Posts Tagged ‘Roberto Piva’

Roberto Piva recebe homenagens em SP

quarta-feira, 16 outubro 2013

Começa nesta quarta, dia 16 de outubro, em São Paulo, uma série de homenagens ao poeta Roberto Piva, morto em 2010, que nos deixou um legado poético marcado pela ousadia e pela liberdade. A série de eventos batizada de “Epivanias” inclui exibições de filmes, debates, espetáculos de dança e shows inspirados em sua obra, tudo com entrada franca, até domingo, dia 20.

pivaj

Confira a programação e agende-se:

QUARTA (dia 16), 20h, no CCSP (sala Adoniram Barbosa)
- Show “São Paulo Não É de Hoje”
(com Gustavo Galo, Meno del Picchia, Peri Pane, Pedro GonGon e Zé Pi – participação especial de Alzira E)

QUINTA (dia 17), 19h, Cine Olido
- Filme “Uma Outra Cidade”, de Ugo Giorgetti

SEXTA (dia 18), 19h, Biblioteca Alceu Amoroso Lima
- Recital “Parabólicas Paranóicas”
(com Barbara Uila, Celso de Alencar, Chiu Yi Chi, Gabriel Kolyniak e Gustavo Benini)
- Show “Caco Pontes e Loop B”

SÁBADO (dia 19), 18h, Biblioteca Alceu Amoroso Lima
- Performance “Chá com Brócolis”
(de Luciana Annunziata, com Carol Araujo e Juliana Bernardo)
- Palestra “Os Dentes da Memória”
(com Camila Hungria e Renata D’Elia)
- Show Pato Preto
(com Ana Kehl de Moraes, Ana Luisa Saad Pereira, Laura Rosembaun, Lia Biserra, Paloma Mecozzi e Sofia Botelho de Almeida)

DOMINGO (dia 20), 14h, Centro Cultural da Juventude
- Oficina Ademir Assunção
- Debate “Poesia e Delírio”
(com Cláudio Willer, Roberto Bicelli, Sergio Cohn e Heyk Pimenta)
- Apresentação “Paranoia”
(de Ana Bottosso, com Cia.de Danças de Diadema)

(via Guia Folha)

Alberto Marsicano – 31 de janeiro de 1952, 18 de agosto de 2013

segunda-feira, 19 agosto 2013

Por Claudio Willer*

Mais um que se foi. Soube há pouco, mas estava no hospital desde segunda-feira, desmaiado, com crise de asma.

Verbete dele na Wikipedia, já atualizado pela morte, dá bibliografia e discografia. http://pt.wikipedia.org/wiki/Alberto_Marsicano

Levar uma vida livre – ‘experimental’, teria dito Roberto Piva – não o impediu de produzir copiosamente. Rimbaud por ele mesmo, em parceria com Daniel Fresnot, livro certo na editora errada. Preciso e informativo. Que seja reeditado. Usei em palestras e ensaios.

Traduções preciosas – sobre William Blake, recorria preferencialmente a seu O Casamento do Céu e do Inferno & outros escritos, L&PM Pocket. Os Keats (Iluminuras), Wordsworth e Shelley (Ateliê), em parceria com John Milton, dificílimas, precisas. O que fez sobre Bashô e haicais, luminoso. Reli recentemente, complementando traduzir os haicais de Kerouac.

Crônicas marsicanas (L&PM) mostra a verve como narrador. Combinou – fazia isso ao vivo – mirabolantes histórias reais, e invenções, frutos de sua imaginação fervilhante. Por exemplo, no episódio de São Luiz do Paraitinga, do qual participo, fundiu duas histórias: aconteceu tudo aquilo e mais, completado por um belíssimo fim de tarde com ele tocando cítara no alto de um morro; mas a leitura de Piva, também real, foi em outra ocasião, no SESC-Interlagos, com ele também tocando. Livro ainda tem belas passagens de prosa poética e reflexão filosófica.

Além de escritor, Alberto Marsicano era músico e introduziu a cítara indiana no Brasil

Além de escritor, Alberto Marsicano era músico e introduziu a cítara indiana no Brasil

Místico desregrado, adepto n’yngma, a loucura sagrada tibetana; e do candomblé / umbanda – espírito sincrético. Às vezes o via na Avenida Paulista, fones de ouvido, olhos fechados, imerso em êxtase, inteiramente alheio ao que se passava ao redor – feliz.

