Jack Kerouac bebeu até morrer. Em 21 de outubro de 1969, o autor de On the road saiu da estrada e se foi, solitário e decadente, aos 47 anos e com apenas 91 dólares em sua conta bancária. Mal sabia ele que, 43 anos depois de sua morte, seu nome teria um valor incalculável para seus fãs. Para marcar esse dia, separamos aqui algumas fotos raras de Kerouac da infância até alguns anos antes de sua morte.
Arquivo da tag: Jack Kerouac
O scroll de “On the road” chega a Londres
Pouco antes da estreia do filme “On the road/Na estrada” na capital inglesa, o “manuscrito original” do livro mais famoso de Jack Kerouac chega às terras da Rainha. A exposição “On the Road: Jack Kerouac’s Manuscript Scroll”, inaugurada nesta quinta, 4 de outubro, oferece ao público, o “scroll” com 36 metros de comprimento e uma série de raras gravações em áudio feitas pelos membros da chamada Geração Beat, entre eles Allen Ginsberg, autor do Uivo, William Burroughs, autor de Almoço nu, e Neal Cassady, em quem Kerouac se inspirou para criar Dean Moriarty, personagem principal de On the road.
Para quem nunca viu o scroll, ele aparece neste vídeo sendo desenrolado para uma exposição em 2007:
Além da versão tradicional e editada de On the road, a L&PM também publica o “manuscrito original” na Coleção L&PM Pocket.
Os haicais de Kerouac estão mais perto de nós
Prepare-se para ler os haicais de Jack Kerouac em português a partir de 2013. Quinta-feira, 27 de setembro, Claudio Willer anunciou em seu blog que entregou à L&PM Editores parte da tradução do livro que traz os pequenos poemas de Kerouac. “Não resisti a postar o final do Livro de haicais de Kerouac (acabo de enviar ao editor o copião da tradução, sem revisão). Achei comovente. Ele escreveu até o fim, até seus últimos dias, até morrer. Acima de tudo, foi um poeta.”
Encolhido, arreganhando os dentes
para a nevasca,
Meu gato me encaraEncolhida na
nevasca, a antiga
Miséria do gatoSurpreendente briga de gatos
na sala em uma
Rancorosa noite de setembroChuva-na-Cara
olha desde a colina:
Custer lá embaixoTouro Sentado ajusta
sua cinta: o cheiro
de peixe defumadoA mosca, tão
solitária como eu
Nesta casa vaziaO outro homem, tão
solitário como eu
Neste universo vazio
Willer, que também é o tradutor de Uivo, de Allen Ginsberg, é um verdadeiro expert em literatura beat. Autor do livro Geração beat, ele realiza uma palestra sobre hoje, 02 de outubro, às 18:30 na Livraria Sebinho em Brasília.
Leitura no metrô
Já parou pra pensar em quanto tempo você gasta por dia se locomovendo? Mas há quem aproveite esse tempo pra botar a leitura em dia: no metrô ou no ônibus, um livro pode ser uma ótima cia de viagem. Foi observando isso nos metrôs de Nova York que Ourit Ben-Haïm, uma jovem “contadora de histórias”, como ela mesma se define, resolveu compartilhar com o mundo os livros que as pessoas lêem no metrô, como uma espécie de “catálogo prático” de uma biblioteca, em que não aparecem só os livros, mas sim pessoas lendo.
