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Diferentes estilos de ser feliz por nada

Aqui na redação deste blog, a expressão “feliz por nada” está tão presente no nosso dia-a-dia (é o nome do mais recente livro de Martha Medeiros) que acabamos fazendo uma brincadeira. Uma espécie de exercício de criatividade que agora compartilhamos com os leitores. É o seguinte: o que alguns dos nossos autores preferidos teriam a dizer sobre ser “feliz por nada”? Aquela sensação de estar alegre sem ter motivo e de ficar rindo à toa sem saber porquê… Pensando nisso – e inspirados nas palavras e nos estilos literários de Allen Ginsberg, Woody Allen, Charles Bukowski e Jack Kerouac – criamos algumas frases que juntamos com as fotos mais felizes que encontramos de cada um deles (parece que Jack Kerouac não gostava muito de mostrar os dentes…). Veja aqui o resultado:

Allen Ginsberg: “Feliz por nada, flutuando sobre os tetos das cidades contemplando jazz…”:

Woody Allen: “A genialidade está nos cromossomos. Você sabia que meu DNA brilha no escuro? É por isso que de vez em quando me sinto feliz por nada. E não me diga que isso é efeito do Prozac…”

Charles Bukowski: “Um dos caras me alcançou um cigarro. Dei uma tragada, exalei fumaça pelo nariz e bebi todo o copo num gole só. Não conseguia entender aquela sensação de estar feliz por nada. Ainda nem tinha bebido o suficiente pra isso…”

Jack Kerouac: “Cambaleamos para dentro do bar. Na junkebox, ressoava a voz rouca que repetia com seu sotaque latinamente triste: ‘Estou feliz por nada… Feliz por nada…'” (Kerouac é o da direita, aqui ao lado de Neal Cassady):

E por falar nisso, hoje Martha Medeiros autografa seu livroFeliz por nada“, às 19h, na Livraria Saraiva do Leblon. E amanhã, sábado, ela vai estar na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, às 16h no Espaço Degustação Digital e às 17h no Mulher e ponto.

As viagens de William Burroughs

William S. Burroughs foi mais longe do que os outros beats. Não que tenha feito mais sucesso, mas viveu mais do que  seus amigos Allen Ginsberg e Jack Kerouac. Morreu de ataque cardíaco em 2 de agosto de 1997 aos 83 anos. Um verdadeiro sobrevivente a oito décadas de vida junky. Se foi para o céu, ninguém sabe, já que além de um séquito de fãs e amigos famosos, seu currículo incluía relações com garotos menores de idade e o assassinato da esposa (que ele matou sem querer ao brincar de Guilherme Tell).

Dois anos após a controversa morte acidental da mulher, que aconteceu em 1951, Burroughs se lançou em uma viagem pelo Peru e Colômbia, em busca do yage, ou ayahuasca, uma droga usada pelos índios da nascente do rio Amazonas à qual se atribuem poderes sensoriais e anestésicos. Dessa aventura, nasceu Cartas do yage, que traz a correspondência trocada entre ele e Allen Ginsberg. A seguir, alguns trechos:

Querido Al:

De volta a Bogotá. Tenho um caixote de yage. Tomei-o e sei mais ou menos como é preparado. Outra coisa, talvez você veja minha foto no Exposure. Encontrei um repórter chegando quando estava saindo. Certamente veado, mas tão degustável quanto um cesto de roupa suja (…) Todas as noites vou a um bar, peço uma garrafa de Pepsi e derramo dentro um pouco de álcool do laboratório. (…) Fui roubado outra vez. Meus óculos e meu canivete. Perdendo todos os meus fodidos valores em serviço. Esta é uma nação de cleptomaníacos. Em toda minha experiência como homossexual, nunca tinha sido vítima de roubos tão idiotas de artigos sem uso possível para outra pessoa. Até agora, óculos e cheques de viagem. O problema é que compartilho com o falecido padre Flanagan, o da Cidade dos Meninos, da profunda convicção de que não existem garotos maus. Tenho que largar a droga. Minhas mãos tremem tanto que mal posso escrever. Preciso parar.

Amor,
Bill

William Burroughs adorava armas e gatos

De William Burroughs, além de Cartas do yage, a Coleção L&PM publica O gato por dentro.

Já tem companhia para o feriado?

Um chocolate quente, um pijama confortável, música suave em um ambiente silencioso. O dia de hoje pede exatamente isso. Afinal, feriados são pequenos hiatos em meio a uma atribulada rotina e devem ser desfrutados ao máximo. Servem para pensar na vida, passear com um amigo, fazer um programinha romântico ou mesmo ficar deitado deixando-se inundar pelo sol invernal. Outra ideia para quem quer aproveitar o feriado é escolher um companheiro. De Machado de Assis a Raymond Chandler, de Bukowski a Anaís Nïn, de Allen Ginsberg a Agatha Christie.

Já pensou em passar o feriado com eles em um dos ambientes a seguir? 🙂

Biblioteca da Delft University, na Holanda.

Sala de leitura da Biblioteca do Parlamento em Ottawa, no Canadá

Österreichische Nationalbibliothek (The Austrian National Library) em Vienna

Para quem gosta de bibliotecas, este site fez uma seleção de fotos de algumas das mais lindas do mundo!

As namoradas de Jack Kerouac

Aproveitando que o Dia dos Namorados está chegando, separamos aqui algumas namoradas de Jack Kerouac. Mulheres que o acolheram e o inspiraram a criar algumas de suas personagens.

bea_francoBea Franco – Foi a “Mexican Girl” de Jack Kerouac. A personagem Terry, de On the Road, foi inspirada nela. Os dois se conheceram no outono de 1947 na Califórnia e tiveram um affair. Mas o suficiente para ela ir parar no livro e apaixonar-se por Kerouac. Em uma das cartas que enviou a ele, diz que, se não fosse seu filho, “teria ido com ele mesmo que fosse de carona”. No filme On the Road, de Walter Salles, a Mexican Girl foi interpretada por Alice Braga.

Alene Lee – Afro-americana com ares de cantora de jazz, Alene fazia parte do círculo beat e foi namorada de Kerouac em 1953. Mardou Fox, personagem de Os Subterrâneos, na verdade é ela, assim como Leo Percepeid é o alterego de Kerouac. Outra personagem dele, Irene May, do Livro dos Sonhos, também teria sido inspirada em Alene. Essa ex-namorada de Jack preferiu ser discreta e não contou muito sobre a relação entre os dois.

 

Helen Weaver – Trabalhava em uma editora e conheceu Jack Kerouac em 1956, quando ele e Allen Ginsberg bateram na porta de sua casa. Apaixonou-se por Kerouac à primeira vista. Em 2009, publicou um livro contando suas memórias com Kerouac, que tem o título de “The Awakener (O despertador). “Eu soube que ia escrever este livro desde aquele dia, em novembro de 1956, quando ele entrou na minha sala, meu quarto, e minha vida” escreveu ela no prólogo.

Joyce Glassman (Joyce Johnson) – Começou a namorar Jack Kerouac quando tinha 21 anos e pouco antes do lançamento de On the road. Foi ela que acompanhou o escritor até a banca de jornal, na madrugada de 5 de setembro de 1957, para que comprassem a edição do New York Times e lessem a crítica do livro. Publicou, em 2000, Door Wide Open: A Beat Love Affair In Letters, 1957-1958, com as cartas trocadas entre ela e Kerouac ao longo de um ano.

E estas não foram as únicas mulheres na vida de Jack Kerouac. Edie Parker, a namorada que virou a primeira esposa (apesar de terem ficado casados por apenas dois meses), também escreveu um livro contando sua vida ao lado de Jack. Esperanza Villanueva o encantou e o inspirou a escrever Tristessa. Carolyn Cassady, esposa de Neal Cassady, foi sua amante. E Stella Sampas, uma namorada da adolescência, acabou se casando com ele nos anos 1960.

Múltiplos olhares sobre Allen Ginsberg

Pelo jeito, o Howl Festival 2011 realizado de 3 a 5 de junho em Nova York para comemorar o aniversário de Allen Ginsberg foi um sucesso! Basta dar uma olhada nas notícias e fotos da festa que circularam na internet desde o primeiro dia. Como de costume, o festival abriu com uma leitura em grupo de Howl (Uivo), o longo e célebre poema de Ginsberg que dá nome ao evento. Ainda na programação, vários shows de música, apresentações de dança, performances, poesia e até um carnaval infantil.

Ao longo do Tompkins Square Park, que fica no East Village, bairro em que Allen Ginsberg morou até o fim da vida, diversos artistas gráficos também prestaram sua homenagem ao poeta. Fazendo uma busca simples por “Howl Festival 2011” no Flickr, você encontra uma verdadeira cobertura fotográfica colaborativa do evento:

(passe o mouse sobre as fotos para ver os créditos ou clique para ir direto ao perfil do fotógrafo no Flickr)

howl festival 2011

Art Around the Park, Howl Festival 2011, East Village, New York City - 3

ginsburg, allen at Howl

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Quer ver mais fotos? No Flickr há centenas delas! Clique aqui e sinta o clima do que foi o Howl Festival 2011.

Para comemorar o aniversário de 85 anos de Allen Ginsberg

“Allen Ginsberg nasceu em Mewark, Nova Jersey, a 3 de junho de 1926, filho de Louis e Naomi Ginsberg, ambos de famílias de judeus russos emigrados. Seu pai foi poeta e professor de literatura no secundário. Chegou a ser publicado em antologias importantes e frequentou círculos literários de prestígio. Sua mãe, também professora, passou boa parte da vida internada, vítima de esquizofrenia paranóica. Por isso, a infância e juventude de Ginsberg em Paterson, para onde logo se mudaram e Louis passou a lecionar, foram difíceis e dolorosas. Convivendo com crises e dificuldades, Ginsberg cresceu, contudo, em um ambiente culto, pelas leituras e pela produção do pai, e politizado, também por influência de Louis, socialista, e de Naomi, comunista militante. O drama familiar o levou a interrogar-se sobre sua identidade, seu papel na sociedade e no mundo. Contribuiu para que desenvolvesse, como observam seu biógrafo Barry Miles e outros comentaristas, tolerância e simpatia pela loucura e excentricidade, quer fossem de personalidades da literatura, os escritores visionários e desregrados, ou das pessoas com quem conviveu durante o período de formação da Geração Beat nos anos 40 e 50, e ao longo do restante da sua vida” (Claudio Willer* no prefácio de “Uivo“)

Allen Ginsberg, que faleceu em 5 de abril de 1997, faria 85 anos hoje. Para comemorar a data, desde 2003, seus fãs organizam o Howl! Festival em Nova York. É uma grande festa que começa no dia 3 de junho e vai até o dia 5, com eventos de música, dança, poesia e até um carnaval infantil. Basta chegar e participar. A comemoração acontece no Tompkins Square Park, que fica no East Village, bairro em que Ginsberg morou até o fim da vida.  Como de costume, o festival abre com um grupo de leitura de “Howl” (Uivo), o longo e pulsante poema de Ginsberg. No ano passado, cerca de 100 mil visitantes celebraram as palavras de Ginsberg. Quem estiver em Nova York já tem programa pra este final de semana.

*Claudio Willer realizou a tradução, seleção e notas de “Uivo” – editado em formato convencional e pocket pela L&PM

Os gatos e a literatura

Quem tem gatos em casa já viveu esta cena: é só sentar no sofá e puxar um livro que eles chegam perto e se acomodam nos seus pés, no seu colo ou – por que não? – em cima do livro que você pretendia ler. E que atire a primeira enciclopédia quem nunca fraquejou e deixou o livro de lado para se entregar aos ron-rons do bichano! E a relação dos gatos com a literatura vai além da disputa da atenção do dono com os livros. Os felinos foram afetuosos companheiros de vários escritores:

Charles Bukowski

Jack Kerouac

 

Allen Ginsberg

Hunter Thompson

Truman Capote

Patricia Highsmith

Patricia Highsmith

William Burroughs

 

Para marcar o Dia da Imigração Judaica

“Havia guerra na Europa, mas a hora era de calma no Bom Fim. Os grandes negros da Colônia Africana ainda dormiam, ressonando forte e cheirando a cachaça. Três mulatas dormiam dilatando as narinas com volúpia. As gordas avós judias dormiam, os pálidos judeuzinhos dormiam, de boca aberta e respiração ruidosa por causa das adenóides. As mães judias dormiam seu sono leve e intranqüilo. Os pais judeus dormiam; logo acordariam e iriam, bocejando, acender os fogões de lenha, tossindo e lacrimejando quando as achas úmidas começassem a desprender fumaça.” (Moacyr Scliar em “A guerra no Bom Fim”)

Se há um escritor brasileiro que retratou a comunidade judaica no Brasil, ele é o saudoso Moacyr Scliar. Lembramos dele porque hoje, 18 de março, é o Dia Nacional da Imigração Judaica. E para marcar a data, aqui vão outros trechos de escritores judeus que a casa oferece. Além de Woody Allen, Allen Ginsberg e Franz Kafka, ainda há Isaac Singer, Freud e muitos outros.

“E, como se seu Q. I. já não o isolasse bastante, sofria injustiças e perseguições por causa de sua religião, principalmente vindas de seus pais. É verdade que tanto seu pai quanto sua mãe frequentavam a sinagoga, mas não conseguiam admitir a ideia de que o filho fosse judeu. ‘Como foi acontecer isto?’ perguntava seu pai, indignado. Minha cara não mente, pensava Weinstein todo dia ao barbear-se. Tinha sido confundido várias vezes com Robert Redford, mas sempre por um cego. E havia também Feinglass, outro amigo de infância.”

“Por que nego o maná para os outros? / Porque o nego para mim. / Por que me neguei para mim mesmo? / Quem mais me rejeitou? / Agora acredito que você seja adorável, minha alma, alma de Allen, Allen – e você tão amada, tão doce, tão lembrada na sua verdadeira amabilidade, / seu Allen original nu respirando / alguma vez você voltará a negar alguém? / Querido Walter, obrigado pelo seu recado / Proíbo-o de deixar de tocar-me, homem a homem / Autêntico Americano / Bombardeios rasgam o céu (…)

“Tudo isso não era, por certo, um fenômeno isolado, as coisas se passavam de maneira semelhante em grande parte dessa geração de transição judaica, que emigrou do campo para as cidades ainda relativamente religiosa; acontecia espontaneamente, apenas acrescentava à nossa relação, à qual já não faltavam agudezas, mais uma bem dolorosa. Por outro lado também aqui tu deves, do mesmo modo que eu, acreditar em tua ausência de culpa…”

“Howl”, um filme sobre um doce poeta e sua densa poesia

Por Paula Taitelbaum

Já assisti Howl (Uivo) duas vezes. Uma amiga baixou e legendou para mim. Para os que estão chegando agora, explico: Howl é o filme que conta a história do processo vivido pelo poema homônimo (em português, Uivo) de Allen Ginsberg. Eis minhas breves divagações:

Howl é um filme de amor: a paixão do escritor por seus escritos. Howl é um filme de terror: o horror de ver alguém que tenta transformar metáforas em monstros. Howl é um filme que não conta uma história: canta uma poesia. James Franco encarna Allen Ginsberg com maestria em pouco mais de noventa minutos que mesclam tempos e linguagens diferentes. Vemos o poeta beat em preto e branco recitando seu longo, lânguido e denso poema, em 1955, na Six Gallery em São Francisco. Somos levados a uma viagem ácida e atemporal em desenho animado que lembra The Wall, do Pink Floyd. Aterrisamos no tribunal em que, no ano de 1957, Lawrence Ferlinghetti, o editor de Howl, está sendo julgado por obscenidade com base no conteúdo erótico e homossexual do poema. Entramos na casa de Ginsberg, quando o filme recebe um tom de documentário e o poeta vivido por Franco conta a um repórter (ou talvez um biógrafo) passagens de sua vida e o que sente ao escrever, enquanto flashbacks mostram sua relação com Jack Kerouac e Neal Cassady. Não é um filme extraordinário, está longe de ser um filme inovador, tão pouco se revela um filme que concorreria ao Oscar, por exemplo. Mas para quem cria ou ama poesia, o filme emociona, soa como inspiração, faz refletir sobre o ato de escrever. Nos EUA, sua bilheteria não foi nada generosa e provavelmente por isso ele dificilmente entre em circuito comercial no Brasil. Já em Londres, sua estreia está marcada oficialmente para hoje e todos os principais jornais britânico trazem textos e reportagens que falam sobre o assunto. No The Guardian de quarta-feira, por exemplo, é possível ler uma matéria que traz alguns depoimentos de pessoas que conviveram com Ginsberg, entre elas, John Cassady, filho de Neal e Carolyn Cassady. Seu depoimento revela uma das faces mais interessantes desse filme para mim: a oportunidade de conhecer um pouco melhor a doce personalidade de Allen Ginsberg. Veja o que disse John:

“Eu o considero meu segundo pai, mas ele era mais como um tio. Eu me lembro que, em 1964, os Beatles tinham acabado de chegar nos EUA – eu tinha 14 anos e era um grande fã deles. Eu morava com meus pais em uma casa na Califórnia e Jack (Kerouac) e Allen e todo mundo estava sempre por lá. Foi uma infância bem interessante, como você pode imaginar. Eu estava sentado na mesa do café na frente de Allen e ele disse: ‘Johnny! Você quer saber um furo de reportagem? Quer saber de uma sujeira?’ Ele fez um olhar conspiratório e disse: ‘Os Beatles fumam maconha.’ E eu perguntei: ‘O que é maconha?’ E Allen olhou atônito para mim e fez aquela cara do tipo ‘você não é o filho de Neal Cassady, como assim o que é maconha?’. Ele ficou todo excitado para me contar: então ali estavam Allen Ginsberg e Bob Dylan introduzindo os Beatles à maconha num quarto de hotel depois do show de Ed Sulivan. Quantos garotos ouviram uma história como esta?

Uma vez minha mãe fez um festão em 1973, esqueci qual a desculpa. Allen apareceu com um grande curativo na sua perna direita, de muleta. Eu perguntei o que tinha acontecido e ele me deu uma piscada e disse: ‘Perseguindo mulheres’. Bem, ele sabia que eu sabia a verdade e eu dei uma grande gargalhada. Quando a polícia chegou na festa havia carros acima e abaixo da rua por cinco quilômetros. Eles viram Allen e pediram um autógrafo. Os policiais eram seus fãs. Ou seja: é ou não é um grande mundo esse? Allen foi sempre muito gentil e uma alma generosa, nunca foi egoísta. Só muitos anos depois eu descobri que ele era uma espécie de rock star da literatura.”

Clique sobre a imagem e veja vídeo com trechos de "Howl" legendados na L&PM Web TV

O poema Howl (Uivo) é publicado na L&PM em versão convencional e pocket.

O pai da expressão “beat”

Qual a origem do termo “geração beat”? De todas as versões, a considerada definitiva e confirmada é aquela publicada no prefácio de um livro de Allen Ginsberg, The Beat Book: “A expressão ‘beat generation’ surgiu em uma conversa específica entre Jack Kerouac e John Clellon Holmes em 1948. Discutiam a natureza das gerações, lembrando o glamour da lost generation, e Kerouac disse: ‘Ah, isso não passa de uma geração beat’. Mas o que nem todo mundo sabe é que o autor de On the road captou o termo de Herbert Huncke. Kerouac ficou encantado com o modo como Huncke usava sem parar o termo “beat” – que nos circos itinerantes significa “cansado” e “abatido” – e empregou a expressão para batizar toda uma geração (Kerouac também chegou a dizer que o termo derivava de “beatific”).

Herbert Huncke em 1947 na fazenda de William Burroughs

 Mas quem foi Herbert Huncke? Foi um garoto de programa, um ladrãozinho, um viciado. Mas, acima de tudo, uma figura fascinante e carismática. Huncke deu o primeiro pico a William Burroughs, guiou Kerouac e Ginsberg pelo submundo da Times Square nos anos 1940, inspirou personagens de muitos dos livros beats, escreveu os seus próprios sem muito sucesso. Nascido em uma família de classe média, costumava dizer que começou a usar drogas aos doze anos, vender sexo com dezesseis e que roubou tudo o que lhe passou pelas mãos. “Eu sempre segui o caminho mais fácil”, disse em uma entrevista de 1992. “Simplesmente continuei a fazer o que queria. Não pesava nem avaliava as coisas. Comecei desse jeito e de fato nunca mudei.”

Apesar de junkie, Huncke tinha modos finos, era elegante e não mentia jamais. Passou onze anos na prisão e boa parte da vida vivendo no Chelsea Hotel em Manhattan, onde faleceu em 9 de agosto de 1996 aos 81 anos de idade.