Generoso. Comparecia, prestigiava amigos. Tocar cítara no Viva Piva, a foto circula na internet, foi uma das inumeráveis ocasiões. Quando fiz Artaud para a L&PM, presenteou-me com a edição norte-americana preparada por Susan Sontag, ajudou-me enormemente. Enquanto escrevia Um obscuro encanto, deu-me o livro sobre alquimia em Rimbaud de Daniel Guerdon; e me passou os arquivos em word da nova edição de Blake, ainda no prelo. Sou-lhe devedor.

Trechos de Crônicas marsicanas que Elizabeth Lorenzotti postou em minha pg de Facebook:

cronicas_marsicanas“Num transatlântico espanhol, sob o olhar pasmo dos passageiros, arranquei as folhas de Paranoia (obra prima de Piva), coloquei cada uma delas numa garrafa (que arrumei na cozinha) e arrojei-as ao alto mar, proferindo a conjuração poética: ‘O pensamento profético de Piva singrará os Sete Mares’.”

“Estava numa gélida madrugada esperando o primeiro metro perto do Tamisa em Londres. Numa cena vitoriana, um vulto emerge entre o fog cambaleante me entrega um livro e esvai-se na névoa. Eram os ‘Selected Poems’ de Blake que posteriormente verteria ao português”

 

 

 

* Claudio Willer é poeta, ensaísta e tradutor. O texto acima foi publicado originalmente em seu Blog no dia 18 de agosto de 2013.

Pessoa, Ginsberg e Dalí no mesmo palco

sexta-feira, 7 dezembro 2012

Imagine Fernando Pessoa, Salvador Dalí, Allen Ginsberg e até Roberto Piva reunidos sobre o mesmo palco. Pois é exatamente isso o que a Cia. Teatro do Incêndio apresenta no segundo musical “São Paulo Surrealista”, que agora ganhou o nome de “Poesia Feita de Espuma”. A peça, escrita e dirigida por Marcelo Marcus Fonseca aborda o submundo paulista com um imaginário que começa com a chegada de Fernando Pessoa (o ator João Sant’Ana) à capital, onde é recebido por Beatriz (Giulia Lancelloni), musa de Dante. Mais tarde, ambos encontram o poeta beat Allen Ginsberg (Diego Freire), o poeta paulistano Piva (vivido pelo próprio diretor) e o pintor Dalí (Sonia Molfi) que está na cidade para dirigir uma peça surrealista. A curadoria poética da peça é de Claudio Willer, escritor e tradutor especialista nos beats.

O espetáculo é uma ótima dica para este final de semana. E para o próximo também.

 

SERVIÇO:

São Paulo Surrealista 2: A Poesia Feita de Espuma
Data: Até 15 de dezembro de 2012.
Horário: Quintas, sextas e sábados, às 21h.
Local: Madame – Rua Conselheiro Ramalho, 873 – Bela Vista.
Preço: R$ 15 (entrada) ou R$ 30 (consumíveis) – estudantes pagam meia-entrada.
Tel.: (11) 2592-4474.
www.teatrodoincendio.com.br

50. Quando a L&PM foi parar no “Olho da Rua”

terça-feira, 18 outubro 2011

Em outubro, como já anunciado, a Série “Era uma vez… uma editora” ficou um pouco diferente. Este mês, como o editor Ivan Pinheiro Machado* estava na Feira de Frankfurt, ficou decidido que os posts seriam dedicados a livros que deixaram saudades. Hoje, no entanto, no lugar de um título, resolvemos falar de uma coleção inteira. A ideia de contar a história da Coleção “Olho da Rua” surgiu de uma conversa com o escritor Eduardo Bueno (que alguns chamam de Peninha) que, nos anos 80, criou esta série de livros marginais, como ele mesmo definiu.

A Coleção “Olho da Rua” começou quando Eduardo convidou Antonio Bivar para (re)publicar o seu livro Verdes Vales do Fim do Mundo, que já estava há tempo fora de catálogo. Bivar era co-tradutor, junto com Bueno, da primeira versão da tradução de On the Road. O plano era, a partir deste livro, dar início a uma versão brasileira da Coleção “Rebeldes e Malditos”, criada por Ivan Pinheiro Machado e que, em 1984, já publicava, entre outros, Cartas a Théo de Van Gogh, De Profundis, de Oscar Wilde, Paraísos Artificiais, de Charles de Baudelaire e A correspondência de Arthur Rimbaud.

A edição de "Verdes Vales do Fim do Mundo" de 1984, depois relançada na Coleção L&PM POCKET

“A seguir, convidei Jorge Mautner, Roberto Piva, Pepe Escobar, Reinaldo Moraes e outros malucos para se juntarem ao bando. Precisávamos de um nome para a coleção, que soasse rebelde e maldito o suficiente. Da conversa com o Bivar surgiu o nome “Olho da Rua”, já que vários deles tinham a vivência plena das calçadas e das sarjetas, nunca foram de circular muito pelas avenidas principais e já haviam sido orgulhosamente postos no olho da rua várias vezes. Além de tudo, o “olhar” deles era o olhar típico dos escritores que não produziam seus livros “de pantufas no gabinete, com a lareira acesa e um gato ronronando”. Aí, eu e Ivan achamos o nome não apenas adequado como ótimo. E a coleção saiu. Ela era quase uma “resposta” à Cantadas Literárias, lançada pouco antes pela editora Brasiliense. Resposta não é bem o caso: era complementar a ela e seguia a tendência de editar “marginais”, que a L&PM já fazia tanto na “Rebeldes e Malditos” como na Coleção “Alma Beat”. Era o inicio dos anos 80, o país vivia grande efervescência, todo mundo ansiava pela abertura e pela volta das “liberdades democráticas” e então a “Olho da Rua” veio para resgatar textos já publicados e/ou censurados e também livros inéditos (como “Speedball” de Pepe Escobar e “Abacaxi”, de Reinaldo Moraes).” Conta Eduardo Bueno.

A “Olho da Rua” acabou não ficando só nos brasileiros. Foi nela que, pela primeira vez, Sam Shepard foi publicado no Brasil com o livro Louco para Amar. E também Gasolina e Lady Vestal, de Gregory Corso, De repente, acidentes de Carl Solomon, 7 Dias na Nicarágua Libre, de Lawrence Ferlinghetti, A queda da América, de Allen Ginsberg, Luna Caliente de Mempo Giardinelli e Isadora – fragmentos autobiográficos, de Isadora Duncan.

Alguns dos livros que inicialmente sairam na “Olho da Rua” acabaram sendo relançados na Coleção L&PM POCKET. Como Verdes Vales do Fim do Mundo, por exemplo.

* Toda terça-feira, o editor Ivan Pinheiro Machado resgata histórias que aconteceram em mais de três décadas de L&PM. Este é o quinquagésimo post da Série “Era uma vez… uma editora“.

Adiós, Piva

quarta-feira, 7 julho 2010

Ivan Pinheiro Machado

Em 1984,o Eduardo Bueno, vulgo Peninha, veio trabalhar na L&PM. Naquela época, ele era mais ou menos o que é hoje, só que sem a fortuna que acumulou nestes últimos anos, graças ao seu talento e sua incrível capacidade de trabalho (não é ironia). Era o tradutor do On the road, de Jack Kerouac, e trouxe para a L&PM a cultura beat. Nós, na época, editávamos uma coleção anarquista e já publicávamos Bukowski. Foi atraído por este clima transgressor que Peninha foi parar lá na rua Nova York, 306, sede da L&PM. Fizemos coisas maravilhosas com pouquíssimo dinheiro e muitas ideias. No começo dos anos 80, conhecemos Claudio Willer (autor da antológica tradução de Uivo de Allen Ginsberg) que nos apresentou o poeta Roberto Piva, um estranho maluco genial, cultuado nas rodas radicais de São Paulo.  Nesta época mesmo, criamos uma coleção chamada “Olho da Rua”, com projeto gráfico do grande pintor Caulos. Publicamos Reinaldo de Moraes, Pepe Escobar, Jorge Mautner, Antonio Bivar, Sergio Faraco, os beats Gregory Corso, Allen Ginsberg, Neal Cassady, Carl Solomon, Lawrence Ferlinghetti. Lançamos também no Brasil Sam Shepard, Isadora Duncan e o clássico Luna Caliente de Mempo Giardinelli. A coleção tinha grande prestígio nos meios alternativos e Roberto Piva submeteu, para nosso exame, a sua Antologia Poética que então saiu nesta coleção com capa desenhada por mim. Ele adorava a capa, porque era a representação de uma montanha de lixo com um latinha de Coca-Cola que – segundo ele – ordenava a desordem… Na verdade, encontramos poucas vezes Roberto Piva, pois ele era paulista e nossa sede era –  e é –  em Porto Alegre.

