Sexo para todos os gostos


Por Ivan Pinheiro Machado

Algum moralista de plantão poderia dizer que Balzac era um amoral convicto. E estaria absolutamente certo. Grande parte da obra balzaquiana trata do adultério com absoluta naturalidade. Alguns dos casos de amor mais tórridos de seus romances foram, na sua maioria, casos extraconjugais. Mas há exceções: no grande O lírio do Vale, a condessa de Mortsauf morre de paixão para não consumar fisicamente seu violento amor adúltero pelo jovem Felix de Vandensse. Uma abstinência que não é comum entre as páginas de Balzac. Na Comédia Humana é tão natural ter amantes quanto ter esposas. Ou seja, o “kit” é, invariavelmente, mulher & amante. Entre os abastados, claro.  Mesmo porque os pobres povoam a Comédia como coadjuvantes e só ficam sob os refletores quando há a possibilidade de rápida ascensão social. A homossexualidade masculina é tratado abertamente em Ilusões Perdidas e Esplendores e misérias das cortesãs. Vautrin, misterioso personagem em O Pai Goriot e vilão em Ilusões perdidas e Esplendores…  é apaixonado pelo herói do romance, Lucien de Rubempré, descrito como o homem mais bonito de Paris. A homossexualidade feminina está escancarado em A Menina dos Olhos de Ouro, livro em que o dândi Henri de Marsay, um dos personagens masculinos favoritos de Balzac na “Comédia”, inadvertidamente apaixona-se loucamente por Paquita Valdès, que por sua vez tem um caso com Margarita-Euphèmia Porrabéril. O final é trágico e a amante traída mata a sua paixão, a bela Paquita. Não sendo suficiente esta ampla demonstração de liberalismo sexual, Balzac surpreende a todos em Uma paixão no deserto; nada mais nada menos do que o caso de amor entre um soldado e uma pantera. E isto em 1830…

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Balzac: o homem de (maus) negócios


Por Ivan Pinheiro Machado

Honoré de Balzac foi um homem estranho. Nasceu em 1799 em Tours, à beira do rio Loire, em uma família tipicamente provinciana e praticamente cresceu em um internato. Na solidão de sua infância e pré-adolescência, criou um mundo à parte, onde desenvolveu sua incrível capacidade de fabulação. A ambição e a fantasia faziam parte de sua personalidade, herdada em parte de seu pai, 33 anos mais velho do que sua mãe, e cujo sobrenome Balssa, Honoré transformou em Balzac (uma cidadezinha próxima a Tour e também nome de uma velha família aristocrata). Discretamente, Monsieur Balzac acrescentou um “de” que, na época, era sinal de nobreza – e sentia enorme prazer em usar esta partícula. Em última análise, queria ser rico. Fez negócios de todo o tipo: tentou adquirir sem sucesso ações de uma mina de prata na Sardenha, criou uma editora e uma fundição de caracteres tipográficos financiada com as magras economias de sua família e foi à falência acumulando dívidas que o perseguiriam pela vida inteira. Obcecado crítico da imprensa, sonhava em ter seus próprios jornais. Em 1936, fundou o jornal La Chronique de Paris que quebrou em pouco tempo. Cinco anos mais tarde, já muito endividado, fundou  a Revue Parisiense e inventou coleções de clássicos para vender de porta em porta. Fracassou novamente.
E foi graças a este péssimo tino para os negócios, aliado a uma enorme ambição, que a literatura ganhou um dos seus maiores gênios. Na verdade, sua imensa obra foi criada para ganhar a vida, ganhar dinheiro. Entregava livros contra o pagamento dos editores.
Mas, no fundo, muito mais do que ser um escritor, o que Balzac queria era desfilar pelas Tullerias num fiacre, exibir-se como se fosse um nobre. No fim das contas, ele trabalhava dezoito, vinte horas por dia, para arrumar dinheiro e livrar-se dos credores que o perseguiam. Foi um best seller na sua época e um dos autores mais lidos e publicados na Europa. Ganhou dinheiro com a literatura. Mas morreu esgotado aos 51 anos quando recém realizara o seu sonho de comprar um palacete finamente decorado e casar com uma condessa de verdade.
Sua rotina durante quase 20 anos foi acordar à meia noite e escrever até as seis da tarde. Só dormia 4 ou 5 horas e voltava ao trabalho extenuante na tentativa de cumprir prazos e entregar textos aos editores que lhe pagavam. Mesmo tento vivido a glória das ruas, sendo reconhecido como escritor popular, foi sistematicamente desdenhado pela crítica que jamais reconheceu seu valor em vida. Balzac morreu pobre, num palacete, sustentado pela Condessa Hanska, o amor de toda a sua vida. Mas sem conseguir seu grande objetivo que era… pagar as dívidas.

