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Foi dada a largada para a Bienal de São Paulo

Tássia Kastner*

Para alguns, a divulgação que a Bienal do Livro de São Paulo fez sobre o início do evento pode ter soado confusa. É que, na verdade, são duas datas. Hoje, dia da abertura oficial, ela abre somente para o pessoal do setor. Amanhã, a Bienal começa para o grande público. Mesmo assim, não são poucos os que circulam pelos pavilhões nesta quinta-feira. O que se vê são livreiros, editores, jornalistas, e até ilustradores – só no estande da L&PM, recebemos dois deles, querendo estabelecer um primeiro contato com a editora e trazendo seus trabalhos para apresentar. Mas se hoje o dia é de calmaria, a partir de amanhã, quando todos poderão entrar nos pavilhões do Anhembi, as fotos serão bem diferente. Nelas estarão hordas de crianças sorridentes (e barganhando com os pais, pelo celular, o direito de comprar o título mais legal que tiverem encontrado), leitores ávidos pelas novidades que as editoras prepararam especialmente para o evento, e claro, um público com muita vontade de entrar no mundo mágico dos livros. E ninguém poderá reclamar de falta de opções.
Cliquei aqui, e acesse a programação completa do evento.

* Tássia é assessora de imprensa da L&PM e nos escreve dos pavilhões da Bienal

Obdulio

Eu era menino e peladeiro, e como todos os uruguaios estava grudado no rádio, escutando a final da Copa do Mundo. Quando a voz de Carlos Solé transmitiu a triste notícia do gol brasileiro, minha alma caiu no chão. Recorri então ao mais poderoso de meus amigos. Prometi a Deus uma quantidade de sacrifícios, se Ele aparecesse no Maracanã e virasse o jogo.
Nunca consegui recordar as muitas coisas que prometi, e por isso nunca pude cumpri-las. Além disso, a vitória do Uruguai diante da maior multidão jamais reunida numa partida de futebol tinha sido sem dúvida um milagre, mas o milagre foi acima de tudo obra de um mortal de carne e osso chamado Obdulio Varela. Obdulio tinha esfriado a partida, quando a avalanche nos caía em cima, e depois carregou toda a equipe nos ombros e com pura coragem impeliu-a contra ventos e marés.
No final daquela jornada, os jornalistas acossaram o herói. E ele não bateu no peito proclamando somos os melhores e que não há quem possa com a garra nacional:
– Foi casualidade – murmurou Obdulio, abanando a cabeça. E quando quiseram fotografá-lo, virou de costas.
Passou aquela noite bebendo cerveja, de bar em bar, abraçado aos vencidos, nos balcões do Rio de Janeiro. Os brasileiros choravam. Ninguém o reconheceu. No dia seguinte, fugiu da multidão que o esperava no aeroporto de Montevidéu, onde seu nome brilhava num enorme letreiro luminoso. No meio da euforia, escapuliu disfarçado de Humphrey Bogart, com um chapéu metido até o nariz e um impermeável de gola levantada.
Em recompensa pela façanha, os dirigentes do futebol uruguaio deram a si mesmos medalhas de ouro. Aos jogadores, deram medalhas de prata e algum dinheiro. O prêmio que Obdulio recebeu deu para comprar um Ford modelo 31, que foi roubado naquela mesma semana.

Leia entrevista em que Galeano fala sobre as chances do Uruguai na Copa.

Até o final da Copa, o blog da L&PM publica diariamente um trecho do livro Futebol ao sol e à sombra, de Eduardo Galeano. Leia os anteriores:
Gol de Maradona
O gol
O árbitro
Gol de Nilton Santos
O pecado de perder

O roqueiro Tony Bellotto e o estradeiro Jack Kerouac

O eterno titã Tony Bellotto, roqueiro, escritor e marido de Malu Mader, também é fã dos escritos de Jack Kerouac. Em sua coluna de hoje no blog da Companhia das Letras, fala sobre Satori em Paris e On the road – o manuscrito original, ambos publicados pela L&PM. Em um texto que desliza como um conversível numa highway, Belotto chega ao final falando de seu novo livro, que sairá em outubro pela Companhia: “Conto tudo isso para tentar entender (e explicar) como nasceu meu novo livro, No buraco. A estrada que liga Foz do Iguaçu a Umuarama me fornece algumas pistas não pavimentadas. Eis o que se revelou no meu satori: No buraco, em inglês, é On the hole”. Além dos livros citados, a L&PM publica ainda outras obras de Kerouac, veja aqui.

Diretor de 2012 vai levar às telas teoria de que Shakespeare não teria escrito suas peças

Já não é de hoje que, vez por outra, alguém surge com a teoria (que a maioria considera absurda) de que William Shakespeare não teria escrito suas peças. Tem até quem diga que ele nem existiu. Pois a controversa história será levada às telas por Roland Emmerich, diretor de 2012, Stargate, Godzilla, Independence Day e outros filmes catástrofes. Com esse currículo nas costas, parece um pouco difícil acreditar que Anonymous, nome do filme, faça jus à obra de Shakespeare. Mas provavelmente nem seja esse o objetivo de Emmerich. O roteiro, cercado de suspense, é centrado na ideia de que o verdadeiro autor de Romeu e Julieta, Hamlet, Macbeth, Otelo e todos os clássicos shakespearianos teria sido o 17º Conde de Oxford, Edward de Vere, sucessor da Rainha Elizabeth I. Filmado em Berlim, Anonymus tem estreia prevista para 2011 e traz Vanessa Redgrave como Rainha Elizabeth. Abaixo, uma das fotos já divulgadas.

