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O poeta que comeu Allen Ginsberg

quarta-feira, 19 fevereiro 2014

O poeta paulista Fernando Calixto – fã confesso de Allen Ginsberg desde que leu A queda da América (que chega em breve à Coleção L&PM Pocket) e Uivo – traduziu e publicou na revista Modo De Usar & Co. alguns dos poemas do escritor beat. Uma tradução nada ortodoxa, mas a seu modo, como que se apropriando das palavras de Ginsberg para tornar líricas as suas próprias vivências e, para isso, adaptando nomes, lugares e referências.

De Beijing para São Paulo, de Walt Whitman e Ezra Pound para Sousândrade e Haroldo de Campos. De Frank O’Hara para Cazuza. Total antropofagia.

O poema “Improvisation in Beijing” de Allen Ginsberg…

I write poetry because the English word Inspiration comes from Latin Spiritus, breath, I want to breathe freely.
I write poetry because Walt Whitman gave world permission to speak with candor.
I write poetry because Walt Whitman opened up poetry’s verse-line for unobstructed breath.
I write poetry because Ezra Pound saw an ivory tower, bet on one wrong horse, gave poets permission to write spoken vernacular idiom.
I write poetry because Pound pointed young Western poets to look at Chinese writing word pictures.
I write poetry because W. C. Williams living in Rutherford wrote New Jerseyesque “I kick yuh eye,” asking, how measure that in iambic pentameter?
I write poetry because my father was poet my mother from Russia spoke Communist, died in a mad house.
I write poetry because young friend Gary Snyder sat to look at his thoughts as part of external phenomenal world just like a 1984 conference table.
I write poetry because I suffer, born to die, kidneystones and high blood pressure, everybody suffers.
I write poetry because I suffer confusion not knowing what other people think.
I write because poetry can reveal my thoughts, cure my paranoia also other people’s paranoia.
I write poetry because my mind wanders subject to sex politics Budhadharma meditation.
I write poetry to make accurate picture my own mind.
I write poetry because I took Bodhisattva’s Four Vows: Sentient creatures to liberate are numberless in the universe, my own greed ignorance to cut thru’s infinite, situations I
find myself in are countless as the sky okay, while awakened mind path’s endless.
I write poetry because this morning I woke trembling with fear what could I say in China?
I write poetry because Russian poets Mayakovsky and Yesenin committed suicide, somebody else has to talk.
I write poetry because my father reciting Shelley English poet & Vachel Lindsay American poet out loud gave example–big wind inspiration breath.
I write poetry because writing sexual matters was censored in United States.
I write poetry because millionaires East and West ride Rolls-Royce limousines, poor people don’t have enough money to fix their teeth.
I write poetry because my genes and chromosomes fall in love with young men not young women.
I write poetry because I have no dogmatic responsibility one day to the next.
I write poetry because I want to be alone and want to talk to people.
I write poetry to talk back to Whitman, young people in ten years, talk to old aunts and uncles still living near Newark, New Jersey.
I write poetry because I listened to black Blues on 1939 radio, Leadbelly and Ma Rainey.
I write poetry inspired by youthful cheerful Beatles’ songs grown old.
I write poetry because Chuang-tzu couldn’t tell whether he was butterfly or man, Lao-tzu said water flows downhill, Confucius said honor elders, I wanted to honor Whitman.
I write poetry because overgrazing sheep and cattle Mongolia to U.S. Wild West destroys new grass & erosion creates deserts.
I write poetry wearing animal shoes.
I write poetry “First thought, best thought” always.
I write poetry because no ideas are comprehensible except as manifested in minute particulars: “No ideas but in things.”
I write poetry because the Tibetan Lama guru says, “Things are symbols of themselves.”
I write poetry because newspapers headline a black hole at our galaxy-center, we’re free to notice it.
I write poetry because World War I, World War II, nuclear bomb, and World War III if we want it, I don’t need it.
I write poetry because first poem Howl not meant to be published was prosecuted by the police.
I write poetry because my second long poem Kaddish honored my mother’s parinirvana in a mental hospital.
I write poetry because Hitler killed six million Jews, I’m Jewish.
I write poetry because Moscow said Stalin exiled 20 million Jews and intellectuals to Siberia, 15 million never came back to the Stray Dog Café, St. Petersburg.
I write poetry because I sing when I’m lonesome.
I write poetry because Walt Whitman said, “Do I contradict myself? Very well then I contradict myself (I am large, I contain multitudes.)”
I write poetry because my mind contradicts itself, one minute in New York, next minute the Dinaric Alps.
I write poetry because my head contains 10,000 thoughts.
I write poetry because no reason no because.
I write poetry because it’s the best way to say everything in mind within 6 minutes or a lifetime.

