2. O Rango marrom: vanguarda por acaso

Por Ivan Pinheiro Machado*

Convidado por um velho amigo, o professor Wladimir Ungaretti, fui à Faculdade de Comunicação da UFRGS para falar sobre livros & editoras a uma platéia de estudantes do primeiro e segundo ano. Foi muito legal. Eu falava para meninos e meninas de, no máximo, 19 anos, muito interessados nas histórias sobre a ditadura, sobre cultura brasileira, etc. Quando eu falo sobre os tempos da repressão para os jovens, eu me cuido. Lembro do meu pai falando pra mim e pro meu irmão sobre o Estado Novo, sobre o Getúlio. Para nós, aquilo (que havia ocorrido meia dúzia de anos antes de nascermos) parecia que tinha acontecido há milhares de anos, no período paleolítico. Já para meu pai parecia que tinha acontecido ontem, pois ele havia vivido aquilo tudo. Portanto, eu tive o cuidado de falar brevemente sobre os “anos de chumbo” para um plateia até, aparentemente, bem interessada. Foi quando uma estudante fez uma pergunta surpreendente, desviando (sabiamente) o assunto da política: “Nota-se o caráter inovador da L&PM desde o primeiro lançamento” disse ela. “Pois ao contrário de todos os livros do mercado, o Rango 1, primeiro livro da editora, foi impresso em tinta marrom. Fale sobre isso”. Aí eu entendi como se criam muitas lendas que circulam  no nosso imaginário. Se a história real não fosse tão engraçada, eu até manteria esta versão vanguardista… Iniciei minha resposta pedindo desculpas, pois iria desapontá-la. E contei a verdade: quando fizemos a L&PM e, consequentemente o Rango 1, tínhamos muitas ideias e nenhum centavo. Nenhum centavo mes-mo!

Este livro de estreia foi impresso em agosto de 1974, numa pequena gráfica que pertencia ao Alfredo Oliveira, amigo nosso, popularmente conhecido em Porto Alegre como “Carioca”. E, naturalmente, de graça. O Carioca exigiu apenas que pagássemos o papel, o que esperávamos fazer com os lucros do Rango. Combinamos que a impressão se daria fora de expediente, num sábado à tarde. Ele escalou dois funcionários e lá fomos para a gráfica com os fotolitos embaixo do braço. Chegamos lá às duas da tarde e estava tudo preparado. Quando entramos no galpão, o impressor nos disse: “Só tem um probleminha, o “seu” Carioca pediu pra não usar a tinta preta, pois ele só tem duas latas e vai precisar na segunda-feira cedo”. Ficamos nos olhando. Aí o rapaz falou: “o ‘seu’ Carioca sugeriu que se misture os restos de tinta pra ver no que dá”. Havia umas 10 latas que ainda tinham um pouco de tinta. Tudo misturado, daria o suficiente para imprimir os 5 mil exemplares de 80 páginas do Rango. Pegamos uma lata grande e colocamos todos os restos lá dentro. Amarelo, vermelho, azul, um pouquinho de preto que tinha numa lata velha e misturamos bem. O resultado foi… marrom. E assim foi impresso. A famosa teoria circunstancial da história, de que fala Millôr Fernandes. O difícil foi conseguir esta cor quando fizemos a segunda edição depois que o Rango foi o mais vendido na Feira do Livro de Porto Alegre em Outubro de 1974. Não preciso dizer que a rapaziada morreu de rir.

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