No melhor estilo flaneur, ela observa a cena, tira uma foto e publica na página “Underground NY Public Library” criada no Facebook especialmente para isso. Na legenda das fotos, o título e o autor do livro que aparece nas mãos de um ou mais leitores anônimos. Kafka, Kerouac, Proust e Breat Easton Ellis são só alguns dos autores que apareceram pelos metrôs de Nova York nos últimos tempos:
Visite a página para ver outras fotos -> https://www.facebook.com/UndergroundNYPL
Novidades com a assinatura de Lawrence Ferlinghetti
Lawrence Ferlinghetti é mais do que um poeta e escritor brilhante, mais do que o dono da célebre livraria City Lights de São Francisco, mais do que amigo e editor de Allen Ginsberg, Jack Kerouac, William Burroughs e outros beats. Ferlinghetti é uma lenda viva que, aos 93 anos, segue na ativa, literalmente. “Time of Useful Consciousness” (“Tempo de consciência útil”) é seu mais recente livro que acaba de ser lançado nos Estados Unidos pela New Directions Book. O título é um termo da aeronáutica que define o momento da última consciência de uma pessoa, aquele breve espaço de tempo em que a vida ainda pode ser salva, mas que se está à porta da morte por falta de oxigênio. Pura metáfora…
O livro é um grande poema que, através do fluxo de consciência, mostra um Ferlinghetti cheio de ritmo e musicalidade, no mais puro estilo beat. Entre suas palavras, ele cita Bob Dylan, Johnny Cash e Woody Guthrie, dizendo que estes músicos são os “verdadeiros poetas populares da América”.
Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo sobre este lançamento, Ferlinghetti respondeu o que acha de e-books, e-commerce e todas essas novidades: “As redes de livrarias vão mal, mas não a City Lights. Nós estamos indo melhor do que nunca. Estamos nos beneficiando do fato de que somos a última livraria onde as pessoas podem ir e achar um livro de verdade. As pessoas vêm de todo lugar do mundo para buscar livros aqui. O que penso é que os e-books e toda a civilização eletrônica, a internet, o YouTube, Skype, tudo isso do mundo eletrônico, pode desaparecer em um segundo. Toda a civilização eletrônica. Pode acontecer a qualquer momento. Muitos cientistas respeitáveis do clima, hoje, advertem para o que chamam de “tipping point”, um mecanismo de esgotamento. Há fenômenos do tipo acontecendo em Miami, na Flórida, neste momento. Enquanto isso acontece, as mudanças climáticas acontecem, estão fazendo uma grande festa. Lord Byron escreveu um poema sobre a batalha de Waterloo. Descreve como, enquanto os canhões soavam a distância, as pessoas faziam uma grande festa na capital, alheias à destruição.”
“Ninguém nasce poeta. Você se torna poeta, em geral contra sua vontade. Não se escolhe essa vocação. Quando eu cheguei a São Francisco, queria comprar um pedaço de terra e fundar uma vinícola“, disse ainda Ferlinghetti na matéria do Estadão.

Turma beat: em frente à livraria City Lights, o grupo é formado, entre outros, por Neal Cassady e Allen Ginsberg. Ferlinghetti é o da ponta, à direita.
Ainda este ano, a L&PM lançará o único romance escrito por Ferlinghetti, ainda inédito no Brasil: Amor nos tempos de fúria. Dele, também é publicado na Coleção L&PM Pocket Um parque de diversões na cabeça em edição bilíngue com poemas que têm tradução de Eduardo Bueno e Leonardo Fróes.
Charlie Parker e a grande influência na escrita de Kerouac
Quando Charlie Parker surgiu, no início dos anos 1940, apresentando-se no Minton’s Playhouse, andar térreo do Cecil Hotel, no Harlem novaiorquino, Jack Kerouac estava lá, testemunha ocular e auditiva dessa revolução sonora chamada bebop. Kerouac absorveu a novidade e, ao contrário de alguns que se sentiram confusos, ele imediatamente entendeu o que acontecia ali. Não só compreendeu como percebeu que a literatura poderia ter esse ritmo. Segundo Kerouac, o poeta, da mesma forma que o escritor, deveria escrever como quem sopra um sax, sendo que o texto deveria ser elaborado como a trama de um longo solo improvisado e sincopado.

Charlie Parker em ação. O criador do estilo “be bop” seria a grande influência no estilo literário de Jack Kerouac
O autor de On the road foi fiel ao jazz até o fim. E fez de Charlie Parker sua principal e eterna fonte de inspiração. Não apenas pelos acordes musicais, mas também pela intensidade emocional. Poucos meses depois da morte de Parker, no verão de 1955, Kerouac compôs uma série de 242 refrões imitando a forma de construção musical do sax alto, que deu origem à Mexico City Blues, de 1959.