… virou “Improviso em São Paulo”:

Eu escrevo poesia porque a palavra portuguesa inspiração vem do latim inspiratio, sopro, e eu quero respirar livremente.
Escrevo poesia porque Sousândrade deu ao mundo a permissão de falar com ternura.
Escrevo poesia porque Sousândrade deu ao verso a regência da respiração.
Escrevo poesia porque Haroldo de Campos mirou uma torre de marfim e apostou no cavalo errado e deu aos poetas a autorização de escrever a língua lácio-falada.
Escrevo poesia porque Haroldo indicou aos jovens poetas sul- americanos que observassem os chineses desenhando a
semântica.
Escrevo poesia porque Mário de Andrade, da Lopes Chaves, escreveu semanadeartemodernamente “Bofetadas líricas no Trianon… Algodoal!…”, para logo se perguntar: como posso medi-
lo em alexandrino?
Escrevo poesia porque meu pai era poeta e minha mãe, anarquista, vive no mundo da lua.
Escrevo poesia porque meu jovem amigo Ricardo Domeneck sentou-se para examinar seus pensamentos como parte de um fenômeno ético/estético/histórico – numa leitura de 2006.
Escrevo poesia porque eu sofro pra caralho: natimorto, pedras nos rins, spleen, pressão alta, amor em falta – todo mundo se fode.
Escrevo poesia porque, não sabendo o plano alheio, eu me despenteio.
Escrevo poesia porque ela pode revelar meus pensamentos e curar minha neurose – assim como a dos outros.
Escrevo poesia porque minha mente vadia à toa meditando sobre sexo, estética e São Francisco de Assis.
Escrevo poesia para juntar, com toda precisão, os cacos da minha cuca.
Escrevo poesia porque entendi as parábolas de Cristo: chegará o filho de seu par e ele colherá tudo que seja escândalo e sândalo, e lançará à cama de ouro, e ali haverá lágrima e ternura; então haverá um humano. Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça: a luz da mente é infinita.
Escrevo poesia porque nesta manhã acordei tremendo de pavor. Que mais eu poderia sentir em São Paulo?
Escrevo poesia porque os poetas Torquato Neto e Ana Cristina Cesar se mataram e alguém tem que falar.
Escrevo poesia porque meu pai um dia recitou uma coleção de poemas populares e deu um caminho – do vento só herdamos o carinho.
Escrevo poesia porque putaria é prato do dia nos Estados Unidos do Brasil.
Escrevo poesia porque os milionários cruzam o país em seus Hyundai, e os fodidos deixam seus dentes nas sopas filantrópicas.
Escrevo poesia porque meus genes e cromossomos só sentem tesão por ninfas e dríades.
Escrevo poesia porque hoje, graças ao acaso, não tenho mais nada a ver com isso.
Escrevo poesia porque sou habitante da solidão e, de repente, falar com as pessoas pode ser divertido.
Escrevo poesia para papear com Bolaño; para que pobres-diabos,
daqui a cem anos, fofoquem com suas velhas tias e patéticos tios que ainda vivam em São Paulo.
Escrevo poesia porque em 1979 escutava Luiz Gonzaga e Roberto Carlos nas rádios de São Paulo.
Escrevo poesia porque ouvi The Long and Winding Road dos Beatles – os que nunca acabam, pois estão longe. E longe é uma geografia
repleta de saudades intransponíveis.
Escrevo poesia porque uma noite, em meu sonho, Chuang-tzu não sabia se havia sonhado que era uma borboleta ou se era uma borboleta que havia sonhado que era Chuang-tzu. Outro chinês, o tal Lao-tzu, disse que a água flui como uma estrutura que rui; e Confúcio disse honre os mestres. E eu desejo honrar a Sousândrade.
Escrevo poesia porque o excesso de tirania, coronelismo e dinheirolatria
consome o mundo e cria desertos na carne e na mente.
Escrevo poesia usando um Mad Rats vermelho.
Escrevo poesia porque “o simples é o certo”, sempre.
Escrevo poesia porque as idéias não são compreensíveis a não ser quando expressas com as mínimas minúcias: “Isto não é um cachimbo”.
Escrevo poesia porque um fauno de calça Lee escreveu: “A vida é curta pra ser pequena.”
Escrevo poesia porque os jornais dizem que um buraco negro nos engolirá – e somos livres para não estar nem aí.
Escrevo poesia porque as duas Grandes Guerras não nos ensinaram nada, nem uma linha sequer, e a Terceira, que tanto almejamos, que venha fatal e corrija o erro da Criação.
Escrevo poesia porque meu poema, “A falta que ela me faz” foi apreendido e torturado pela polícia-piada-pronta das letras nacionais.
Escrevo poesia porque meu primeiro poema extenso, At Infernum – Livro de Gravuras, honra minha sobrevivência, da minha Garota e da minha Velha, neste mundo babaca.
Escrevo poesia porque os EUA patrocinaram todas as ditaduras na América Latina, assassinando milhares de sul-americanos. E eu sou sul-americano!
Escrevo poesia porque, de Moscou, sabemos que Stálin mandou 20 milhões de judeus e intelectuais para a Sibéria. 15 milhões jamais tiveram a oportunidade de tomar um café no inverno de São Petersburgo.
Escrevo poesia porque canto quando estou sozinho.
Escrevo poesia porque Sousândrade disse:
“– O Lord! God! Almighty Policeman!
O mundo é ladrão, beberrão,
Burglar e o vil vândalo
Escândalo
Freelove… e ‘í vem tudo ao sermão!”
Escrevo poesia porque sou contraditório; agora estou em São
Paulo e daqui a pouco em Guadalajara.
Escrevo poesia porque em meu pensamento habitam infinitos perfumes.
Escrevo poesia sem razão nem por quê.
Escrevo poesia porque é a melhor maneira de dizer tudo em seis minutos.
Ou numa vida.

