O poder das mulheres na Comédia humana

Por Ivan Pinheiro Machado

“Você tem uma sensibilidade em relação ao coração da mulher como nenhum outro homem… Ainda há algumas misérias deste pobre sexo que lhe escapam; mas, decerto, nunca um homem conseguiu entrar mais fundo na existência delas…”

Essas palavras da grande amiga de Balzac, Zulma Carraud, dão uma ideia da grandeza dos personagens femininos da Comédia Humana. Pode-se dizer, sem medo de errar, que entre a imensa galeria de protagonistas, se tirássemos todos os principais personagens masculinos, ainda assim a Comédia Humana se manteria de pé. Mas se deletássemos as mulheres, o edifício fatalmente ruiria.

Há nas 89 histórias (romances, novelas e contos) que compõe o monumental conjunto, um número formidável de extraordinárias mulheres. Só para citar algumas: a terrível prima Bette, a intensa e apaixonada Duquesa de Langeais, a condessa de Mortsauf que, literalmente, morre de amor em O lírio do vale, Julia d’Aiglemont, de A mulher de 30 anos, as fortes e belas Ginevra Pitombo e Eugénie Grandet, as cortesãs cuja beleza deslumbrante colocavam aos seus pés os barões de Paris como Málaga, Esther e Valéria, a maravilhosa e enigmática Paquita Valdés, de A Menina dos Olhos de Ouro e a incrível condessa Fedora, de Pele de Onagro. E há mais uma centena de grandes mulheres, personagens destacados que perambulam pelos volumes da Comédia Humana. São deliciosas as descrições que Balzac faz de uma bela mulher. Ele deleita-se, exagera, atiça a imaginação do leitor. Joga de maneira admirável com sua imensa capacidade de fazer frases de efeito. Veja como ele descreve uma de suas “musas”: “A profundidade de um abismo, a graça de uma rainha, a corrupção dos diplomatas, o mistério de uma iniciação e o perigo de uma sereia”.

No imenso e intrincado “sistema” da Comédia Humana, os personagens femininos possuem uma grandeza e uma dimensão que só uns poucos personagens masculinos conseguem ter. Elas são o centro do círculo social, comandam a cena. Os homens geralmente são marionetes nas mãos de mulheres poderosas. São traídos e humilhados, são mesquinhos e prepotentes, são vaidosos, arrogantes e quase sempre, ridículos.

Ele foi revolucionário ao narrar as vicissitudes do casamento, das uniões sem amor, numa época em que a “suave hipocrisia dos salões” recusava o divórcio e a separação. Criticou duramente os casamentos por interesses. Pregou as virtudes das “balzaquianas” em A mulher de 30 anos, seu livro mais célebre. E tolerou as traições, justificou as adúlteras mal-amadas e não raro, louvou as cortesãs. Na vida real, sempre procurou o amor das mulheres. Teve vários casos rumorosos, mas disso trataremos no próximo post.

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