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O poder das mulheres na Comédia humana

sexta-feira, 11 junho 2010

Por Ivan Pinheiro Machado

“Você tem uma sensibilidade em relação ao coração da mulher como nenhum outro homem… Ainda há algumas misérias deste pobre sexo que lhe escapam; mas, decerto, nunca um homem conseguiu entrar mais fundo na existência delas…”

Essas palavras da grande amiga de Balzac, Zulma Carraud, dão uma ideia da grandeza dos personagens femininos da Comédia Humana. Pode-se dizer, sem medo de errar, que entre a imensa galeria de protagonistas, se tirássemos todos os principais personagens masculinos, ainda assim a Comédia Humana se manteria de pé. Mas se deletássemos as mulheres, o edifício fatalmente ruiria.

Há nas 89 histórias (romances, novelas e contos) que compõe o monumental conjunto, um número formidável de extraordinárias mulheres. Só para citar algumas: a terrível prima Bette, a intensa e apaixonada Duquesa de Langeais, a condessa de Mortsauf que, literalmente, morre de amor em O lírio do vale, Julia d’Aiglemont, de A mulher de 30 anos, as fortes e belas Ginevra Pitombo e Eugénie Grandet, as cortesãs cuja beleza deslumbrante colocavam aos seus pés os barões de Paris como Málaga, Esther e Valéria, a maravilhosa e enigmática Paquita Valdés, de A Menina dos Olhos de Ouro e a incrível condessa Fedora, de Pele de Onagro. E há mais uma centena de grandes mulheres, personagens destacados que perambulam pelos volumes da Comédia Humana. São deliciosas as descrições que Balzac faz de uma bela mulher. Ele deleita-se, exagera, atiça a imaginação do leitor. Joga de maneira admirável com sua imensa capacidade de fazer frases de efeito. Veja como ele descreve uma de suas “musas”: “A profundidade de um abismo, a graça de uma rainha, a corrupção dos diplomatas, o mistério de uma iniciação e o perigo de uma sereia”.

No imenso e intrincado “sistema” da Comédia Humana, os personagens femininos possuem uma grandeza e uma dimensão que só uns poucos personagens masculinos conseguem ter. Elas são o centro do círculo social, comandam a cena. Os homens geralmente são marionetes nas mãos de mulheres poderosas. São traídos e humilhados, são mesquinhos e prepotentes, são vaidosos, arrogantes e quase sempre, ridículos.

Ele foi revolucionário ao narrar as vicissitudes do casamento, das uniões sem amor, numa época em que a “suave hipocrisia dos salões” recusava o divórcio e a separação. Criticou duramente os casamentos por interesses. Pregou as virtudes das “balzaquianas” em A mulher de 30 anos, seu livro mais célebre. E tolerou as traições, justificou as adúlteras mal-amadas e não raro, louvou as cortesãs. Na vida real, sempre procurou o amor das mulheres. Teve vários casos rumorosos, mas disso trataremos no próximo post.

Leia também:
– Balzac e as balzaquianas
Ouro e prazer
20 de maio: aniversário de Balzac
Sexo para todos os gostos
Balzac: o homem de (maus) negócios
O monumento chamado Comédia Humana
Por que ler Balzac
Balzac: a volta ao Brasil mais de 20 anos depois

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Sexo para todos os gostos

segunda-feira, 17 maio 2010


Por Ivan Pinheiro Machado

Algum moralista de plantão poderia dizer que Balzac era um amoral convicto. E estaria absolutamente certo. Grande parte da obra balzaquiana trata do adultério com absoluta naturalidade. Alguns dos casos de amor mais tórridos de seus romances foram, na sua maioria, casos extraconjugais. Mas há exceções: no grande O lírio do Vale, a condessa de Mortsauf morre de paixão para não consumar fisicamente seu violento amor adúltero pelo jovem Felix de Vandensse. Uma abstinência que não é comum entre as páginas de Balzac. Na Comédia Humana é tão natural ter amantes quanto ter esposas. Ou seja, o “kit” é, invariavelmente, mulher & amante. Entre os abastados, claro.  Mesmo porque os pobres povoam a Comédia como coadjuvantes e só ficam sob os refletores quando há a possibilidade de rápida ascensão social. A homossexualidade masculina é tratado abertamente em Ilusões Perdidas e Esplendores e misérias das cortesãs. Vautrin, misterioso personagem em O Pai Goriot e vilão em Ilusões perdidas e Esplendores…  é apaixonado pelo herói do romance, Lucien de Rubempré, descrito como o homem mais bonito de Paris. A homossexualidade feminina está escancarado em A Menina dos Olhos de Ouro, livro em que o dândi Henri de Marsay, um dos personagens masculinos favoritos de Balzac na “Comédia”, inadvertidamente apaixona-se loucamente por Paquita Valdès, que por sua vez tem um caso com Margarita-Euphèmia Porrabéril. O final é trágico e a amante traída mata a sua paixão, a bela Paquita. Não sendo suficiente esta ampla demonstração de liberalismo sexual, Balzac surpreende a todos em Uma paixão no deserto; nada mais nada menos do que o caso de amor entre um soldado e uma pantera. E isto em 1830…

Leia também:
Balzac: o homem de (maus) negócios
O monumento chamado Comédia Humana
Por que ler Balzac
Balzac: a volta ao Brasil mais de 20 anos depois

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Por que ler Balzac

sexta-feira, 7 maio 2010


Por Ivan Pinheiro Machado

Você tem muitas razões para ler Balzac.

Em primeiro lugar, é fácil ler Balzac, afinal, ele é considerado não só o inventor do romance moderno, mas um dos maiores romancistas de todos os tempos. Sua COMÉDIA HUMANA é composta de 89 histórias, algumas das quais verdadeiras celebridades, como A mulher de 30 anos, Ilusões perdidas, O Pai Goriot, Eugénie Grandet, O lírio do vale, entre tantas outras.

Mas o que é importante para o leitor é que Honoré de Balzac escreveu histórias fascinantes. Pintou Paris com palavras como poucos pintores conseguiram com suas tintas. Seus personagens são tão vivos que parecem prontos a se materializar na nossa frente. Poucos escritores entenderam tão bem a alma feminina. Poucos souberam descrever paixões tão avassaladoras como as que encontramos em seus livros. Dinheiro, poder, sedução, paixão e intriga; a grandeza e a miséria da condição humana. Junte a isso o estilo impecável, delicioso e o humor sem precedentes na literatura da sua época. E mais uma coisa: muitos dos principais personagens deste monumental conjunto de histórias transitam por vários romances em histórias diferentes. Esta foi uma das grandes sacadas de Balzac. Personagens que vão e vem e acabam se tornando velhos conhecidos do leitor da Comédia.

Você precisa ler Honoré de Balzac para conhecer o encantamento que a grande literatura é capaz de proporcionar. E então vai entender porque Balzac é – e sempre será – Balzac.

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