Neste post tem mais poemas e suas respectivas “traduções”. E em breve, mais um livro de poemas de Allen Ginsberg na Coleção L&PM Pocket: A queda da América.

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50. Quando a L&PM foi parar no “Olho da Rua”

terça-feira, 18 outubro 2011

Em outubro, como já anunciado, a Série “Era uma vez… uma editora” ficou um pouco diferente. Este mês, como o editor Ivan Pinheiro Machado* estava na Feira de Frankfurt, ficou decidido que os posts seriam dedicados a livros que deixaram saudades. Hoje, no entanto, no lugar de um título, resolvemos falar de uma coleção inteira. A ideia de contar a história da Coleção “Olho da Rua” surgiu de uma conversa com o escritor Eduardo Bueno (que alguns chamam de Peninha) que, nos anos 80, criou esta série de livros marginais, como ele mesmo definiu.

A Coleção “Olho da Rua” começou quando Eduardo convidou Antonio Bivar para (re)publicar o seu livro Verdes Vales do Fim do Mundo, que já estava há tempo fora de catálogo. Bivar era co-tradutor, junto com Bueno, da primeira versão da tradução de On the Road. O plano era, a partir deste livro, dar início a uma versão brasileira da Coleção “Rebeldes e Malditos”, criada por Ivan Pinheiro Machado e que, em 1984, já publicava, entre outros, Cartas a Théo de Van Gogh, De Profundis, de Oscar Wilde, Paraísos Artificiais, de Charles de Baudelaire e A correspondência de Arthur Rimbaud.

A edição de "Verdes Vales do Fim do Mundo" de 1984, depois relançada na Coleção L&PM POCKET

“A seguir, convidei Jorge Mautner, Roberto Piva, Pepe Escobar, Reinaldo Moraes e outros malucos para se juntarem ao bando. Precisávamos de um nome para a coleção, que soasse rebelde e maldito o suficiente. Da conversa com o Bivar surgiu o nome “Olho da Rua”, já que vários deles tinham a vivência plena das calçadas e das sarjetas, nunca foram de circular muito pelas avenidas principais e já haviam sido orgulhosamente postos no olho da rua várias vezes. Além de tudo, o “olhar” deles era o olhar típico dos escritores que não produziam seus livros “de pantufas no gabinete, com a lareira acesa e um gato ronronando”. Aí, eu e Ivan achamos o nome não apenas adequado como ótimo. E a coleção saiu. Ela era quase uma “resposta” à Cantadas Literárias, lançada pouco antes pela editora Brasiliense. Resposta não é bem o caso: era complementar a ela e seguia a tendência de editar “marginais”, que a L&PM já fazia tanto na “Rebeldes e Malditos” como na Coleção “Alma Beat”. Era o inicio dos anos 80, o país vivia grande efervescência, todo mundo ansiava pela abertura e pela volta das “liberdades democráticas” e então a “Olho da Rua” veio para resgatar textos já publicados e/ou censurados e também livros inéditos (como “Speedball” de Pepe Escobar e “Abacaxi”, de Reinaldo Moraes).” Conta Eduardo Bueno.

A “Olho da Rua” acabou não ficando só nos brasileiros. Foi nela que, pela primeira vez, Sam Shepard foi publicado no Brasil com o livro Louco para Amar. E também Gasolina e Lady Vestal, de Gregory Corso, De repente, acidentes de Carl Solomon, 7 Dias na Nicarágua Libre, de Lawrence Ferlinghetti, A queda da América, de Allen Ginsberg, Luna Caliente de Mempo Giardinelli e Isadora – fragmentos autobiográficos, de Isadora Duncan.

Alguns dos livros que inicialmente sairam na “Olho da Rua” acabaram sendo relançados na Coleção L&PM POCKET. Como Verdes Vales do Fim do Mundo, por exemplo.

* Toda terça-feira, o editor Ivan Pinheiro Machado resgata histórias que aconteceram em mais de três décadas de L&PM. Este é o quinquagésimo post da Série “Era uma vez… uma editora“.