33. A Biografia dos “Mamonas Assassinas”

Por Ivan Pinheiro Machado*

Provavelmente nunca mais haverá um fenômeno de massa, mídia e comportamento como foi a meteórica passagem dos Mamonas Assassinas pelo universo midiático brasileiro. Luan Santana, só para citar um super-astro do momento, com seu rostinho de classe média bem-comportado, não representa 1% do “estouro” que foram os Mamonas. Os jovens de todo o Brasil  com 4, 5, 15, 18 anos cantavam cândida e animadamente: “neste raio de suruba/ já me passaram a mão na bunda/ e eu não comi ninguém…

Isso mesmo! O rádio tocava insistentemente clássicos como Pelados em Santos (“minha Brasília amarela, tá de portas abertas”, quem não lembra?), Vira-Vira (a música da suruba cantada em sotaque lusitano, imitando o “Vira” do folclore português), Chopis Centis (“A felicidade é um crediário nas Casas Bahia”), Mundo animal (“Comer tatu é bom, pena que dá dor nas costas”…), Robocop gay (“Faça bem a barba,/ arranque seu bigode/ gaúcho também pode/ não tem que disfarçar”…), Bois don’t cry (“Soy um hombre conformado/ escuto a voz do coração/ sou um corno apaixonado/sei que já fui chifrado/ o mas o que vale é o tesão) e muitos outros. Ninguém explicava o fenômeno. Havia teses e mais teses, mas a verdade é que no final de sua curta vida, os shows dos Mamonas aconteciam em lugares imensos para 30, 40 e até 70 mil pessoas).

Tudo isto acabou em uma das maiores tragédias da história da música popular brasileira. Os cinco jovens que fascinaram e divertiram o Brasil durante menos de dois anos e bateram todos os recordes de venda de CDs de uma banda nacional morreram  no dia 2 de março de 1996. O jatinho que os trazia de um show em Brasília espatifou-se contra a serra da Cantareira em São Paulo.

Cerca de um mês depois da tragédia que comoveu e parou o país, Paulo Lima, o “L” da L&PM, caminhava pela Avenida Rio Branco, no centro do Rio de Janeiro, quando seu celular tocou. Fugindo do barulho ensurdecedor dos ônibus e carros, Lima entrou numa farmácia para atender a ligação de um número desconhecido com prefixo de São Paulo. Era Rick Bonadio, o produtor dos Mamonas e representante das famílias dos rapazes depois do acidente. Ele havia pego o telefone do Lima em nosso escritório em São Paulo e convidava a L&PM para participar de uma concorrência para produzir e editar uma “biografia” da banda. Outros editores seriam ouvidos também. A concorrência levaria em conta a proposta em dinheiro e a qualidade do projeto apresentado.

Resumindo: fizemos uma oferta razoável e propusemos o Eduardo “Peninha” Bueno como autor. Fomos a São Paulo no estúdio do produtor dos Mamonas, levamos o Peninha a tiracolo e apresentamos o projeto. Rick ficou fascinado pelo discurso pop de Eduardo Bueno, o amigo de Bob Dylan, e depois de ouvir os outros “concorrentes” decidiu-se por fazer o contrato com a L&PM.

Peninha “mudou-se” para São Paulo e depois de 2 meses passados na sua maior parte nos subúrbios cinzentos de Guarulhos, o livro estava pronto. Fora um doloroso périplo entrevistando as famílias e amigos dos cinco jovens. O resultado foi um livro extraordinário, em que o texto límpido e emocionado de Eduardo Bueno conseguiu captar sem melodramas aquela impressionante e dramática história brasileira. Uma história de suburbanos que despontaram para a fama e a glória e fizeram cantar um país inteiro de norte a sul, pobres e ricos de todas as idades. Esta foi a grande mágica dos Mamonas Assassinas. Foi um sucesso quase instantâneo e avassalador. Uma história muito curta, mas que deixou no seu rastro recordes e mais recordes de público, vendas de discos e exposição na mídia.