Roland Emmerich durante gravações de Anonymous / Divulgação

Adeus a Saramago, o único Prêmio Nobel da língua portuguesa

Por Ivan Pinheiro Machado

Aquela quarta-feira de outubro de 1998 parecia uma quarta-feira comum na Feira do Livro de Frankfurt. Os corredores apinhados de editores, agentes e livreiros em geral cumpriam a rotina de vender e comprar livros e direitos de publicação. O segundo andar da ala 5, no enorme espaço destinado às Feiras, era ocupado pelos estandes das editoras espanholas, italianas, gregas, turcas e pelo estande oficial do Brasil que ficava há poucos metros do estande oficial de Portugal. Um espaço bem grande, onde os editores portugueses recebiam seus clientes e amigos.

Estávamos tomando o primeiro café do dia no estande brasileiro, prontos para cumprir uma agenda que inclui uma média de 10 reuniões por dia, de quarta à sábado, quando ouviu-se uma explosão de gritos, risos e assovios vindos do estande ao lado. Parecia gol de Portugal. Os 30 hectares da Feira de Frankfurt, com seus longos corredores acarpetados e suas esteiras rolantes que comunicam os pavilhões, costumam guardar um certo recato silencioso. Negócios de milhões de dólares são sussurrados pelos estandes. Não é comum gritos, assovios, cantorias. Salvo quando um autor é comunicado de que acaba de ganhar o prêmio Nobel.

Enquanto saíamos curiosos de onde estávamos, tivemos tempo de ver um senhor magro e alto ser arrastado em triunfo por uma multidão de conterrâneos emocionados que cantava o hino da Revolução dos Cravos, “Grândola Vila Morena”. José Saramago havia recebido a notícia, coincidentemente no meio dos livros, em território do seu país, na grande feira internacional. A correria foi infernal. Em minutos, centenas de jornalistas, emissoras de TVs, curiosos e seguranças engolfavam o estande português marcado por aquele momento histórico. Todos estavam comovidos, inclusive nós brasileiros e nossa velha língua portuguesa. José Saramago escreveu, entre outros romances, “Evangelho segundo Jesus Cristo”, “A jangada de Pedra”, Ensaio sobre a cegueira”, “Memorial do convento” e o maravilhoso “O ano da morte de Ricardo Reis”.

Hoje pela manhã, enquanto a Sérvia estava prestes a derrotar a Alemanha na segunda rodada da Copa do Mundo, recebi a notícia de que José Saramago morrera na sua cidade de Lazarota, nas Ilhas Canárias, aos 87 anos. É sempre triste receber a notícia da morte de um homem bom. E com José Saramago morreu um símbolo de humanismo, fé na utopia e esperança de um mundo mais justo e igual. Membro do Partido Comunista Português, foi um dos pilares de sustentação intelectual da famosa Revolução de Cravos de 1975, que acabou com a terrível ditadura Salazarista. Aqueles “que são jovens há menos tempo do que nós”, como diz o Anonymus Gourmet, talvez não saibam. Mas não foi pouco acabar com a sanguinária tirania de Salazar, um déspota à altura dos seus piores colegas latinoamericanos da época. E Saramago lutou pelos seus ideais, foi perseguido, preso e, por fim, venceu a ditadura. Morreu fiel a sua utopia, acreditando que era possível haver um mundo melhor do este em que vivemos.

José Saramago recebendo o Prêmio Nobel de Literatura 1998

O futebol é o ópio do povo e o narcotráfico da mídia

Escreveu Nelson Rodrigues que “a mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana”. Mas Nelson não foi o único a reunir, no mesmo campo, a literatura e o futebol. A lista de escritores que usaram a bola, os clubes e os times futebolísticos como tema é bastante extensa. Em Millôr definitivo – a Bíblia do caos, que a L&PM publica em formato especial, o genial Millôr Fernandes transcorre seus pensamentos sobre os mais variados assuntos, entre eles, claro, o futebol. Vamos combinar que, em tempos de Copa do Mundo, essa é uma leitura perfeita.  Basta ver algumas das frases que estão no livro para concordar com isso:

“O futebol é o ópio do povo e o narcotráfico da mídia”

“E no oitavo dia Deus fez o Milagre Brasileiro: um país todo de jogadores e técnicos de futebol.”

“Há muito tempo me desinteressei pelo futebol. Foi quando comecei a ver aqueles latagões, ganhando fortunas e tratados como odaliscas, não conseguirem dar um passe certo no meio do campo – sem qualquer pressão do adversário. Como artista plástico, tratado daquele jeito, eu morreria de vergonha se não pintasse uma capela Sistina por semana.”

