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Um brinde à poeta russa Ana Akhmátova

quarta-feira, 5 março 2014

O ÚLTIMO BRINDE

(Tradução do russo de Lauro Machado Coelho)

 

Bebo à casa arruinada,

às dores de minha vida,

à solidão lado a lado

e à ti também eu bebo –

            aos lábios que me mentiram,

            ao frio mortal nos olhos,

             ao mundo rude e brutal

             e a Deus que não nos salvou.

                                                                                         Anna Akhmátova – 27/3/1934

“Akhmátova tem a sóbria e aristocrática beleza da serenidade”, escrevia, em 1962, o poeta chileno Nicanor Parra, em sua apresentação da antologia bilíngue Poesía Soviética Rusa (Ed. Progreso, Moscou). “Sua imagem, com o inseparável xale negro sobre os ombros, associa-se naturalmente à tradicional melancolia da paisagem de Leningrado, com suas imperiais grades de ferro batido e o frio brilho do Nevá, que parecem refletir a clareza clássica de seus versos, onde até a paixão veste o corpete da lógica. Seu tema central é o da alma feminina solitária, que abre caminho para a luz da compreensão e da simpatia. Seu virtuosismo técnico é do tipo que não salta aos olhos, de tal forma suas imagens conseguem ser, ao mesmo tempo, simples e profundas, dizendo tudo com simples alusões. Seus versos distinguem-se por essa capacidade de sugerir os fenômenos ‘imperceptíveis’, como as lembranças, os sonhos, a imaginação.” Essas palavras evocam bem a personalidade literária e humana de Anna Akhmátova, um dos nomes mais significativos da poesia russa no início do século XX. “Sua vida foi-nos transmitida através de notas autobiográficas, conversas e entrevistas gravadas, cartas e diários de seus contemporâneos e críticas à sua obra”, escreve Roberta Reeder, a responsável pela monumental edição integral bilíngue de seus poemas, lançada pela Zephyr Press, nos Estados Unidos, em 1990. “E, no entanto, de muitas maneiras, Akhmátova permanece um mistério.” … (início da introdução escrita por Lauro Machado de Coelho para a Antologia Poética de Anna Akhmátova, Coleção L&PM Pocket. Lauro também é responsável pela seleção dos poemas, radução do russo, apresentação e notas)

 anna_akhmatova_antologia_poetica

 

A língua portuguesa de Olavo Bilac

sexta-feira, 28 dezembro 2012

Em 18 de dezembro de 1918 morria o poeta Olavo Bilac. E mesmo depois de deixar este mundo, ele continuou dividindo opiniões sobre sua obra, como narra Paulo Hecker Filho, organizador da Antologia Poética de Bilac da Coleção L&PM Pocket, no texto de apresentação:

Quando veio o Modernismo na década de 20, uma tomada de consciência, enfronhada da modernidade europeia, do papel do escritor enquanto cidadão e artista, Bilac passa a ser alvo de desprezos fáceis. Mas o líder do Modernismo, seu cérebro estético, Mario de Andrade, não deixou de reconhecer nele o homem sincero e o artista inigualável. Realmente, ninguém tem na língua verso mais plástico e musical.

O poema “Língua portuguesa”, um dos mais célebres de Olavo Bilac, faz parte desta Antologia Poética:

(clique na imagem para ampliar)

sábado, 18 fevereiro 2012

Lá fora, a voz do vento ulule rouca!
Tu, a cabeça no meu ombro inclina,
E essa boca vermelha e pequenina
Aproxima, a sorrir, de minha boca!

Que eu a fronte repouse ansiosa e louca
Em teu seio, mais alvo que a neblina
Que, mas manhãs hiemais, úmida e fina,
Da serra as grimpas verdejantes touca!

Solta as tranças agora, como um manto!
Canta! Embala-me o sono com teu canto!
E eu, aos raios tranquilos desse olhar,

Possa dormir sereno, como o rio
Que, em noites calmas, sossegado e frio,
Dorme aos raios de prata do luar!…

De Olavo Bilac, Antologia Poética

sábado, 7 janeiro 2012

Jardim de verão

Quero ver as rosas neste jardim único
onde uma grade se ergue sem igual,

onde as estátuas me recordam jovem
e delas me lembro sob as águas do Nevá.

Das tílias no silêncio perfumado
imagino o rangido dos mastros dos navios,

e o cisne, como antes, vaga através dos séculos,
admirando o esplendor de sua imagem.

Lá, para sempre, os passos se calaram,
amados, odiados, odiados ou amados.

E o desfilar das sombras não tem fim,
do vaso de granito ao portal do palácio.

Lá minhas noites em claro murmuram bem baixinho
cantando um amor secreto, misterioso.

Jade e madrepérola em tudo se irradiam,
mas a secreta fonte de luz fica escondida.

 Da Antologia Poética de Anna Akhmátova

sábado, 24 dezembro 2011

Natal sem Sinos

No pátio a noite é sem silêncio.
E que é a noite sem o silêncio?
A noite é sem silêncio e no entanto onde os sinos
Do meu Natal sem sinos?

Ah meninos sinos
De quando eu menino!

Sinos da Boa Vista e de Santo Antônio.
Sinos do Poço, do Monteiro e da igrejinha de Boa Viagem.

Outros sinos
Sinos
Quantos sinos!

No noturno pátio
Sem silêncio, ó sinos
De quando eu menino,
Bimbalhai meninos.
Pelos sinos (sinos
Que não ouço), os sinos de
Santa Luzia.

(De Manuel Bandeira em Bandeira de bolso – Uma antologia poética)

Frederico García Lorca em NY

segunda-feira, 30 maio 2011

Em junho de 1929, o poeta Frederico García Lorca chegou à Nova York a bordo do navio Olympic. Permaneceu nove meses nos EUA, tempo de gestar poemas e canções que seriam marcantes em sua obra. Em Frederico García Lorca – Antologia Poética há alguns dos poemas deste período, em que, entre um verso e outro, ele estudava na Columbia University.

A AURORA

A aurora de Nova York tem
quatro colunas de lodo
e um furacão de negras pombas
que chapinham as águas podres.

A aurora de Nova York geme
pelas imensas escadas,
buscando entre as arestas
nardos de angústia desenhada.

A aurora chega e ninguém a recebe na boca
porque ali não há manhã nem esperança possível.
Às vezes as moedas em enxames furiosos
tradeiam e devoram meninos abandonados.

Os primeiros que saem compreendem
com seus ossos
que não haverá paraíso nem amores desfolhados;
sabem que vão ao lodaçal de números e leis,
aos brinquedos sem arte, a suores sem fruto.

A luz é sepultada por correntes e ruídos
em impudico reto de ciência sem raízes.
Pelos bairros há gentes que vacilam insones
como recém-saídas de um naufrágio de sangue.

É dessa época também o poema “Pequeño vals vienès” que, em 1986, foi musicado por Leonard Cohen com o nome de “Take This Waltz”: