova Fronteira, esta que foi uma das maiores e mais importantes do mercado brasileiro. Pois coube a ele, em 2008, a dura missão de vender o respeitado e admirado negócio familiar para o grupo Ediouro.

Hoje, Carlos Augusto segue com o mesmo entusiasmo à frente da Editora Lexikon, especializada em livros de referência e dicionários em geral, com a autoridade do know how adquirido como editor do célebre Aurélio. Foi na editora Nova Fronteira que o mais famoso dicionário brasileiro adquiriu o respeito e a celebridade que goza até hoje.

Carlos Lacerda

A história da L&PM, em mais de 30 anos, se entrelaça ocasional e sistematicamente com a história dos editores Lacerda. Em 1974, Lima e eu chegávamos ao Rio de Janeiro com pouco mais de 20 anos para procurar um distribuidor para nossa recém fundada editora, que possuía apenas três livros em seu catálogo. Tínhamos uma carta de recomendação do jornalista e intelectual Mario de Almeida Lima (pai de Paulo Lima, o “L” da L&PM) ao seu amigo Carlos Lacerda, ex-governador do Rio de Janeiro, protagonista da cena política brasileira durante mais de três décadas. Nós queríamos que a Nova Fronteira distribuísse nossos livros no Rio. Lembro bem quando o Lima e eu chegamos no casarão de Botafogo, sede da editora, para a esperada entrevista com Carlos Lacerda. Defenestrado pela ditadura militar de quem se tornara inimigo, longe da linha de frente da política, Lacerda dedicava-se à sua editora e à pintura. Estávamos no jardim do casarão, quando vimos um homem grande atravessando o pátio e carregando, com uma certa dificuldade, uma grande tela de pintura. Ele parou e ficou nos olhando. Estávamos imobilizados diante daquela figura histórica. Afinal, era raro o dia em que não aparecia, estampado nos jornais, a sua foto de dedo em riste ou sua caricatura desenhada por algum dos grandes cartunistas do país.

Carlos Lacerda não agiu como o exuberante orador que conhecíamos pela imprensa. Muito pelo contrário. Mansamente, perguntou o que queríamos. O Lima identificou-se e ele abriu um sorriso ao ouvir o nome do seu amigo Mario de Almeida Lima. E a partir de então, naquele distante 1974, a Nova Fronteira passou a distribuiu nossos livros. Alguns anos depois, estabelecemos um contrato de exclusividade com um distribuidor e encerramos nossas relações comerciais.

Uma década mais tarde, tornei-me amigo de Sérgio, filho de Carlos Lacerda, que assumia com seu irmão Sebastião, o comando da empresa familiar. Foram muitas lembranças divertidas e agradáveis em conversas, jantares e churrascos pelo Rio Grande, Rio, Lisboa, Paris e principalmente Frankfurt, onde convivíamos todos os anos. Sérgio morreu aos 52 anos deixando-nos carentes de sua amizade e de sua liderança. Coube a ele comandar o grande salto da Nova Fronteira na década de 80. Ele trouxe para sua editora os principais autores brasileiros, recém saídos da então agonizante editora José Olympio. O seu ótimo catálogo foi então reforçado por Cecília Meirelles, Clarice Lispector, Jorge de Lima, Josué Montello, Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, João Cabral de Mello Neto entre outros.

É aí que entra o nosso amigo Carlos Augusto Lacerda, terceira geração de editores, filho de Sérgio. Com ele firmamos as parcerias entre Nova Fronteira e L&PM POCKET, publicando Agatha Christie e Georges Simenon na nossa coleção de bolso. No final da década de 2010, ao sair da NF, Carlos Augusto fundou a Lexikon e nós retomamos – como velhos amigos – a nossa parceria. Deste vez com o prestigiado dicionário Caldas Aulete (“Aulete de bolso”) e outros livros de referência como “Dicionário de dificuldades da língua portuguesa” de Domingos Paschoal Cegalla, e “Gramática do português contemporâneo” de Celso Cunha.

Aulete de bolso, o dicionário que é uma parceria com a Lexikon, editora de Carlos Augusto Lacerda

Nós aqui na L&PM, que tivemos o privilégio de conviver com estas três gerações de editores, nos sentimos gratificados, pois fomos testemunhas da formação de uma das grandes editoras brasileiras. Uma família que soube conduzi-la por quatro décadas e deixou mais do que um grande acervo editorial, um exemplo de correção profissional, talento editorial e generosidade no trato e na relação com seus amigos.

* Toda terça-feira, o editor Ivan Pinheiro Machado resgata histórias que aconteceram em mais de três décadas de L&PM. Este é o quinquagésimo terceiro post da Série “Era uma vez… uma editora“.

O professor e o louco: um grande livro

terça-feira, 13 abril 2010

*Por Ivan Pinheiro Machado

Tomara que eu me engane, mas não me lembro de ter visto na imprensa brasileira uma matéria ou uma nota sobre O Professor e o Louco (Cia. das Letras, 2008). Não quero fazer uma injustiça. Pode até ter saído alguma coisa. Mas o certo é que em nenhum lugar saiu um texto à altura deste livro extraordinário.
Simon Winchester, o autor, dá uma verdadeira aula de como fazer um livro de não-ficção muito mais empolgante, com muito mais suspense e “fantasia” do que a maioria das chatices de ficção que tomam conta das livrarias e aborrecem os leitores.
A saga do Dr. James Murray – o professor – e do Dr. W. C. Minor – o louco –, tendo como mote a construção do “Oxford English Dictionary” é uma daquelas inesquecíveis experiências de leitura. Se todos escrevessem como Winchester e traduzissem como Flávia Villas-Boas, certamente o mundo teria muito mais leitores. Eu falei construção, pois colocar de pé um dicionário como o OED, com a missão de fixar a língua inglesa, é uma empreitada tão gigantesca quanto construir uma hidrelétrica no rio Amazonas, algo que não encontra similar na história da cultura ocidental. Foram 70 anos de trabalho (de 1858 até 1928) que resultaram em meio milhão de verbetes, quase dois milhões de citações de obras clássicas, numa média de quatro citações literárias utilizando a palavra de forma diferente, por verbete, tudo isso em 12 imensos volumes. Durante 40 anos o Dr. Murray comandou este projeto que contou com a participação do corpo editorial da Oxfdord University Press e milhares de voluntários convocados através de jornais. E o mais assíduo, brilhante e preciso de todos esses voluntários foi exatamente o Dr. W. C. Minor.
O livro começa quando,curioso e grato, Murray decide, 20 anos depois de intenso contato epistolar, conhecer pessoalmente o velho colaborador que morava nos arredores de Londres. O fiacre cruza a cidade rumo ao endereço que  ainda guardava na memória, tantas vezes chegara à sua mesa a correspondência endereçada na letra precisa e bem feita do médico americano William Chester Minor. Ao fim de uma hora cruzando a neblina fria da noite londrina, Dr. Murray chega ao seu destino. Para seu espanto, a casa de Minor era o asilo de loucos de Broadmoor, onde há duas décadas estava internado seu mais fiel colaborador. Como e por quê Minor, veterano médico de campanha na Guerra da Secessão americana, chegou a um asilo nos arredores de Londres?
Não vou dizer.
Leia e deleite-se com este livro magistral. Uma história que mistura crime, erudição, maldade, generosidade e a ambição de conceber uma obra monumental que se eternizaria como o mais importante documento da língua inglesa.