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Ler Hamlet agora ou daqui a pouco: eis a questão

Ao digitar “Hamlet” no Google, o resultado soma aproximadamente 20 milhões* de citações. E não é preciso ir muito longe: mesmo aqueles que nunca leram Shakespeare (e que não sabem o que estão perdendo), já ouviram falar do Príncipe Hamlet.
Escrita entre 1599 e 1601, a peça, com seu denso enredo, mistura traição, vingança, incesto e corrupção para formar uma teia trágica de acontecimentos. E se Shakespeare realmente se baseou na lenda de Amleto (ou Amleth) – que depois se transformaria numa peça de teatro isabelino conhecida hoje como Ur-Hamlet – , ninguém sabe ao certo. De certeza mesmo, só que Hamlet é um clássico obrigatório aos amantes do bom texto e da boa trama. E também que a ótima tradução de Millôr Fernandes oferece o prazer de ler Shakespeare em português. Mas enquanto você não vai correndo buscar o seu Hamlet da Coleção L&PM POCKET, que acaba de sair em nova edição, divirta-se assistindo a versão de Os Simpsons para o clássico. E veja que, mais de 400 anos depois, Hamlet continua sendo a inspiração e o deleite de muitos:

*Atualização: em 9 de agosto de 2011, se você buscar por “Hamlet” no Google, o número de resultados já ultrapassa os 51 milhões!

Mansão em que Capote morou está a venda

Essa casa amarela da foto foi o local onde Truman Capote escreveu o clássico Bonequinha de Luxo. Capote morou lá entre 1955 e 1965. Segundo o NY Daily News, o autor de A sangue frio teria dito que embebedou o amigo Oliver Smith, então dono da mansão, para convencê-lo a lhe alugar uma parte da casa. Smith foi diretor de arte da peça da Broadway “Amor, sublime amor”.

Agora, a mansão de 11 quartos (e 11 lareiras) deve bater o recorde de preço de uma casa no Brooklyn: a estimativa é de que seja vendida por $18 milhões. O recorde anterior era de $12 milhões.

Dunga assassina o português – Parte II

Por Ivan Pinheiro Machado

As duas pessoas mais importantes do país, hoje, são o Presidente Lula e Dunga, o técnico da seleção brasileira. Sobre eles se voltam os chamados “olhos da nação”. Ontem, o Brasil parou para saber os convocados de Dunga e ouvir a sua entrevista coletiva. E, na minha opinião, muito pior do que deixar de convocar os dois melhores jogadores do país – Neymar e Ganso –, muito pior, foi o show de erros de português, de autoritarismo e arrogância protagonizado pelo comandante da Seleção Brasileira. Se houvesse uma forma de voltar ao passado, Dunga seria o técnico dos sonhos do ditador mais truculento de nossa história, o General Médici.

Lula, tão criticado pela imprensa pelos seus deslizes no português, é um verdadeiro lexicógrafo perto do Dunga. Mas, curiosamente, ninguém na imprensa critica as barbaridades que o técnico diz em cada espaço que tem na mídia. Depois de inúmeras trombadas na língua “que Camões chorou no exílio”, perguntado sobre as razões da convocação do goleiro Gomes, ele explicou:

– Ele está habituado a conviver “com nós”.

O velho filósofo e esteta húngaro Georg Lukács dizia: “A forma nunca é indissociável do conteúdo”. Portanto…

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Um mundo melhor?

O crítico Jacob Klintowitz escreveu sobre o conto “Um mundo melhor”, do seu amigo Sergio Faraco, no Suplemento Literário de Minas Gerais. Leia um trecho:

“Tudo poderia levar a crer que se trata de um conto de ideias, pois a história contém todos os elementos indispensáveis da vida intelectual. Dos três personagens, dois são homens de atividade artística, um é escritor e o  outro é diretor de teatro. Há dois cenários, e um deles é um teatro. A ação objetiva tem dois momentos. O primeiro é um ensaio em que se discute o caráter da representação. A outra ação é inexpressa, uma cena de violência física. E o único diálogo coloca as questões fundamentais sobre a natureza da arte. Entretanto, ainda que o conto “Um Mundo Melhor”, de Sergio Faraco, obviamente contenha ideias, elas estão subordinadas a um conflito existencial.”

– Para ter acesso à íntegra da crítica de Jacob, acesse a página do SLMG. A resenha ocupa as páginas 8 e 9.
– Para assistir à conversa de Faraco e Klintowitz na FestiPoa Literária, clique aqui.

Aniversário em ritmo punk: Sid Vicious faria 53 anos hoje

“Todo mundo sabia que Sid Vicious estava no Hurrah´s naquela noite. Quando alguém famoso como Sid está num lugar, você sabe onde ele está, você fica dando umas olhadinhas por cima do ombro, só pra ficar de olho nele pra ver se ele vai fazer alguma coisa bárbara, e, é claro, vi Sid dar uma garrafada em Todd Smith, irmão de Patti Smith”. O depoimento de Jim Marshall é um dos tantos sobre Sid Vicious que ilustram Mate-me por favor (Please Kill me), uma história sem censura do punk, editada em dois volumes pela Coleção L&PM POCKET. Sid Vicious, nome artístico de John Simon Ritchie-Beverly, nasceu em Londres há exatos 53 anos atrás, em 10 de maio de 1957. Ícone da cultura punk, foi baterista do Siouxsie & The Banshees e baixista da banda Sex Pistols. Filho de um ex-guarda com uma hippie, aos vinte anos, conheceu Nancy, a namorada que viria a matar não muito tempo depois. Em homenagem ao aniversário dele, convidamos você a assistir a versão punk de My Way. Cante com ele. Se for capaz, é claro.