“Futebol, o pio do povo!”

“A vida é igualzinha ao futebol. Mas o campo não é demarcado, vale impedimento, a canelada marca ponto a favor, a bola é quadrada, o gol não tem rede e o Supremo Juiz é um ladrão que expulsa do jogo quem bem entende, sem qualquer explicação.”

Charge de Millôr Fernandes

Uma Polaroid famosa na parede de casa

Que tal ter uma foto de Truman Capote em casa? Ou então um autorretrato de Andy Warhol no álbum de família? E já pensou se não for uma simples cópia fotográfica, mas uma Polaroid única e exclusiva? Não será o máximo?

Pois agora é a sua chance. Para saldar suas dívidas, a Polaroid teve que colocar suas relíquias na roda: foi ordenado o leilão dos seus mais famosos instantâneos. O evento – porque será um evento – está marcado para segunda e terça da próxima semana.

De passagem marcada para Nova York? Com alguns US$ 30 mil sobrando? Então não perca essa. Nós aqui da L&PM adoraríamos adquirir algumas dessas preciosidades, mas esse é um luxo que não poderemos nos dar no momento (se formos para a Big Apple, quem vai atualizar o blog?). Abaixo, algumas das imagens que, breve, alguém terá em casa. Quem sabe não será você?

As influências para os pequenos

Sexo e drogas não são preocupações da Turma do Charlie Brown. Mas não é que alguém colocou o Linus citando Hunter Thompson?

Em uma tradução livre “Eu não recomendo sexo, drogas e loucura para todo mundo, mas sempre funcionou para mim”.

Via Trabalho Sujo.

Chester Himes, a alma genial do Harlem

Por Ivan Pinheiro Machado

Chester Himes era negro e marginal. Não por acaso ficou conhecido como um dos grandes escritores do gênero “noir”. Esta palavra remete ao “sombrio” e foi cunhada na França para batizar romances policiais, digamos assim, mais literários. São histórias protagonizadas por personagens ambíguos, em tramas banais, contracenando num mundo hipócrita e duro, habitado por perdedores, delinquentes, aproveitadores, escroques de todos os tipos e dois ou três sujeitos que valem a pena. A esse gênero, que reúne personagens antológicos como os detetives Philipe Marlowe, de Raymond Chandler, Sam Spade, de Dashiell Hammet, e Lew Archer, de Ross Macdonald, Chester Himes agregou sua dupla Jones Coveiro e Ed Caixão, detetives da delegacia mais animada do Harlem dos velhos tempos. Só que Coveiro e Caixão são negros, numa época em que ser negro não era exatamente como é nos tempos de Barack Obama.

O Harlem era um gueto maldito na ponta norte de Manhatan, controlado por traficantes, cafetões, jogadores e seres afins. Decididamente não era um lugar para amadores. Chester Himes soube como niguém captar o clima, a atmosfera complexa e perigosa do Harlem. A sensualidade do blues é combinada com o ceticismo desolado de Jones Coveiro e Ed Caixão, submetidos a realidade precária e violenta de um lugar abandonado pela América branca e protestante. Considerado um dos grandes escritores americanos do século passado, Himes enfrentou em seus livros a realidade racista dos anos 50, o dilema vivido pelos detetives num lugar onde só “negro podia prender negro”. Seus livros são documentos pungentes onde ele desnuda sem perdão esse lado sombrio da América pós-guerra.

Muito antes de se tornar um famoso romancista, Himes foi um criminoso. Em novembro de 1928, roubou um Cadillac, dinheiro e algumas joias de um casal de idosos em Ohio. Preso aos 19 anos, teve de cumprir pena por roubo a mão armada por sete anos e meio. Foi durante esse período que começou a escrever. Suas histórias foram publicadas em diversos periódicos norte-americanos, como Atlanta Daily World e Esquire. Seu primeiro romance publicado, If He Hollers, Let Him Go (1945), já tem o racismo como tema central. Foi ignorado no seu país e celebrado no exterior, sobretudo na França. Em meados da década de 1950, exilou-se em Paris, onde conviveu com os também escritores negros, norte-americanos e expatriados James Baldwin, Ralph Ellison e Richard Wright. Foi de lá que escreveu e publicou, em 1957, For Love of Imabelle (posteriormente rebatizado de A Rage in Harlem e publicado pela L&PM Editores como A maldição do dinheiro), o primeiro de nove thrillers passados no Harlem com Coveiro e Caixão como protagonistas. A série teve enorme sucesso. Entre seus títulos mais conhecidos estão O Harlem é escuro (Blind Man with a Pistol), A louca matança (The Crazy Kill), Um jeito tranquilo de matar (The Real Cool Killers), todos publicados na Coleção L&PM Pocket, além de Cotton comes to Harlem The Heat’s On. Dois de seus livros foram adaptados para o cinema: Cotton Comes to Harlem, dirigido por Ossie Davis em 1970 (trailer abaixo), e A maldição do dinheiro, estrelado por Gregory Hines e Danny Glover em 1991.