Posts Tagged ‘Peninha’

Flávio Tavares, Pedro Bial, Eduardo Bueno e Che Guevara

terça-feira, 28 novembro 2017

Todos eles estiveram juntos no “Conversa com Bial” que foi ao ar no dia 22 de novembro. Vale a pena assistir a entrevista sobre o livro “As três mortes de Che Guevara”, de Flávio Tavares. Em outubro deste ano completou-se 50 anos da morte de Che:

Brasil: terra à vista!

segunda-feira, 22 abril 2013

Foi como uma miragem em um deserto de águas salgadas. Após 44 dias entre o mar e o céu, o horizonte deixou de ser uma linha longínqua na qual o azul-celeste imaculado encontrava o azul revolto de um oceano sem fim. No último ponto que os olhos podiam vislumbrar, erguia-se, agora, a silhueta verdejante de uma pequena serra, pontilhada pelo cume de um monte “mui alto e redondo”. Em breve o aroma das flores e dos frutos não precisaria mais ser imaginado: seria sentido. Os homens acotovelaram-se na amurada das naus, com os olhos postos de encontro ao céu crepuscular. A terra, enfim, estava à vista, como uma visão do paraíso. Parecia miragem – mas era real.

Com as cores do entardecer tingindo a cena de dourado, os 12 navios da frota comandada por Pedro Álvares Cabral prosseguiram seu avanço. Era 22 de abril de 1500, e a maior esquadra já enviada para singrar o Atlântico encontrava-se a cerca de 60 quilômetros de uma costa desconhecida. Seria ilha ou terra firme? Provavelmente ilha, julgaram os marujos mais experientes – uma das tantas, reais ou lendárias, que povoavam as imensidões do chamado Mar Tenebroso. A frota avançou cautelosamente a uma média de cinco quilômetros por hora e lançou âncoras. Elas mergulharam 34 metros antes de se acomodarem nas claras areias do fundo. Estava descoberto o Brasil. Um novo mundo amanhecia.

(Assim começou a nossa história, assim tem início o livro Brasil: Terra à Vista, de Eduardo Bueno, uma aventura sobre o descobrimento (Coleção L&PM Pocket).

brasil_terraavista

50. Quando a L&PM foi parar no “Olho da Rua”

terça-feira, 18 outubro 2011

Em outubro, como já anunciado, a Série “Era uma vez… uma editora” ficou um pouco diferente. Este mês, como o editor Ivan Pinheiro Machado* estava na Feira de Frankfurt, ficou decidido que os posts seriam dedicados a livros que deixaram saudades. Hoje, no entanto, no lugar de um título, resolvemos falar de uma coleção inteira. A ideia de contar a história da Coleção “Olho da Rua” surgiu de uma conversa com o escritor Eduardo Bueno (que alguns chamam de Peninha) que, nos anos 80, criou esta série de livros marginais, como ele mesmo definiu.

A Coleção “Olho da Rua” começou quando Eduardo convidou Antonio Bivar para (re)publicar o seu livro Verdes Vales do Fim do Mundo, que já estava há tempo fora de catálogo. Bivar era co-tradutor, junto com Bueno, da primeira versão da tradução de On the Road. O plano era, a partir deste livro, dar início a uma versão brasileira da Coleção “Rebeldes e Malditos”, criada por Ivan Pinheiro Machado e que, em 1984, já publicava, entre outros, Cartas a Théo de Van Gogh, De Profundis, de Oscar Wilde, Paraísos Artificiais, de Charles de Baudelaire e A correspondência de Arthur Rimbaud.

