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Paris: a cidade-personagem

segunda-feira, 5 julho 2010

Ivan Pinheiro Machado

Balzac amava Paris.

Nasceu em Tours, na belíssima Touraine, região célebre pelos magníficos castelos construídos à beira do Rio Loire – este que é o maior rio da França, com cerca de 1.000 quilômetros, e que serpenteia por quase metade do território francês. E próximo a Tours, numa extensão que ocupa quase 100 mil hectares, estão os mais belos castelos do mundo que, no ano 2000, foram tombados como patrimônio da humanidade pela Unesco. Há castelos que estão por lá desde muito antes da descoberta do Brasil. A beleza, o luxo e a imponência de cerca de trezentos “châteaux” contam a história da arquitetura francesa – da sobriedade contida na Idade Média do século X ao ardor renascentista do século XV. Tours foi capital da França entre 1461 e 1560, quando Paris passou a ser a capital definitiva. Balzac saiu de lá adolescente, logo após abandonar o internato onde esteve isolado de tudo e de todos. Apostava numa carreira literária e conseguiu convencer seu pai a sustentá-lo em Paris, onde estudaria Direito e escreveria romances. De fato, Honoré de Balzac se formaria advogado, mas – naquele momento – não convenceria como romancista, nem no suspeito círculo dos familiares. Era 1820 e ele tinha 21 anos. Precisou de 10 anos mais para construir os alicerces da sua obra e finalmente convencer como escritor. Paris foi impactante o suficiente para submeter Balzac aos seus mistérios, suas mazelas e seus encantos. Magnetizado pela paisagem da cidade luz, fez com que o desconcertante contraste de ruelas medievais, miseráveis, mal-cheirosas, com salões reluzentes, parques esplêndidos e palácios fosse uma constante em sua obra. Posso até me arriscar em dizer que, se a Comédia Humana tem um personagem principal, este personagem é a cidade de Paris.

A grande cortesã

Impregnado do bucolismo das paisagens de Tours e arredores, Balzac capitulou diante da diversidade arquitetônica, econômica, moral e espiritual de Paris. Foi um amor à primeira vista. Ele certamente diria o que disse Henrique IV, o rei da França, 250 anos antes, ao ser obrigado a renunciar ao protestantismo para agradar seus súditos de maioria católica: “Paris vaut bien une messe” (Paris vale bem uma missa).

Ele se apoderou da cidade para ambientar seus quase 3.000 personagens. Para usar uma expressão bem balzaquiana, “pintou” Paris como poucos. Tanto é verdade que uma das partes centrais da Comédia, que inclui cerca de um terço do total dos quase cem títulos é exatamente Cenas da Vida Parisiense. Portanto, a Comédia Humana é um dos mais importantes documentos literários sobre a cidade. Pela primeira vez na literatura, uma cidade é personagem de uma grande obra. Ele a descreveu maravilhosamente e a elevou a proporções quase humanas. A frase final de O Pai Goriot reflete a idéia de Balzac: o jovem Rastignac está chocado e decepcionado com a vida quando enterra seu amigo Goriot. Do alto do cemitério Père-Lachaise ele vê Paris imensa espalhada em volta do Sena e exclama: “Paris, agora é entre nós dois!”

Eugène Rastignac era o alter ego de Balzac. Ambos enfrentaram Paris. Entenderam que era necessário ser cínico, ser duro e ser forte para não serem engolidos pelo turbilhão daquela cidade fascinante. São centenas as passagens em que Balzac fala sobre Paris. Eu escolhi uma, que se não é a mais bonita, nem a mais brilhante, pelo menos fará você entender a relação “literária” dele com a cidade, a ponto de transformá-la em protagonista em muitas de suas tramas:

 “Há aqueles que conhecem tão bem sua fisionomia que percebem nela até mesmo uma verruga, um sinal de nascença, o menor rubor. Para outros, Paris é sempre uma maravilha monstruosa, um espantoso conjunto de acontecimentos, a cidade em que transcorrem cem mil romances, a verdadeira cabeça do mundo. Só que para estes Paris é uma criatura completa: cada ser humano, cada detalhe de prédio são apenas um fragmento do tecido celular dessa grande cortesã (…).”

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Sexo para todos os gostos

segunda-feira, 17 maio 2010


Por Ivan Pinheiro Machado

Algum moralista de plantão poderia dizer que Balzac era um amoral convicto. E estaria absolutamente certo. Grande parte da obra balzaquiana trata do adultério com absoluta naturalidade. Alguns dos casos de amor mais tórridos de seus romances foram, na sua maioria, casos extraconjugais. Mas há exceções: no grande O lírio do Vale, a condessa de Mortsauf morre de paixão para não consumar fisicamente seu violento amor adúltero pelo jovem Felix de Vandensse. Uma abstinência que não é comum entre as páginas de Balzac. Na Comédia Humana é tão natural ter amantes quanto ter esposas. Ou seja, o “kit” é, invariavelmente, mulher & amante. Entre os abastados, claro.  Mesmo porque os pobres povoam a Comédia como coadjuvantes e só ficam sob os refletores quando há a possibilidade de rápida ascensão social. A homossexualidade masculina é tratado abertamente em Ilusões Perdidas e Esplendores e misérias das cortesãs. Vautrin, misterioso personagem em O Pai Goriot e vilão em Ilusões perdidas e Esplendores…  é apaixonado pelo herói do romance, Lucien de Rubempré, descrito como o homem mais bonito de Paris. A homossexualidade feminina está escancarado em A Menina dos Olhos de Ouro, livro em que o dândi Henri de Marsay, um dos personagens masculinos favoritos de Balzac na “Comédia”, inadvertidamente apaixona-se loucamente por Paquita Valdès, que por sua vez tem um caso com Margarita-Euphèmia Porrabéril. O final é trágico e a amante traída mata a sua paixão, a bela Paquita. Não sendo suficiente esta ampla demonstração de liberalismo sexual, Balzac surpreende a todos em Uma paixão no deserto; nada mais nada menos do que o caso de amor entre um soldado e uma pantera. E isto em 1830…

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Por que ler Balzac

sexta-feira, 7 maio 2010


Por Ivan Pinheiro Machado

Você tem muitas razões para ler Balzac.

Em primeiro lugar, é fácil ler Balzac, afinal, ele é considerado não só o inventor do romance moderno, mas um dos maiores romancistas de todos os tempos. Sua COMÉDIA HUMANA é composta de 89 histórias, algumas das quais verdadeiras celebridades, como A mulher de 30 anos, Ilusões perdidas, O Pai Goriot, Eugénie Grandet, O lírio do vale, entre tantas outras.

Mas o que é importante para o leitor é que Honoré de Balzac escreveu histórias fascinantes. Pintou Paris com palavras como poucos pintores conseguiram com suas tintas. Seus personagens são tão vivos que parecem prontos a se materializar na nossa frente. Poucos escritores entenderam tão bem a alma feminina. Poucos souberam descrever paixões tão avassaladoras como as que encontramos em seus livros. Dinheiro, poder, sedução, paixão e intriga; a grandeza e a miséria da condição humana. Junte a isso o estilo impecável, delicioso e o humor sem precedentes na literatura da sua época. E mais uma coisa: muitos dos principais personagens deste monumental conjunto de histórias transitam por vários romances em histórias diferentes. Esta foi uma das grandes sacadas de Balzac. Personagens que vão e vem e acabam se tornando velhos conhecidos do leitor da Comédia.

Você precisa ler Honoré de Balzac para conhecer o encantamento que a grande literatura é capaz de proporcionar. E então vai entender porque Balzac é – e sempre será – Balzac.

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