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Os cartazes de “O vermelho e o negro”

quarta-feira, 4 setembro 2013

Entre todos os romances produzidos na história da literatura mundial, há quem defenda que O vermelho e o negro, de Stendhal, é o mais clássico, vasto, célebre, radical e brilhante. A saga romântica de Julien Sorel, o filho detestado de uma família de camponeses, e suas “eternas e definitivas” amadas sra. De Rênal e Mathilde de La Mole foi inspirado em fatos reais (um escândalo entre famílias de destaque da burguesia francesa).

O vermelho e o negro rompeu com a tradição do romantismo e introduziu o realismo no romance francês.

Em 1954, o livro de Stendhal foi adaptado para os cinemas pelo diretor Claude Autant-Lara. Encontramos muitas versões de posters para essa que é a única superprodução com a saga de Julien Sorel feita nesses 60 anos. Dê uma olhada:

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O vermelho e o negro, com tradução de Paulo Neves, acaba de sair em formato convencional pela L&PM Editores.

O prazer de traduzir Maigret

segunda-feira, 27 agosto 2012

Desde 1986, Paulo Neves dedica-se à tradução. Para a L&PM, já traduziu, entre outros, Sartre, Balzac, Stendhal, Rousseau e muitas histórias de Simenon vividas pelo famoso comissário Jules Maigret. No momento que acaba de entregar mais um Simenon inédito no Brasil, Uma confidência de Maigret (que ele considera um dos melhores que já traduziu), Paulo nos falou sobre Maigret, processo de tradução e sua carreira como escritor e poeta. Vale a pena ler essa entrevista e descobrir o que pensa e sente o responsável por fazer com que os livros de Simenon – e de tantos outros autores – sejam lidos em português. Aliás, em bom português.

L&PM: Você acaba de traduzir o seu 16º Maigret. Qual é a sua relação com as histórias do famoso comissário criado por Georges Simenon?

Paulo Neves: Desde que traduzi o primeiro em 2006, curiosamente Memórias de Maigret, passei a ter uma relação muito íntima com esse personagem. Não só porque gosto do gênero policial, das investigações de um Dupin, de um Sherlock Holmes, de um Hercule Poirot. O caso de Maigret é diferente: para ele importa menos decifrar do que compreender o crime, com todas as suas implicações sociais e psicológicas. Sua maneira de investigar, ao mesmo tempo metódica e compassiva, suas dúvidas, a consciência de suas limitações e a honestidade consigo mesmo, contêm algo de uma ética estoica. Simenon não muda muito o quadro de suas histórias: os lugares e os crimes se repetem, ele insiste nos hábitos, nos cachimbos de Maigret, mas isso de modo algum cansa o leitor, que aos poucos vai se impregnando do sentido mais profundo dessa rotina. Foi o que descobri também como tradutor, confrontado à linguagem despojada e aos diálogos curtos que Simenon utiliza para que as coisas fiquem, mais do que entendidas, subentendidas. Isso requer muita precisão narrativa.

Há outro aspecto que me atrai particularmente nas histórias de Maigret. São as paisagens apenas entrevistas de Paris, por ligeiras pinceladas impressionistas que mostram as ruas, as árvores, o céu, as mudanças de estação do ano, a vida miúda da cidade. Estive lá uma única vez, exatamente há quarenta anos, muito antes de sonhar que seria tradutor e que passaria a habitá-la em imaginação através de vários autores franceses traduzidos, como Balzac, por exemplo. Mas Simenon tem sido meu guia favorito, talvez porque reencontro, nas suas descrições breves, aquela impressão vaga da minha memória distante, como o vestígio de um sonho. Para quem lê ou para quem traduz, a imaginação é mais importante do que a presença real. Pode ser que algum dia eu retorne a Paris, mas nunca deixei de vê-la através dos olhos de Maigret.

L&PM: Na sua opinião, quais são os melhores Maigret de Simenon?