A edição de "Verdes Vales do Fim do Mundo" de 1984, depois relançada na Coleção L&PM POCKET

“A seguir, convidei Jorge Mautner, Roberto Piva, Pepe Escobar, Reinaldo Moraes e outros malucos para se juntarem ao bando. Precisávamos de um nome para a coleção, que soasse rebelde e maldito o suficiente. Da conversa com o Bivar surgiu o nome “Olho da Rua”, já que vários deles tinham a vivência plena das calçadas e das sarjetas, nunca foram de circular muito pelas avenidas principais e já haviam sido orgulhosamente postos no olho da rua várias vezes. Além de tudo, o “olhar” deles era o olhar típico dos escritores que não produziam seus livros “de pantufas no gabinete, com a lareira acesa e um gato ronronando”. Aí, eu e Ivan achamos o nome não apenas adequado como ótimo. E a coleção saiu. Ela era quase uma “resposta” à Cantadas Literárias, lançada pouco antes pela editora Brasiliense. Resposta não é bem o caso: era complementar a ela e seguia a tendência de editar “marginais”, que a L&PM já fazia tanto na “Rebeldes e Malditos” como na Coleção “Alma Beat”. Era o inicio dos anos 80, o país vivia grande efervescência, todo mundo ansiava pela abertura e pela volta das “liberdades democráticas” e então a “Olho da Rua” veio para resgatar textos já publicados e/ou censurados e também livros inéditos (como “Speedball” de Pepe Escobar e “Abacaxi”, de Reinaldo Moraes).” Conta Eduardo Bueno.

A “Olho da Rua” acabou não ficando só nos brasileiros. Foi nela que, pela primeira vez, Sam Shepard foi publicado no Brasil com o livro Louco para Amar. E também Gasolina e Lady Vestal, de Gregory Corso, De repente, acidentes de Carl Solomon, 7 Dias na Nicarágua Libre, de Lawrence Ferlinghetti, A queda da América, de Allen Ginsberg, Luna Caliente de Mempo Giardinelli e Isadora – fragmentos autobiográficos, de Isadora Duncan.

Alguns dos livros que inicialmente sairam na “Olho da Rua” acabaram sendo relançados na Coleção L&PM POCKET. Como Verdes Vales do Fim do Mundo, por exemplo.

* Toda terça-feira, o editor Ivan Pinheiro Machado resgata histórias que aconteceram em mais de três décadas de L&PM. Este é o quinquagésimo post da Série “Era uma vez… uma editora“.

33. A Biografia dos “Mamonas Assassinas”

terça-feira, 21 junho 2011

Por Ivan Pinheiro Machado*

Provavelmente nunca mais haverá um fenômeno de massa, mídia e comportamento como foi a meteórica passagem dos Mamonas Assassinas pelo universo midiático brasileiro. Luan Santana, só para citar um super-astro do momento, com seu rostinho de classe média bem-comportado, não representa 1% do “estouro” que foram os Mamonas. Os jovens de todo o Brasil  com 4, 5, 15, 18 anos cantavam cândida e animadamente: “neste raio de suruba/ já me passaram a mão na bunda/ e eu não comi ninguém…

Isso mesmo! O rádio tocava insistentemente clássicos como Pelados em Santos (“minha Brasília amarela, tá de portas abertas”, quem não lembra?), Vira-Vira (a música da suruba cantada em sotaque lusitano, imitando o “Vira” do folclore português), Chopis Centis (“A felicidade é um crediário nas Casas Bahia”), Mundo animal (“Comer tatu é bom, pena que dá dor nas costas”…), Robocop gay (“Faça bem a barba,/ arranque seu bigode/ gaúcho também pode/ não tem que disfarçar”…), Bois don’t cry (“Soy um hombre conformado/ escuto a voz do coração/ sou um corno apaixonado/sei que já fui chifrado/ o mas o que vale é o tesão) e muitos outros. Ninguém explicava o fenômeno. Havia teses e mais teses, mas a verdade é que no final de sua curta vida, os shows dos Mamonas aconteciam em lugares imensos para 30, 40 e até 70 mil pessoas).

Tudo isto acabou em uma das maiores tragédias da história da música popular brasileira. Os cinco jovens que fascinaram e divertiram o Brasil durante menos de dois anos e bateram todos os recordes de venda de CDs de uma banda nacional morreram  no dia 2 de março de 1996. O jatinho que os trazia de um show em Brasília espatifou-se contra a serra da Cantareira em São Paulo.

