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Balzac: o homem de (maus) negócios

sexta-feira, 14 maio 2010


Por Ivan Pinheiro Machado

Honoré de Balzac foi um homem estranho. Nasceu em 1799 em Tours, à beira do rio Loire, em uma família tipicamente provinciana e praticamente cresceu em um internato. Na solidão de sua infância e pré-adolescência, criou um mundo à parte, onde desenvolveu sua incrível capacidade de fabulação. A ambição e a fantasia faziam parte de sua personalidade, herdada em parte de seu pai, 33 anos mais velho do que sua mãe, e cujo sobrenome Balssa, Honoré transformou em Balzac (uma cidadezinha próxima a Tour e também nome de uma velha família aristocrata). Discretamente, Monsieur Balzac acrescentou um “de” que, na época, era sinal de nobreza – e sentia enorme prazer em usar esta partícula. Em última análise, queria ser rico. Fez negócios de todo o tipo: tentou adquirir sem sucesso ações de uma mina de prata na Sardenha, criou uma editora e uma fundição de caracteres tipográficos financiada com as magras economias de sua família e foi à falência acumulando dívidas que o perseguiriam pela vida inteira. Obcecado crítico da imprensa, sonhava em ter seus próprios jornais. Em 1936, fundou o jornal La Chronique de Paris que quebrou em pouco tempo. Cinco anos mais tarde, já muito endividado, fundou  a Revue Parisiense e inventou coleções de clássicos para vender de porta em porta. Fracassou novamente.
E foi graças a este péssimo tino para os negócios, aliado a uma enorme ambição, que a literatura ganhou um dos seus maiores gênios. Na verdade, sua imensa obra foi criada para ganhar a vida, ganhar dinheiro. Entregava livros contra o pagamento dos editores.
Mas, no fundo, muito mais do que ser um escritor, o que Balzac queria era desfilar pelas Tullerias num fiacre, exibir-se como se fosse um nobre. No fim das contas, ele trabalhava dezoito, vinte horas por dia, para arrumar dinheiro e livrar-se dos credores que o perseguiam. Foi um best seller na sua época e um dos autores mais lidos e publicados na Europa. Ganhou dinheiro com a literatura. Mas morreu esgotado aos 51 anos quando recém realizara o seu sonho de comprar um palacete finamente decorado e casar com uma condessa de verdade.
Sua rotina durante quase 20 anos foi acordar à meia noite e escrever até as seis da tarde. Só dormia 4 ou 5 horas e voltava ao trabalho extenuante na tentativa de cumprir prazos e entregar textos aos editores que lhe pagavam. Mesmo tento vivido a glória das ruas, sendo reconhecido como escritor popular, foi sistematicamente desdenhado pela crítica que jamais reconheceu seu valor em vida. Balzac morreu pobre, num palacete, sustentado pela Condessa Hanska, o amor de toda a sua vida. Mas sem conseguir seu grande objetivo que era… pagar as dívidas.

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