Pois o Piva morreu sábado, dia 3 de julho, aos 72 anos. Ele era a representação física dos seus poemas. Trepidante, delirante e brilhante. Encerro com um trecho da apresentação da nossa edição de 1985 de Antologia Poética escrita pelo Peninha: “A vida de Piva – poética, maldita, conturbada – fornece o material bruto que ele lapida e transpõe para seus poemas. (…) Ele é o mais indômito, o mais rebelde e um dos mais inspirados poetas brasileiros das últimas décadas”.

Claudio Willer homenageia o amigo Roberto Piva

terça-feira, 6 julho 2010

Por Claudio Willer

Desde sábado passado, dia 3 de julho, quando Roberto Piva faleceu (este depoimento é escrito 48 horas depois), já recebi bons poemas dedicados a ele, além de algumas belas crônicas. Mesmo antes, teria sido possível preparar uma edição de poemas nos quais ele está presente em títulos, citações, epígrafes, alusões e homenagens. Também importante, penso, é uma ensaística recente, incluindo teses e dissertações, lançando novas luzes sobre sua contribuição. Acabei de receber o convite para a defesa da dissertação de mestrado de Danilo Monteiro, na USP, Teatralidade da palavra poética em Paranoia de Roberto Piva, nesta terça-feira, dia 6 de julho. Em breve, será apresentada, também na USP, outra dissertação sobre ele, do talentoso poeta Fabrício Clemente. Ano passado, fui banca da tese de doutorado de Gláucia Pimentel, Ataques e utopias: Espaço e Corpo na obra de Roberto Piva, na UFSC; e de outra dissertação de mestrado, Roberto Piva, Panfletário do Caos de Bruno Eduardo da Rocha Brito, na UFP.
Tudo isso mostra que Piva, hoje, é um poeta não apenas lido, porém estudado e escrito; um intertexto. Assim são recuperadas as quase quatro décadas de atraso na boa recepção de seu livro de estréia, Paranóia. Como já observei ao dizer, por sugestão dos demais amigos presentes, algumas palavras na breve cerimônia de sua cremação, deixa um legado enorme. Dele fazem parte a renovação da poesia brasileira; e uma ética particular, que ele seguiu rigorosamente, pela conduta sempre coerente com sua rebelião. Permanece, igualmente, a contribuição como fonte de informações e indicações de leitura. Já escrevi a respeito no posfácio do volume 1 de sua Obra Reunida (Globo, 2005) e no capítulo final do meu recente Geração Beat (L&PM, 2005), registrando a ocasião em que ele apareceu em minha casa em 1961, com a pilha de edições beat da City Lights, de Ginsberg, Ferlinghetti, Corso, Lamantia etc, que nos pusemos imediatamente a traduzir. E pretendo voltar ao assunto: há inúmeros outros episódios como esse, de indicações de leitura, sempre em tom entusiástico e com uma precisão certeira, pois acabariam sendo decisivas  para mim e para outros de seus amigos (e para seus leitores atentos: não economizou citações e indicações de autores no aparente delírio de seus poemas).
E permanecem as amizades. Piva era seletivo, reservado, até idiossincrático em seus relacionamentos; ao mesmo tempo, foi um agregador e catalisador. Gostava de apresentar pessoas nas quais via qualidades. Do meu círculo de amizades, quantas não se formaram, direta ou indiretamente, através dele. Seu último livro de poesia, Estranhos Sinais de Saturno, é, entre outras coisas, um hino à amizade. Todas aquelas dedicatórias aos amigos, àqueles a quem apreciava, formam um mapa, desenham uma constelação afetiva.
Piva se foi. Mas, por todas essas razões, estará cada vez mais presente.

Veja no site uma nota sobre o falecimento de Piva e a transcrição de uma de suas poesias.