O monumento chamado Comédia Humana


“Aprendi mais sobre a sociedade francesa na Comédia Humana (…) do que em todos os livros de economistas, historiadores e estatísticos da época, todos juntos” (F. Engels em carta a Karl Marx)

“Saúda-me, pois estou seriamente na iminência de tornar-me um gênio”.

Esta mensagem pouco modesta foi enviada por Balzac à sua irmã Laure quando “caiu a ficha” de que ele estava criando um grande projeto literário. A chave de tudo foi conceber um mundo onde os personagens perambulariam por diferentes romances. Ou seja, o protagonista de uma história faria uma “ponta” em outra e, conforme a cronologia, esse mesmo personagem apareceria mais jovem num livro e mais velho em outro. Assim, Balzac criou uma grande galeria para pintar um retrato preciso do mundo e da época em que viveu.

Este era o seu objetivo e aí estava a causa de sua euforia. O escritor francês tinha a convicção de que, no final, o conjunto da sua obra seria um verdadeiro “estudo sociológico”, servindo de ferramenta para os pesquisadores “do futuro” saberem exatamente como eram as pessoas e como era o mundo daquela época. Do ponto de vista da técnica narrativa, esta ida e vinda de personagens é a chave que torna a Comédia Humana fascinante. Fatos ocorridos em um livro são citados em outro que, teoricamente, nada tem a ver com o primeiro. Quando um novo personagem entra num romance, frequentemente estabelece relações de parentesco com outros personagens já citados em histórias anteriores. Enfim, a Comédia é uma verdadeira comunidade com aproximadamente 2.500 personagens que circulam e se entrelaçam por 90 romances diferentes. Há o banqueiro oficial que atua em dezenas de histórias, o poderoso Barão de Nuncingen (inspirado no barão de Rotschild) e o agiota que é sempre o avarento Gobscek. Os médicos que atendem aos doentes da Comédia são invariavelmente o jovem Bianchon e o experiente Dr. Desplein. Os “playboys”, ou melhor, os “dândis” nunca deixam de ser Henry de Marsay, Rastignac e Vandenesse, entre outros tantos canalhas fascinantes. E também há os tabeliões, os militares, enfim, são muitos os personagens que às vezes aparecem somente numa festa, num baile ou numa tarde de domingo nas Tulherias. Porém, mais importante do que tudo e todos são as mulheres de Balzac. Mas isto fica para outro post.

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Por que ler Balzac
Balzac: a volta ao Brasil mais de 20 anos depois

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Por que ler Balzac


Por Ivan Pinheiro Machado

Você tem muitas razões para ler Balzac.

Em primeiro lugar, é fácil ler Balzac, afinal, ele é considerado não só o inventor do romance moderno, mas um dos maiores romancistas de todos os tempos. Sua COMÉDIA HUMANA é composta de 89 histórias, algumas das quais verdadeiras celebridades, como A mulher de 30 anos, Ilusões perdidas, O Pai Goriot, Eugénie Grandet, O lírio do vale, entre tantas outras.

Mas o que é importante para o leitor é que Honoré de Balzac escreveu histórias fascinantes. Pintou Paris com palavras como poucos pintores conseguiram com suas tintas. Seus personagens são tão vivos que parecem prontos a se materializar na nossa frente. Poucos escritores entenderam tão bem a alma feminina. Poucos souberam descrever paixões tão avassaladoras como as que encontramos em seus livros. Dinheiro, poder, sedução, paixão e intriga; a grandeza e a miséria da condição humana. Junte a isso o estilo impecável, delicioso e o humor sem precedentes na literatura da sua época. E mais uma coisa: muitos dos principais personagens deste monumental conjunto de histórias transitam por vários romances em histórias diferentes. Esta foi uma das grandes sacadas de Balzac. Personagens que vão e vem e acabam se tornando velhos conhecidos do leitor da Comédia.

Você precisa ler Honoré de Balzac para conhecer o encantamento que a grande literatura é capaz de proporcionar. E então vai entender porque Balzac é – e sempre será – Balzac.

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Maio de 68: Paris vivia outra Revolução #2

Quando decidimos dedicar um post ao movimento de maio de 68, apareceu aqui na editora uma revista PHOTO de maio de… 78.  Era uma edição especial com fotos inéditas tiradas dez anos antes por fotógrafos como Cartier-Bresson e Gilles Caron. Resolvemos então dividir essa pequena preciosidade com vocês: