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Akropolis: uma experiência que você não pode deixar de ter

quinta-feira, 11 agosto 2011

Por David Coimbra*

Há um levantamento que aponta a existência de 37 mil cidades em todo o planeta. Destas, só duas, não mais do que duas, podem ser consideradas protagonistas de transformações na História Humana.
Roma e Atenas.
As demais podem ser capitais do mundo, como Paris, Londres, Berlim, Nova York, Tóquio e Pequim. Podem ser pólos continentais, como Rio, São Paulo, Buenos Aires, Moscou e Nova Délhi. Podem ser cidades históricas, como Bagdá e Jerusalém. Mas só essas duas, Roma e Atenas, foram personagens da História.
Roma e Atenas não sediaram grandes acontecimentos. Não. Foi mais do que isso: elas atuaram como se fossem indivíduos, como se tivessem personalidade própria.
E, na verdade, elas têm.

É essa personalidade ateniense que goteja de cada linha de “Akropolis – A grande epopeia de Atenas”, precioso livro de autoria do italiano Valério Massimo Manfredi lançado pela L&PM.
Manfredi conta, sobretudo, a história e as histórias do período em que Atenas foi o centro da Humanidade, os séculos V e IV antes de Cristo. Por pouco mais de 200 páginas passeiam com naturalidade figuras da estatura de um Sócrates, de um Péricles, de um Alcibíades. Das guerras gloriosas contra o império persa até a capitulação final para o nêmesis de Atenas, a dura Esparta, toda essa grandiosa aventura é narrada como se Manfredi estivesse lá, como se ele tivesse visto o que aconteceu, conversado com os personagens, convivido com eles. E então é como se você também vivesse em Atenas, como se testemunhasse com seus olhos a fundação da filosofia e da democracia, como se presenciasse o mundo em transformação. Por isso, aí está uma experiência que você não pode deixar de ter.

* David Coimbra é escritor, jornalista e editor de esportes do Jornal Zero Hora.

19. O perigoso ofício de editor

terça-feira, 15 março 2011

Por Ivan Pinheiro Machado*

Todo editor com alguma presença no mercado sofre um assédio diário por parte de escritores novos ou nem tanto. É um lado estranho da profissão, pois temos que administrar a absoluta impossibilidade de publicar 99,9% do que nos é oferecido, tendo o cuidado de não fulminar sonhos, ilusões e, por que não, vocações. As editoras mais atuantes do mercado, sem exceção, têm o seu projeto editorial. Em cada uma delas, há um grupo de profissionais que faz a prospecção de novos títulos. Sempre dentro de uma ideia de conjunto de lançamentos e respeitando as séries, as grandes coleções e finalmente aquilo que chamamos a “cara” da editora ou, falando sério, a filosofia da editora. Ou seja, não se faz uma projeto de programação anual esperando que chegue algum original genial pelo correio ou, modernamente, num PDF via e-mail. Não. O projeto editorial de uma editora de respeito é sempre previamente traçado e a busca de títulos obedece a critérios rigorosos, tanto comerciais, como culturais. E isto, obviamente, não impede que sejam descobertos autores inéditos.

Mas há, de parte de muita gente, a ideia de que o editor TEM que ler o seu livro, TEM que publicar seus primeiros poemas. Alguns autores não admitem a recusa. Acham que uma editora comercial é uma fundação sem fins lucrativos. Enquanto que, na verdade, uma editora é um negócio como outro qualquer; tem dezenas, às vezes centenas, de funcionários, investe em matéria-prima, equipamento, tecnologia, marketing dos autores, prestadores de serviço, etc, etc. Ou seja, uma editora tem que ter resultado comercial para poder pagar seus escritores, fornecedores e sobreviver como negócio. Dito isto, vou contar uma pequena fábula sobre o perigosíssimo ofício de editor:

Um punhal surge do escuro

Foi lá pelo começo dos anos 1990. Um jovem poeta, conhecido meu e filho de uma pessoa de muito prestígio na cidade, ligava insistentemente pedindo para falar comigo. Eu, sabendo o motivo do telefonema, instruía minha secretária a dizer que não estava para ver se o cara percebia que eu não queria falar. Mas ele insistiu, insistiu tanto, que eu acabei atendendo. Ele queria publicar os seus poemas para a Feira do Livro de Porto Alegre daquele ano. Eu expliquei que não estávamos fazendo livros de poesia, que a Feira do Livro estava muito em cima da hora (dois meses) e que – ele me perdoasse – mas era comercialmente muito complicado publicar poetas estreantes, etc. etc. Então ele pediu que, pelo menos, eu lesse os poemas dele. E se despediu bastante aborrecido. Prometi que leria seu precioso livro. E cumpri. Li os primeiros três poemas. Eram tão primários, infantis (o cara tinha uns 35 anos) que parei de ler e esqueci do assunto. Nossa sede era um sobrado na aprazível rua Nova York no bairro Higienópolis em Porto Alegre. Um dia de inverno, fiquei trabalhando até mais tarde e fui o último a sair, já noite fechada. Meu carro estava estacionado em frente à editora. Distraído, eu fechava o portão, quando uma sombra saltou de trás de uma árvore. Meu coração disparou, pois imaginei um assalto. O vulto aproximou-se e a luz do poste de iluminação da rua fez com que rebrilhasse uma faca com uma lâmina de mais ou menos um palmo de comprimento. Parei aterrorizado. Quando consegui tirar os olhos da faca e olhar na cara do sujeito vi que era ninguém menos do que… o poeta. Seus olhos faiscavam. “Agora terás que me dizer por que não vais publicar meus poemas!!!”

Dei dois passos para trás. Fiquei com vontade de correr, afinal, como dizia o personagem de Albert Finney em “À sombra do vulcão”(de John Huston), aquela seria “uma forma estúpida de morrer”. Mas correr seria uma imensa humilhação. Aos poucos, retomei a coragem e falei mansamente, sempre cuidando aquela lâmina ameaçadora. “Calma fulano (perdoem, mas não posso dizer o nome do cara), quem é que disse que eu não vou publicar o teu livro?”. Ele parou, fez um ar de espanto e deixou cair os braços. Ficou olhando aparvalhado para a faca e dizia baixinho: “o que que eu estou fazendo”. Enquanto ele fazia esta reflexão, eu saltei prá dentro do meu carro e saí cantando pneu. O coração batia na boca. Nunca mais vi o poeta. Pra dizer a verdade, nunca mais ouvi falar do poeta. Mas, para todos os efeitos, sempre que saio da editora mais tarde, anoitecendo – até hoje – sempre olho para os lados. Pode aparecer um assaltante, é verdade, mas aprendi a tomar cuidado, sobretudo, com os poetas incompreendidos.

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1. O começo: da cozinha para o porão

terça-feira, 9 novembro 2010

Por Ivan Pinheiro Machado*

Uma editora publica histórias – e vive muitas delas. Principalmente quando tem mais de três décadas como nós. Quantas e quantas histórias para contar… O pessoal que “é jovem a menos tempo do que nós”, aqui mesmo na L&PM, sempre quer saber curiosidades, “causos” passados, fatos hilários, outros nem tanto. Enfim, há uma vontade natural de conhecer mais desta convivência entre editores e autores. E também de descobrir um pouco sobre como uma editora atravessou dezenas de crises econômicas, quatro moedas diferentes e uma ditadura brutal. Eu vou tentar, semanalmente, no espaço deste blog, resgatar um pouco desta história.

Foi assim:

Fundamos a editora em agosto de 1974 e a primeira sede foi na cozinha do escritório de advocacia do meu pai, o Dr. Antonio Pinheiro Machado Netto. Ah! Ía me esquecendo de esclarecer; pra quem não sabe, L&PM quer dizer Lima e Pinheiro Machado. Escolhemos este nome por acaso, quase como uma brincadeira, porque nunca imaginávamos chegar onde chegamos… Mas eu falava na primeira sede da L&PM. Mandamos acarpetar a cozinha do escritório de advocacia do “velho” Pinheiro que era num imponente sobrado na Avenida Venâncio Aires em Porto Alegre. Ficamos lá quase um ano, até que faltou espaço. Fomos então para o porão do escritório do pai do Lima, o Mario de Almeida Lima, mais conhecido como “velho” Lima, combativo jornalista, diretor da sucursal de O Estado de S. Paulo em Porto Alegre e dono de uma das principais livrarias de Porto Alegre, a Livraria Lima. Assim, os nosso pais, ambos já falecidos e de saudosa memória, contribuíram decisivamente, aos nos albergar gratuitamente, para o começo desta aventura. Só fomos pagar o primeiro aluguel em 1976. Já tínhamos 25 anos de idade e quase três como editores. Nosso livro de estreia havia sido a coletânea de tiras de quadrinhos do Rango, personagem de Edgar Vasques de grande sucesso na época e que acabou sendo o livro o mais vendido da Feira do Livro de Porto Alegre em 1974. Havíamos publicado ainda a “Antologia Brasileira de Humor” em dois volumes, o livro “Oposição” de Paulo Brossard, “Só dói quando eu respiro” de Caulos –  o primeiro livro brasileiro inteiramente de cartuns sobre ecologia –e estávamos em vias de publicar Millôr Fernandes e Josué Guimarães. Voltando ao começo do começo, vivíamos uma truculenta ditadura que perseguia os intelectuais, artistas e todos aqueles que criticavam o governo. Havia uma severa censura à imprensa e todos os editores independentes eram sistematicamente vigiados e perseguidos. Logo, logo teríamos nosso encontro com esta sombria realidade. Nosso “batismo de fogo” ocorreu exatamente no primeiro livro. A Polícia Federal nos convocou para “prestar esclarecimentos” sobre o conteúdo do livro “Rango 1”. Foi uma tarde inesquecível, pelo desprezo com que o gorila que examinava o livro do Vasques me tratava e o medo que eu sentia lá naquele lugar sinistro de onde alguns conhecidos nossos jamais saíram.  Eles achavam o “Rango” de “subversivo” porque tinha como tema a miséria brasileira.

Para falar bem a verdade, não era a melhor época para fazer uma editora. No auge da ditadura, o livro não tinha nenhum prestígio. Era o tipo do negócio que, como diria o Paulo Francis, “não fazia bem à saúde”. Foi naquele tempo que eu encontrei o grande antropólogo, romancista, ensaísta e educador Darcy Ribeiro, de quem publicamos um belo livro,“Ensaios Insólitos”. Num dado momento da conversa, ele me perguntou “Vocês não tinham um negócio melhor pra fazer?”. Eu não lembro da minha resposta, mas recordo muito bem quando ele falou que o mundo se movia baseado na “inciência (sic) da juventude”. Ou seja, sem sombra de dúvida, era uma maluquice fazer uma editora em plena ditadura.

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