Cerca de um mês depois da tragédia que comoveu e parou o país, Paulo Lima, o “L” da L&PM, caminhava pela Avenida Rio Branco, no centro do Rio de Janeiro, quando seu celular tocou. Fugindo do barulho ensurdecedor dos ônibus e carros, Lima entrou numa farmácia para atender a ligação de um número desconhecido com prefixo de São Paulo. Era Rick Bonadio, o produtor dos Mamonas e representante das famílias dos rapazes depois do acidente. Ele havia pego o telefone do Lima em nosso escritório em São Paulo e convidava a L&PM para participar de uma concorrência para produzir e editar uma “biografia” da banda. Outros editores seriam ouvidos também. A concorrência levaria em conta a proposta em dinheiro e a qualidade do projeto apresentado.

Resumindo: fizemos uma oferta razoável e propusemos o Eduardo “Peninha” Bueno como autor. Fomos a São Paulo no estúdio do produtor dos Mamonas, levamos o Peninha a tiracolo e apresentamos o projeto. Rick ficou fascinado pelo discurso pop de Eduardo Bueno, o amigo de Bob Dylan, e depois de ouvir os outros “concorrentes” decidiu-se por fazer o contrato com a L&PM.

Peninha “mudou-se” para São Paulo e depois de 2 meses passados na sua maior parte nos subúrbios cinzentos de Guarulhos, o livro estava pronto. Fora um doloroso périplo entrevistando as famílias e amigos dos cinco jovens. O resultado foi um livro extraordinário, em que o texto límpido e emocionado de Eduardo Bueno conseguiu captar sem melodramas aquela impressionante e dramática história brasileira. Uma história de suburbanos que despontaram para a fama e a glória e fizeram cantar um país inteiro de norte a sul, pobres e ricos de todas as idades. Esta foi a grande mágica dos Mamonas Assassinas. Foi um sucesso quase instantâneo e avassalador. Uma história muito curta, mas que deixou no seu rastro recordes e mais recordes de público, vendas de discos e exposição na mídia.

Blá Blá Blá - a biografia autorizada dos Mamonas AssassinasO livro saiu 3 meses depois da tragédia. Um recorde no gênero que os ingleses batizaram de “instant books”. Blá, blá, blá – a biografia autorizada dos Mamonas Assassinas vendeu exatos 90 mil exemplares, uma grande venda, mas aquém do que esperávamos. Procuramos, na época, uma explicação para o fato do livro não ter reprisado o imenso sucesso dos discos. O livro era leve, informativo, extremamente bem escrito, ilustrado belissimamente com histórias em quadrinhos, fotos a cores e fora distribuído, além das livrarias, também nas bancas de jornais. Nunca obtivemos uma resposta convincente. Havia sido uma boa venda, mas, como tudo na meteórica passagem dos Mamonas sobre a terra tinha sido exageradamente grande, ficamos frustrados com os números finais. Foram muitas as teses procurando explicar o “fenômeno”. Mas, como se sabe, teses não mudam destinos. Principalmente de coisas que já aconteceram.

*Toda terça-feira, o editor Ivan Pinheiro Machado resgata histórias que aconteceram em mais de três décadas de L&PM. Este é o trigésimo terceiro post da Série “Era uma vez… uma editora“.

28. O segredo de polichinelo

terça-feira, 17 maio 2011

Por Ivan Pinheiro Machado*

Em 1985, depois de cair enfermo na véspera da posse, o primeiro presidente civil pós-golpe de 1964, Tancredo Neves, morreu 39 dias depois, emblematicamente no dia de Tiradentes, 21 de abril de 1985. Pelo seu estilo afável, conciliador, ideais democráticos, oratória impecável – e por ser o presidente que levaria o Brasil definitivamente à democracia – Tancredo Neves era admirado pelo povo brasileiro. A partir de sua doença, ele passou a ser cultuado e amado como um super pop star. Uma agonia que foi acompanhada minuto a minuto pela TV e trouxe junto para o panteão das celebridades o seu porta-voz: Antônio Britto. Britto era o homem que, com ar compungido e espessa barba escura, comunicava diariamente a 120 milhões de brasileiros, o estado de saúde do presidente que não conseguira assumir. Britto e Tancredo se confundiam no imaginário do povo. Competente como jornalista, Britto passou pelos principais jornais do Rio Grande do Sul e chegou a ser o mais respeitável repórter da TV Globo. Tancredo convidou-o para ser seu porta-voz. Com a morte do presidente, Britto iniciou brilhante carreira política. Foi o deputado mais votado no Rio Grande, Ministro da Previdência e depois Governador do Estado. No século 21, abandonou a política e hoje é um vitorioso empresário.