PN: Difícil responder, porque não lembro detalhes de todos que traduzi. Citei antes Memórias de Maigret, que é interessante pela reconstituição dos começos de sua carreira. Outros, como A louca de Maigret, Maigret e o ministro, Maigret em Vichy, me agradaram pela trama ou pelos personagens que contracenam. Mas vou destacar o último que traduzi, Uma confidência de Maigret, porque condensa o drama desse personagem que, encarregado de investigar, gostaria às vezes de suspender o julgamento (ou, como ele diz, de ter escolhido outra profissão). Um crime é cometido e a imprensa, o público, os juízes não têm dúvidas sobre o culpado que, no entanto, se declara inocente. Maigret não tem provas suficientes para incriminá-lo e tenta em vão aprofundar uma investigação. O que ele relata é sua impotência diante da pressa com que a sociedade busca encontrar culpados ou explicações para tudo o que acontece, quando às vezes é preciso esperar longamente. É uma história quase filosófica pela amplitude de suas reflexões. Mas esse é um ponto de vista pessoal, da minha predileção.  O leitor encontrará aspectos da mesma filosofia do cotidiano em todas as histórias de Maigret.

L&PM: Além de Simenon, você já traduziu, para a L&PM, clássicos da literatura e títulos das coleções Biografias e Encyclopaedia. Existe alguma preferência, na tradução, por determinado gênero literário?

PN: Já traduzi para a L&PM clássicos da literatura como O vermelho e o negro de Stendhal, clássicos da filosofia como Discurso do método de Descartes, biografias de artistas como Van Gogh ou estudos sobre o economista Keynes, por exemplo, para a Coleção Encyclopaedia, e quase sempre foi com gosto que traduzi. Posso dizer que não tenho uma preferência por gênero literário, contanto que o livro seja bem escrito e que o assunto me interesse. Claro que existem diferenças ao traduzir: um livro de ficção ou mesmo de filosofia dão muito mais trabalho e requerem uma atenção redobrada na escrita. Mas sempre tive um interesse amplo e diversificado em minhas leituras. Gosto de quase tudo e gosto principalmente de variar minhas traduções. Com exceção talvez do Maigret, que se tornou ao mesmo tempo um prazer e uma fatalidade, pois nele reconheço, de certo modo, uma imagem transposta da minha condição de tradutor.

L&PM: Qual é a sua trajetória profissional? Quando começou a traduzir? E quais seriam, a seu ver, as características necessárias a um bom tradutor?

PN: Comecei a trabalhar como jornalista em São Paulo, onde morei de 1967 a 1981. Foram diversas experiências em agência de notícias, rádio, jornal, TV, até mesmo no setor de jornalismo empresarial. Mas eu não tinha diploma, que naquela época não era exigido, e, quando voltei a viver em Porto Alegre, tive dificuldade de arranjar emprego. Foi essa circunstância que me levou a procurar traduções, já que eu tinha um conhecimento razoável do francês e do inglês. E foi justamente a L&PM que me ofereceu o primeiro trabalho, Pés nus sobre a terra sagrada, um belo livro de um antropólogo que recolhe a palavra dos índios norte-americanos.  Daí por diante as encomendas foram se sucedendo e me tornei um tradutor de tempo integral, me especializando cada vez mais no francês. Isso modificou meu modo de vida, porque o tradutor, como todos sabem, é um trabalhador solitário, hoje terceirizado. Por outro lado, fui compelido a acompanhar o processo de mudança dos instrumentos de escrita, da máquina de escrever dos anos 1980 até chegar na Internet, quando o que mais aprecio ainda é escrever com papel e lápis. Muitas vezes me perguntei como pude resistir tanto tempo nessa condição de enclausuramento forçado diante da tela. A única explicação que encontro é que eu possuía, sem saber, certas características psicológicas indispensáveis para esse tipo de trabalho, como ser paciente, metódico e inventivo quando necessário. Características que talvez se possa generalizar a todo bom tradutor e que reconheço, mais uma vez, em Maigret.

L&PM: Além de tradutor, você também é poeta. Continua escrevendo?

PN: Sempre gostei de escrever, mas nunca tive um projeto de ser escritor. Cheguei a redigir um texto, a partir de uma pesquisa da Funarte sobre “Arte e técnica”, que acabou sendo publicado por uma pequena editora de São Paulo em 1985, intitulado Mixagem, o ouvido musical do Brasil. Mas foi só depois que comecei a traduzir que a escrita pessoal se tornou de fato, talvez por necessidade de um contrapeso interno, um exercício diário e sistemático, nas horas que me restavam à noite após o trabalho diurno. Em 2006 saiu pela Companhia das Letras um livro, Viagem, espera, no qual reúno poemas e textos em prosa escritos ao longo de vários anos. Posteriormente, mantive durante um ano e meio um blog (www.nolimiar.wordpress.com) que também resultou num livro, No limiar, ainda virtual, não publicado em papel. Acho que a escrita independe do seu meio de difusão, embora o livro seja o modo melhor de guardá-la. Mas para mim ela é antes, ou passou a ser, uma necessidade vital, um exercício sem finalidade como a poesia. Continuo escrevendo, portanto, mas em trânsito, intransitivamente.

