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Autor de hoje: Leon Nikoláievitch Tolstói

domingo, 28 agosto 2011

Iásnaia Poliana, Rússia, 1828 – † Astápovo, Rússia, 1910

Filho de latifundiários da alta aristocracia russa, Tolstoi estudou Direito e Línguas Orientais na Universidade de Kazan. Mais tarde, entrou para o exército e tomou parte na Guerra da Crimeia. Sua obra literária inclui livros de memórias e romances. A experiência nas guerras resultou-lhe no conhecimento das aldeias cossacas, das expedições contra as tribos montanhesas e dos costumes do interior da Rússia. Após a guerra, viajou à Suíça, à França e à Alemanha e, ao retornar, fundou uma escola-modelo para camponeses. Considerado um dos romances mais importantes da história da literatura universal, Guerra e paz constitui um painel épico da sociedade russa entre 1805 e 1815. Dele emana uma visão de mundo otimista, que atravessa os horrores da guerra e os erros da humanidade. A obra de Tolstói também registra crises de consciência e a denúncia da mentira social e da ilusão do amor.

OBRAS PRINCIPAIS: Políkushka, 1863; Guerra e paz, 1863-1869; Anna Kariênina, 1877; Padre Sérgio, 1884; A morte de Ivan Ilitch, 1886; Sonata a Kreutzer, 1889; Ressurreição, 1899

LEON NIKOLÁIEVITCH TOLSTÓI por João Armando Nicotti

O nome Leon Tolstói sugere considerações importantes em relação a outros nomes da literatura russa: sua obra surgiu,nas palavras de um crítico, a partir das denominadas escolas puchikiniana e gogoliana. Foi contemporâneo de Turguêniev, Dostoiévski, Gonchárov e Saltikóv-Schedrín; apreciou O herói de nosso tempo, de Liérmontov; ao reler A filha do capitão, de Púchkin, enfatizou que a psicologia dos personagens ficara em segundo plano e, mais tarde, estabeleceu estreitas relações com Korolénko, Tchekhov e Górki, a geração posterior. Suas primeiras obras (1852-1857) abrangem as épocas de sua vida: Infância, Adolescência e Juventude. Em seguida, sua participação em guerras (Cáucaso e Criméia) fica registrada também, na literatura. A partir de então, Tolstói, longe da carreira militar e tendo como preceptor Iván Turguêniev, investe na literatura, na educação, e concentra-se, também, nos problemas existenciais, sociais e filosófico-religiosos do homem russo. Idealiza uma sociedade russa (similar à apresentada em Os cossacos, 1864) em que todos desfrutem do mesmo plano de igualdade; constrói um vasto painel da vida russa a partir da invasão napoleônica em Guerra e paz (1863-1869) e discute a infidelidade conjugal num mundo hipócrita da alta sociedade russa e a morte em Anna Kariênina (1877), tema este reincidente e específico em títulos como A morte de Ivan Ilitch e Sonata a Kreutzer. O leitor de Tolstói, em especial o de Guerra e paz  e Anna Kariênina, é absorvido pela complexa rede de interesses e jogos psicológicos que confirmarão o destino de cada protagonista. O liame entre autor e leitor se fecha na tentativa deste de se compreender um pouco mais no cenário da existência humana. Tolstói foi um pensador da sociedade russa: escreveu sobre a repressão czarista (Não posso calar!, 1908), discutiu os ditames da Igreja (A confissão, 1882, e Padre Sérgio, 1911), sugeriu um modelo pedagógico novo para a educação (Abecedário, 1872) e buscou critérios para uma definição de arte (O que é a arte?, 1898). Expulso da Igreja Ortodoxa russa, em 1901, Tolstói pregava um cristianismo novo, desligado do dogmatismo eclesiástico a partir da transformação interior do indivíduo. Em Ressurreição, a espiritualização renovada em seus protagonistas deveria ser, segundo o desejo do autor, extensiva a todo o povo da Rússia. Com a chegada do século XX, Tolstói almejava uma nova vida para os injustiçados sociais, na perspectiva de reconciliação do bem, da moral reavaliada e da bondade acima de tudo. Sua obra como um todo enfatizou a vida e suas diferentes formas de amor, assim como apresentou, na essência de personagens como Anna Kariênina, Vronski, Liêvin, Ivan Ilitch, Guerássim, Políkushka, André Bolkonski, Natacha Rostov e Evgueni Irténiev, as manifestações problematizadas frente à vida e à morte, eternizando esse dualismo que compõe o grande mistério da condição humana.

* Guia de Leitura – 100 autores que você precisa ler é um livro organizado por Léa Masina que faz parte da Coleção L&PM POCKET. A partir de hoje, todo domingo,você conhecerá um desses 100 autores. Pra melhor configurar a proposta de apresentar uma leitura nova de textos clássicos, Léa convidou intelectuais para escreverem uma lauda sobre cada um dos autores.

Um século sem Leon Tolstói

terça-feira, 23 novembro 2010

Há poucos dias, fez 100 anos que Leon Tolstói morreu. Foi em 20 de novembro de 1910 que o mundo inteiro chorou a perda do grande escritor russo, considerado (por muitos) o maior de todas as épocas. Tão impactante foi sua morte que, alguns anos depois, o escritor Thomas Mann disse que “se o moralista Leon Tolstói ainda estivesse vivo, teria sido possível evitar a Primeira Guerra Mundial”. Um século depois do seu falecimento, seu texto continua fascinando leitores de todos os cantos do planeta. E seu nome permanece na lista dos mais admirados. No Tolstoy Estate-Museum, localizado em Moscou, na casa em que o escritor viveu por quase duas décadas com a esposa Sophia e dez filhos, foi organizada uma exposição e eventos literários. Com um enorme jardim, o local preserva muitos dos objetos pessoais de Tolstói e os visitantes ficam com a impressão de que o escritor pode voltar para sua casa a qualquer momento. A preservação do mobiliário, fotos e porcelana sobre a mesa de jantar foi conservada mesmo depois da Revolução para que os russos pudessem ter a chance de ver como o aristocrata vivia. No amplo salão, entre 1882 e 1901, circularam celebridades como os compositores Skriabin, Rachmaninov e Rimsky-Korsakov, e os também escritores Anton Tchékhov e Máximo Gorki. Durante os 19 que a casa foi ocupada por Tolstói e sua família, ele escreveu quatro livros, entre eles, “A morte de Ivan Ilitch”. Mas esse não é o único museu em homenagem ao autor de “Guerra e paz”. O Museu Yasnaya Polyana, 210 quilômetros ao sul de Moscou, é uma propriedade de 1.600 hectares que o escritor herdou quando tinha 19 anos e que durante décadas foi usada pela família Tolstói.  Neste museu, tudo também foi preservado e há uma exposição permanente que mostra como ele vivia, dormia e comia. Sem contar que em seu parque são apontados os caminhos que o escritor mais gostava de percorrer. Para completar, é em Yasnaya Polyana que está o túmulo de Tolstói, sepultado ali de acordo com seu próprio desejo.

Leon Tolstói e sua esposa Sophia na propriedade de Yasnaya Polyana

O museu Yasnaya Polyana, que conserva grande parte da memória de Tolstói, é também o local onde ele foi sepultado

Ivan Ilitch

segunda-feira, 28 junho 2010

Por Luiz Antonio de Assis Brasil

É uma preciosidade, esta pequena novela de Tolstói: A Morte de Ivan Ilitch. Tão preciosa quanto o romance Guerra e Paz. A primeira, um estudo minimalista; o outro, um poderoso drama acerca da invasão napoleônica à Rússia dos czares. Cada qual, à sua maneira, honra o gênio que os escreveu, e Ivan Ilitch possui uma grandeza que rivaliza com o famoso épico.

E por quê? Antes de tudo, pela segura condução da narrativa. O conflito central – a doença e morte do protagonista – só se agrava da primeira à última página. Aliás, muitos elogiam o admirável Crônica de uma Morte Anunciada como se fosse o primeiro livro a antecipar o seu final sem que isso seja um spoiler. Tolstói já fizera isso. Mesmo sabedores que Ivan Ilitch vai morrer, lemos, fascinados, como a personagem, a partir do anúncio de sua doença, vai ganhando em humanidade, revendo sua vida inútil e amparada por seu cargo burocrático e bem pago.

A questão tratada nesta narrativa não é a morte, que a ela nos acostumamos à medida que passa o tempo, mas é a morte como o fim da possibilidade de aprimorarmos nossa vida. Sim, com a morte cessa todo o esforço para sermos melhores. E quando essa morte surge como uma possibilidade logo ali, ao dobrar da esquina, tudo é pior.

Ivan Ilitch vê, a partir de uma pequena dor, que não é eterno, e que todo o amparo de um conforto conquistado, agora nada valem. Ivan, por isso, não suporta que sua esposa e sua filha decidam ir ao teatro, porque nada é mais importante do que sua doença. Ivan não admite sequer otimismo profissional de seu médico, detesta-lhe a saúde, o perfume, a pele rosada e hígida.

Tolstói consegue, como nenhum outro, utilizar-se da dor física para refletir sobre os limites de nossa vontade. Ivan Ilitch, o onipotente, deve dobrar-se a algo mesquinho e maligno que cresce dentro de seu corpo. Eis aí uma lição para os que, admitindo em tese que são mortais, não aceitam a inevitabilidade de sua morte pessoal. Uma boa reflexão para os neoarrogantes de nosso século.

E temos na praça uma premiada tradução, editada pela L&PM, assinada pela inesquecível e talentosa Vera Karam. É uma celebração da literatura.

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Texto publicado originalmente na coluna de Assis Brasil no jornal Zero Hora.