Pois bem. Quando morreu Tancredo, assumiu José Sarney, o vice. Com a Nação paralisada, através de meu irmão, José Antonio, contatamos Britto que estava escondido em algum lugar da serra gaúcha. Éramos todos ex-colegas de jornal, tanto no Correio do Povo, como na Zero Hora. Utilizando uma operação de inteligência sofisticadíssima, secretíssima e impecável, conseguimos descobrir onde estava Antônio Britto. E numa noite de neblina espessa, num hotel nos arredores de Gramado, combinamos que Britto juntamente com o jornalista Luis Cláudio Cunha, faria o livro contando tudo sobre a agonia e morte de Tancredo Neves. Uma verdadeira bomba (do bem) editorial estava nas nossas mãos. Acertamos todos os detalhes e, excitadíssimos com a novidade, descemos a serra em condições precaríssimas, já que um fog praticamente intransponível e característico do outono gaúcho tomava conta da estrada sinuosa e perigosa.

O Dudu Guimarães era um personagem folclórico entre o meio jornalístico. No legendário bar do IAB, ele sempre estava lá, rodando de mesa em mesa, sabendo de tudo que acontecia. Ele falava com todo mundo e acabava sempre sentado na mesa do cineasta Jorge Furtado, de quem antevia o futuro brilhante. Mas se chegasse no bar, por exemplo, o Chico Buarque, Caetano Veloso ou algum outro músico da moda, ou quem sabe um filósofo famoso ou um escritor célebre, em poucos instantes o Dudu abandonava a mesa de Jorge Furtado e se aboletava na mesa do ídolo.

Mas voltemos a 24 de abril de 1985, dia em que contratamos o grande bestseller do ano. Conseguimos transpor a neblina da serra, chegamos a Porto Alegre e logo o Eduardo “Peninha” Bueno, que trabalhava na L&PM, quis saber o motivo de tanta alegria. Eu e o Lima dissemos que não podíamos contar. Ele insistiu. Falamos que ele era boca grande demais. Ele continuou insistindo para saber o que estava acontecendo. Até que diante de tantos pedidos (e do juramento de que se aquela notícia vazasse ele seria demitido) contamos para o Peninha que o Britto escreveria o livro. Ele era a quarta pessoa a saber e jurou não contar nada. Juntos, decidimos comemorar nosso enorme segredo numa festa que se realizava todos os anos no antigo cinema Castelo no bairro da Azenha em Porto Alegre. O Troféu Scalp. Uma espécie de sacanagem ao Oscar, onde o Scalp, um grande salão de cabelereiros, oferecia um troféu estranhíssimo aos destaques do ano na área cultural. Na verdade, a entrega dos troféus era pretexto para um grande e imperdível baile pop. Saímos direto da editora para lá.

Ninguém, na imprensa brasileira sabia onde estava Britto. Todos queriam o seu depoimento e caçavam o porta-voz de Tancredo em Minas, Rio, São Paulo, Bahia. Uma complexa operação que envolveu até vôo privado, levara Britto em segredo para longe do mundo, oculto na neblina da serra gaúcha. Juramos que não falaríamos nada para ninguém. Nem do seu paradeiro, nem do livro. Éramos quatro cúmplices de um mesmo segredo.

Horas depois deste solene pacto, entramos lépidos e saltitantes, o Peninha e eu no cinema Castelo, já sonhando com o futuro super-betseller. Pois o Dudu Guimarães estava presente na festa (óbvio). Levantou-se subitamente da mesa do Jorge Furtado, onde havia ancorado – como sempre – e veio em nossa direção. Sorria – como sempre também – por trás de seus óculos de lentes espessas e embaçadas. Deu um abraço apertado no Peninha e perguntou:

– Vão lançar o livro do Britto, hein?!

Foi então que nosso mundo caiu.

P.S.:  nosso sonho de bestseller se concretizou 30 dias mais tarde, quando o livro “Assim morreu Tancredo” estourou no Brasil vendendo mais de 200 mil exemplares. E nunca ficamos sabendo quem contou para o Dudu.

A capa de "Assim morreu Tancredo", de Antônio Britto

*Toda terça-feira, o editor Ivan Pinheiro Machado resgata histórias que aconteceram em mais de três décadas de L&PM. Este é o vigésimo oitavo post da Série “Era uma vez… uma editora“.

12. Vítimas do Plano Cruzado

terça-feira, 25 janeiro 2011

Por Ivan Pinheiro Machado*

O Eduardo “Peninha” Bueno, cujo post anterior eu tracei um rápido perfil, me acompanhou várias vezes à Feira Internacional do Livro de Frankfurt. Como eu já disse, vivenciamos dezenas de histórias hilárias pelo mundo afora. Claro que houve algumas meio desagradáveis, mas nenhuma tão sinistra como esta que eu vou contar.

Era o auge do Plano Cruzado em 1985. O “cruzado” era a moeda da vez e os preços estavam congelados. Nossa moeda era fortíssima e todo o Brasil viajava. Você andava pela rua em Paris, Nova York, Roma e só se ouvia português… Os aeroportos estavam apinhados de brasileiros excitados. Enfim, tudo um pouco parecido com o que acontece hoje em dia. Trabalhamos duro em Frankfurt, passamos uns dias em Paris e fomos para Madrid onde pegaríamos o vôo de volta via Ibéria. Havia uma verdadeira multidão (80% eram brasileiros) em frente aos balcões da Ibéria. Mostramos nossa passagem para a atendente, ela olhou no “sistema” e lascou: “vocês não estão no vôo”. E mais não disse. Ou melhor, nem nos olhou, mandou passar o próximo e nós ficamos gritando em vão no meio de uma multidão totalmente indiferente. Começava aí um drama que duraria 50 horas. Ou seja, ficamos mais de dois dias feito zumbis, nos arrastando pelo famigerado aeroporto de Barajas tentando falar com alguém que nos desse atenção. Quando estávamos já praticamente desesperados, definitivamente invisíveis, Deus, na sua infinita bondade nos mandou um anjo salvador; era de Minas Gerais e trabalhava para a legendária Stella Barros Turismo. Penalizada pelo nosso miserável estado de decomposição depois de 50 horas perambulando pelo aeroporto, dormindo nos bancos de madeira, ela milagrosamente conseguiu nos colocar num vôo da Aerolineas Argentinas para Buenos Aires, com escala em Nova York para troca de aeronave. Só que não tínhamos visto para entrar nos EUA. Portanto, quando descemos do avião em NY, fomos levados escoltados diretamente para a emigração e colocados numa espécie de cela guarnecida por um daqueles rapazes afro-americanos, tipo um negrão de 2 metros de altura. Um gentil policial que nos disse com um sorriso sádico: “esperamos que o pessoal da Aerolineas Argentinas venha buscá-los, se não…”. Ficou aquela ameaça no ar. A temperatura era de 2 graus em Nova York. O Peninha e eu estávamos em mangas de camisa, pois ainda fazia calor em Madrid.  O detalhe é que, por coincidência, a sala dos quase-deportados, era o único lugar do aeroporto que não tinha calefação. Passaram-se 10 minutos, meia hora, 1 hora e quando começou a bater o desespero, eis que, como uma visão do paraíso, surgiu uma lourinha de olhos azuis, sorridente, que dirigiu-se a nós numa maravilhoso sotaque portenho: “Vamos?”. E lá fomos nós com as ilusões no ser humano restauradas até beijar o solo abençoado do aeroporto Salgado Filho em Porto Alegre depois de quatro dias com a mesma roupa, sem banho, sem cama e sem fazer a barba.