Clique aqui e conheça mais títulos traduzidos por Paulo Neves na L&PM Editores.

Autor de hoje: Stendhal

domingo, 2 outubro 2011

Grenoble, França 1783 – † Paris, França, 1842

Pseudônimo de Marie-Henri Beyle, desde cedo manifestou tendências republicanas e anticlericais, em dissonância com o meio em que vivia. Devido a essas tendências, participou da campanha de Napoleão, na Itália, como integrante do Regimento de Dragões. Depois disso, abandonou o exército para dedicar-se à literatura, mas a ele retornou por necessidades financeiras. Com a queda do Império Napoleônico, mudou-se para Milão, vindo a exercer outras funções e cargos públicos na Itália e na França. Autor de um estilo sóbrio, criou personagens de grande complexidade psicológica, que se debatiam entre a conduta racional e o comportamento sensual. Embora tenha escrito seus romances em pleno Romantismo, a isenção de sentimentalismo e as profundas análises de personagens caracterizam sua obra como representativa do Realismo francês.

OBRAS PRINCIPAIS: O vermelho e o negro, 1830; A cartuxa de Parma, 1839

STENDHAL por Carlos Jorge Appel

Celebrizado sob o pseudônimo de Stendhal, Henri Beyle viria universalizar o conceito de beylismo, que postula a valorização da felicidade como fator vital para a consecução da plenitude humana. Em Racine e Shakespeare (1823), um dos mais vigorosos manifestos românticos, incompreendido até mesmo por Victor Hugo, Stendhal revela uma lucidez anti-sentimental que rompe com os postulados românticos vigentes até então na Europa. Balzac o saúda como um gênio, em 1840, e diz que ele escrevia “para seus contemporâneos de inteligência já realista”. Convém lembrar que sua infância e adolescência transcorreram em meio às profundas transformações históricas da Revolução Francesa e ao advento da Era Napoleônica. Em dissonância com o meio em que vivia, com sérios problemas de relacionamento familiar, cedo manifestou tendências anticlericais e republicanas, visíveis em suas crônicas, ensaios e romances. Participou da campanha de Napoleão na Itália como ajudante-de-campo do general Michaud, viajou e conheceu de perto a cultura italiana, seus pintores, escultores, músicos e escritores e elegeu Milão como sua cidade preferida. Essa vivência foi fundamental para seus ensaios A vida de Napoleão, Do amor, A batalha de Waterloo e o romance A cartuxa de Parma.

Forjou a palavra “egotismo” para designar a psicose romântica de palavroso subjetivismo sentimental e contrapôs-lhe uma arte de ser individualmente feliz, sem ilusões, à base do conhecimento possível dos homens, das circunstâncias que os modelam e do progresso social inevitável. Contrapôs a objetividade da tradição iluminista à histeria sentimentalista, ao sonho medievalista ou fantasmagórico. Graças ao seu domínio intelectual, Stendhal se tornaria o mestre do melhor realismo já encartado na segunda metade do século XIX. Seu estilo é a consumação perfeita de um pensamento e de uma funda experiência que se exprimem, sobretudo, em seus romances O vermelho e o negro, A cartuxa de Parma e Lucien Leuwen, romance incompleto e editado em 1901, que Otto Maria Carpeaux considera o melhor de sua obra. Dele diria Nietzsche: “Stendhal, esse notável precursor que, qual Napoleão, percorreu a sua Europa, os vários séculos de alma européia, iluminando-a e descobrindo-a; foram necessárias duas gerações para com preendê-lo, para adivinhar alguns dos enigmas que o exaltavam, a ele, epicurista admirável e curioso indagador, que foi o último grande psicólogo da França”.

* Guia de Leitura – 100 autores que você precisa ler é um livro organizado por Léa Masina que faz parte da Coleção L&PM POCKET. Todo domingo,você conhecerá um desses 100 autores. Pra melhor configurar a proposta de apresentar uma leitura nova de textos clássicos, Léa convidou intelectuais para escreverem uma lauda sobre cada um dos autores. Veja os outros autores já publicados neste blog.