Blá Blá Blá - a biografia autorizada dos Mamonas AssassinasO livro saiu 3 meses depois da tragédia. Um recorde no gênero que os ingleses batizaram de “instant books”. Blá, blá, blá – a biografia autorizada dos Mamonas Assassinas vendeu exatos 90 mil exemplares, uma grande venda, mas aquém do que esperávamos. Procuramos, na época, uma explicação para o fato do livro não ter reprisado o imenso sucesso dos discos. O livro era leve, informativo, extremamente bem escrito, ilustrado belissimamente com histórias em quadrinhos, fotos a cores e fora distribuído, além das livrarias, também nas bancas de jornais. Nunca obtivemos uma resposta convincente. Havia sido uma boa venda, mas, como tudo na meteórica passagem dos Mamonas sobre a terra tinha sido exageradamente grande, ficamos frustrados com os números finais. Foram muitas as teses procurando explicar o “fenômeno”. Mas, como se sabe, teses não mudam destinos. Principalmente de coisas que já aconteceram.

*Toda terça-feira, o editor Ivan Pinheiro Machado resgata histórias que aconteceram em mais de três décadas de L&PM. Este é o trigésimo terceiro post da Série “Era uma vez… uma editora“.

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  1. Patricia disse:

    Esse livro não está esgotado? Porque senão eu concerteza ajudaria a aumentar o número de exemplares vendidos!

    • Nanni Rios disse:

      Oi, Patricia. Infelizmente, o livro está esgotado :(

      • daiane disse:

        po veio eu adoroos mamonas até hoje e olhaque eu tennho 13 anos e adoro as bostas que eles felam nes musicas deles não chegei a conhecer mas se eu tivesse a oportunidade não a perderia por nada desse mundo

  2. Patricia disse:

    po, sacanagem entao… o post foi só pra deixar na vontade. hehehe

  3. Luciano Pinto disse:

    tenho certeza que passados 16 anos dessa tragédia que deixou nossas vidas menos alegres, uma reedição deste livro com certeza dobrará sua venda total e trará de volta um pouco da alegria que perdemos naquele dia. “Mamonas Assassinas” nuncam morreram no inconciente daqueles que presenciaram sua história.

  4. Guilherme Nascimento disse:

    Concordo com a Patricia.
    “O livro era leve, informativo, extremamente bem escrito, ilustrado belissimamente com histórias em quadrinhos, fotos a cores e fora distribuído, além das livrarias, também nas bancas de jornais.”
    Esse trecho me deixou doido para ler o livro.
    Daí eu fico sabendo que ele está esgotado…
    É um tapa na cara. XD

    Aliás, “exatos 90 mil exemplares”? Isso é um dado curioso.

  5. Lia disse:

    Eu comprei este livro na época, e até fui na tarde de autógrafos, no Shopping Eldorado, em São Paulo, onde estavam os familiares dos integrantes da banda. Foi bem legal, mas inevitavelmente triste também.

    Li o livro apenas uma vez, logo depois de ter comprado, mas lembro que tinha gostado bastante! Acho que vou caçá-lo no meio dos meus livros e relê-lo. =)

    Aliás, conforme o comentário anterior sugeriu, uma reedição seria uma ótima ideia!

  6. Gabriela disse:

    Esses dias achei meu exemplar na casa da minha mãe… Reli dando boas gargalhadas, algumas vezes chorando e relembrando aquele tempo tão bom… Eu tinha dez anos quando os Mamonas morreram e comprei o livro numa banca de jornal perto do colégio, se não me engano custava 9,90 na época e eu juntei dinheiro quase um mês para comprá-lo… Boas recordações…

  7. Armando disse:

    O artigo se refere a muitas teses explicativas do fenômeno Mamonas Assassinas, o que me surpreendeu. Estou fazendo uma pesquisa sobre a banda e tendo dificuldade de encontrar material a respeito, afora o que foi publicado na gande mídia. Tinha a impressão, inclusive, que a banda foi ignorada pela crítica e não teve a análise que merecia, pela grandiosidade do que representou. Se possível gostaria de ser informado de como ter acesso a essas informações. Desde já, agradeço.

    • Paula Taitelbaum disse:

      Caro Armando, o livro “Blá, blá, blá – Biografia autorizada” é realmente excelente, mas infelizmente ele está esgotado. Talvez você consiga encontrá-lo em sebos que vendem livros usados. Boa sorte! Abraço, Paula (Núcleo de Comunicação L&PM)

  8. Armando disse:

    Tomo a liberdade de recomendar o site de resumos Shvoong, onde também foi publicada uma resenha sobre o livro:

    http://pt.shvoong.com/books/biography/2300345-mamonas-assassinas-bl%C3%A1-bl%C3%A1-bl%C3%A1/

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