Ivan Pinheiro Machado, Mirian Goldfader, Eduardo Bueno e Lais Pinheiro Machado, Paris, 1985 – Foto tirada pouco antes do embarque para Madrid

O Plano Cruzado foi a primeira grande euforia econômica dos brasileiros. Um congelamento artificial paralisou os preços e a economia, depois de uma inflação beirando os aterrorizantes 40% ao mês. Com os preços congelados e o dólar quase um por um, todos viajavam e compravam muito. Mas a alegria durou pouco. Demagógico, improvisado, “a farra” do Plano Cruzado logo começou a fazer água. Desabastecimento, mercado negro, especulação, em pouco tempo tudo voltou a ser como era antes. O monstro inflacionário atacou novamente! Velho Sarney! O périplo de horrores econômicos que vivemos a partir do fracasso do “Plano Cruzado” acabou levando à presidência da república o famoso Fernando Collor de Mello. E esta história todos conhecem; confisco da poupança, corrupção… A curiosidade, que de certa forma é uma fábula deste país, é que, passados mais de 20 anos, Sarney e Collor – um responsável pelo maior índice de inflação da história do Brasil e o outro condenado no processo de impeachment  –  atualmente são senadores, apoiaram Lula apaixonadamente e circulam pelos corredores do congresso como se nada tivesse acontecido.

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11. O brinco do Peninha

terça-feira, 18 janeiro 2011

Por Ivan Pinheiro Machado*

Eduardo Bueno, dito Peninha, é um astro da cultura pop brasileira. Seu livro “A viagem do descobrimento” (Ed. Objetiva) foi um mega bestseller, assim como “Brasil: terra à vista” (L&PM) e muito outros. Peninha foi o inventor do vitorioso gênero “história para todos”. A partir do seu livro sobre o descobrimento do Brasil, os leitores brasileiros passaram a ler a história com outro sabor. E mais que isso. Literalmente, descobriram o Brasil. Tanto é verdade que a fórmula foi imediatamente incorporada ao mercado editorial brasileiro. Hoje, os livros sobre personagens, fatos e datas brasileiras frequentam com naturalidade as listas dos mais vendidos. Peninha, além de jornalista, escritor e historiador, é um grande especialista em Bob Dylan, Grêmio Futebol Portoalegrense e literatura beat, entre outros gêneros que agora não me ocorrem. Estou dizendo tudo isso porque Eduardo Bueno trabalhou aqui na L&PM entre 1984 e 1988. Delirante, engraçado e, digamos, exagerado, Peninha é, além de um intelectual respeitado, uma figura inesquecível. Tem quase 1,90 de altura e, para dizer o mínimo, se caracteriza pela irreverência. Quando ele chegou na editora era um jovem repórter esportivo desencantado com a imprensa e ostentava como grande realização intelectual a tradução de “On the Road” de Jack Kerouac, publicado na época pela editora Brasiliense e, desde 2002, por esta editora. Peninha deixou sua marca na L&PM. Nós já publicávamos Bukowski e, por inspiração dele, criamos duas coleções que até hoje são emblemáticas do nosso trabalho, uma de história, com fontes primárias, como Os Diários de Cristovão Colombo, Pigafetta, Cabeza de Vaca e a famosa coleção “Alma beat”. O resultado deste trabalho é que, até hoje, a L&PM transita nesta faixa de “transgressão”, sendo a editora de todos os Kerouac, Bukowski, Allen Ginsberg, Lawrence Ferlinghetti, Gary Snyder, Neal Cassidy e, modernamente, Hunter Thompson. Lá nos primórdios da editora – a era pré-Peninha ­–, já estabelecíamos esta vocação com a coleção “Rebeldes e malditos” que publicou (e também são publicados até hoje) Rimbaud, Baudelaire, Arthaud, Alfred Jarry, Van Gogh, Téophile Gautier, Appolinaire, De Quincey, entre outros. Em 1988, Peninha saiu da L&PM e foi para o mundo. Publicou dezenas de livros importantíssimos e está entre os principais escritores brasileiros. Mesmo sem um contato profissional mais intenso posso dizer que sou seu amigo e, até hoje, afirmo que os quatro anos em que ele trabalhou aqui tiveram, como dizia o rei Roberto Carlos, “muitas emoções”. Andamos várias vezes pelo mundo, representando a L&PM nas Feiras de Frankfurt, Paris, Londres, Buenos Aires. E foi numa dessas viagens que aconteceu uma das tantas e hilárias aventuras que vivemos juntos. Essa que agora conto aqui.