Autor de hoje: Júlio Verne

domingo, 25 setembro 2011

 

Nantes, França, 1828 – † Amiens, França, 1905

Considerado o pai da moderna ficção científica, desde cedo demonstrou interesse pela literatura. Estudou Direito, mas não chegou a exercer a profissão. Trabalhou como secretário do Teatro Lírico entre 1852 e 1854 e, depois, tornou-se corretor de bens públicos, atividades que exerceu paralelamente à de escritor. Suas obras mais conhecidas são Viagem ao centro da Terra, Viagem ao redor da Lua, Vinte mil léguas submarinas e A volta ao mundo em 80 dias. Nelas, o autor prevê um grande número de descobertas científicas, incluindo o submarino, o aqualung, a televisão e as viagens espaciais. Tendo desfrutado em vida de enorme popularidade, Júlio Verne é considerado um dos maiores escritores franceses e um dos mais influentes da literatura universal. Em 1892, foi condecorado com a Legião de Honra.

OBRAS PRINCIPAIS: Viagem ao centro da Terra, 1864; Viagem ao redor da Lua, 1865; Vinte mil léguas submarinas, 1870; Volta ao mundo em 80 dias, 1873; A ilha misteriosa, 1874

JÚLIO VERNE por Luiz Paulo Faccioli

A França entrou no século XIX ainda sob o impacto da Revolução e guiada pela mão megalômana de Napoleão Bonaparte. Com a queda do imperador, sobreveio uma longa fase de turbulência política: ora restaurava-se a república, ora ressurgia a monarquia, ora voltava o império. Para as artes, contudo, foi um século fulgurante. E, especialmente para a literatura, basta dizer que nele encontramos Flaubert, Stendhal, Dumas – pai e filho –, Victor Hugo, Balzac, Maupassant, Rimbaud, Baudelaire, Verlaine. O romantismo que dominava no início cedeu lugar à estética do realismo e do naturalismo que sobreviveu ao nascer do século XX. Cinqüenta anos antes, o público começara a cansar daquela concepção romântica que punha o indivíduo no centro do mundo e se dedicava a extrair dele suas confidências e aflições. O progresso da ciência estimulava o homem a olhar para fora de si, e a arte não poderia deixar de absorver e retratar essa nova realidade. É nesse cenário que Júlio Verne aparece com seus relatos de viagens fantásticas, antecipando na ficção um futuro que viria a se confirmar nos detalhes de suas projeções tecnológicas, e logo se torna um dos mais populares escritores franceses de todos os tempos.

A narrativa de aventura não era nova e já havia produzido bons frutos pelas mãos de Jonathan Swift, em As viagens de Gulliver, e de Daniel Defoe, em Robinson Crusoé. Verne agregou a ela o conceito de verossimilhança científica inaugurado por Edgar Allan Poe e produziu uma obra original que ainda instiga e muito ainda irá instigar. Dono de um estilo fácil e envolvente, sem prescindir da elegância característica da escrita de sua época, foi um autor inventivo e meticuloso. Autodidata, passou a vida mergulhado em leituras, viajando pela Terra, por dentro dela e pelo espaço sem ter saído muitas vezes de casa. As inovações tecnológicas imaginadas por ele, mas que o mundo só viria a conhecer no século XX, formam uma lista longa que inclui o fax, a televisão, o helicóptero, os mísseis teleguiados, os arranha-céus, o cinema falado, o gravador e tantas outras.

Pai da moderna ficção científica, Júlio Verne ganhou a merecida fama de ter sido um visionário, mas não há nada de místico ou sobrenatural nesse atributo. Ele foi um intelectual profundamente identificado com o seu tempo, atento às mudanças que a evolução das ciências impuseram à humanidade e dedicado a exercitar o raciocínio lógico e científico. Não houve mágica, e sim sede de conhecimento e leitura, muita leitura.

* Guia de Leitura – 100 autores que você precisa ler é um livro organizado por Léa Masina que faz parte da Coleção L&PM POCKET. Todo domingo,você conhecerá um desses 100 autores. Pra melhor configurar a proposta de apresentar uma leitura nova de textos clássicos, Léa convidou intelectuais para escreverem uma lauda sobre cada um dos autores. Veja os outros autores já publicados neste blog.