Foi na primeira vez que ele me acompanhou na sóbria Feira Internacional do Livro de Frankfurt. Lá, sempre se trabalhou de terno e gravata. Até hoje. Na quarta-feira de manhã cedo, eu estava pronto para enfrentar os quilométricos corredores da Buchmesse. Lembro que o primeiro encontro era estratégico, pois seria com um agente inglês, super-formal que tinha livros muito importantes e pela primeira vez recebia a L&PM em Frankfurt. Estávamos no Hotel Ramada e, perto das 9h, impecável num terno escuro e gravata, bati na porta do quarto do Peninha. Quando ele surgiu, o quadro era o seguinte: vestia uma camisa de cetim roxa, sem paletó e um brinco com um pingente. Fiquei em pânico, imaginando a cara do inglês que encontraríamos dali a meia hora… Falando mansamente, argumentei e pedi que ele colocasse uma camisa branca e um blazer. Dei uma explicação rápida sobre o formalismo da feira, etc. Ele me viu todo engravatado e, com relutância, cedeu. Vestiu uma camisa e o blazer. Sem gravata, é claro, mas mesmo assim, já era um grande lucro. Aí eu olhei pro brinco e disse: “Peninha, bacana o seu brinco, deixa eu dar uma olhada”. Ele docilmente me deu o brinco. Eu olhei, vi que era uma simples bijuteria, fui até o banheiro, joguei no vaso e puxei a descarga. Não preciso descrever a cara do Peninha… Sei que eu não faria isto atualmente, mas no fim das contas, a verdade é que temos negócios com o sisudo inglês até hoje… e, o que é mais importante, uma boa história pra contar.

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Frio, sol e chuva na pacata Paris

quinta-feira, 25 março 2010

Apesar da descrença do dublê de crítico literário e historiador Eduardo Bueno, com quem já compartilhei infortúnios nessa mesma terra de Espanha, tudo é verdade, como diria Orson Welles. Já que agora estamos todos bem e em Paris eu digo como aquele radialista de Arapongas, no Paraná: “Eduardo, bem esta você aí em segurança na esquina da Dona Laura com a Mariante, mal estou eu aqui”…

As ruas úmidas e ensolaradas da capital francesa / Fotos: Ivan Pinheiro Machado

As ruas úmidas e ensolaradas da capital francesa / Fotos: Ivan Pinheiro Machado

Paris começou a primavera alternando fortes pancadas de chuva com sol. As mesas dos cafés estão desertas na rua, lembrando as tardes do inverno que terminou, pelo menos no calendário. O Salão do livro que começa amanhã já é assunto. Na grande banca de revistas em frente ao meu hotel no Boulevard Saint Germain, ao comprar um jornal ou revista, você recebe uma publicação de 32 páginas com toda a programação do Salão.
Me abasteci de revistas e jornais, inclusive a incensada novidade entre as publicações culturais, a “Books”, e fui matar a fome com uma cerveja e um sanduíche de queijo gruyère, a exemplo do inspetor Maigret, que trabalha aqui pertinho. Depois fui à legendária livraria La Hune, onde pude constatar a enorme quantidade de títulos lançados nesse início de primavera. Coisas muito boas. Já estou inclusive fazendo uma lista com sugestões para o Lima publicar. Até amanhã e um beijo no Peninha.

N.E.: Aos que não entenderam o texto, sugerimos que leiam a caixa de comentários do post anterior.