Na trilha sonora do filme Na Estrada / On the Road, como não poderia deixar de ser, há duas músicas de Charlie Parker, Ko-Ko e Salt Peanuts, esta última uma parceria dele com Dizzy Gillespie, outra lenda do jazz. Ouça as duas músicas aqui:
Nascido em 29 de agosto de 1920, este gênio do jazz foi um pássaro que planou bem acima da técnica e cuja vida meteórica e caótica foi contada no filme “Bird”, de 1988, dirigido por Clint Eastwood.
Uma caricatura dos beats
Muito antes de Walter Salles lançar On the Road nos cinemas, Hollywood produziu, em 1960, um filme chamado “The Beatniks”. Calma, não se empolgue, ainda não corra para baixá-lo achando que vai encontrar uma ode a Jack Kerouac e sua turma. “The Beatniks” é uma caricatura. E meio grotesca, até. Dirigido por Paul Frees, o filme tem uma trama insípida que opõe uma gang de beatniks degenerados à Universal Records: quando um deles é contratado pela gravadora, seus amigos não poupam grosserias e agressões para fazê-lo perder a chance da sua vida. “Vivendo por seu código de rebelião e motim” dizia o cartaz.
Tão exagerada era a coisa que é impossível não imaginar Jack Kerouac e Allen Ginsberg dando boas risadas ao assisti-lo. Se bem que eles nem devem ter visto “The Beatniks”. Até porque eles tinham coisa bem melhor pra fazer naquela época. Como escrever livros, por exemplo…
Bienal do Livro e a tentação do leitor
Por Amanda Zulke*
Observadores inveterados, como eu, temos um banquete e tanto em eventos como a Bienal do Livro de São Paulo. Desfrutamos de momentos prazerosos com tanta gente reunida num só lugar. Hoje, por exemplo, no estande da L&PM na Bienal, presenciei duas meninas deparando-se com a mais recente edição do livro On the Road, de Jack Kerouac. Desse encontro entre a dupla e o livro, saíram gritinhos, sorrisos, beliscões de incredulidade. Era muita felicidade ver o livro desejado. Percebi que elas haviam encontrado o que vieram buscar na Bienal, e dali partiram saciadas com a compra em mãos.
Depois disso, me peguei pensando na tentação que é circular pelos pavilhões dessa enorme feira literária. Enxergamos quase toda nossa lista dos próximos livros a ler ali, lado a lado. E aí, escolher qual obra levar torna-se tarefa complicada. Outro rapaz fez a festa agarrando os pockets de Fernando Pessoa, Manuel Bandeira e Pablo Neruda. Não preciso nem dizer que estava estampada nos olhos a angústia de escolher quais levar dentre tantas opções. Ao menos o preço justo da Coleção L&PM Pocket democratiza mais ainda o acesso aos livros do catálogo da editora.
Mas enfim, a Bienal Internacional do Livro de São Paulo segue a pleno nos pavilhões do Anhembi, assim como o estande da L&PM Editores. Passeando pelos corredores, o leitor é tentado a levar para casa pelo menos um livro. Mas, além disso, quem visitar a Bienal vai ver muito mais do que livros. Verá arte na homenagem aos 90 anos da Semana de Arte Moderna estampada nos livros gigantes, nos brinquedos antigos resgatados em um espaço lindíssimo chamado “Deu a louca nos livros” e nas atividades envolvendo as milhares de crianças que se aventuram nessa festa da literatura. Ah, como é bom ver quando a arte sai das páginas dos livros pra entrar na imaginação…
*Amanda Zulke é assessora de imprensa da L&PM Editores e está na Bienal Internacional do Livro de São Paulo.
Pavilhão da Bienal do Livro de SP começa a borbulhar
Por Amanda Zulke*
O cinza que toma conta do céu de São Paulo nessa quinta-feira se contrapõe ao colorido dos livros que preenche os pavilhões do Anhembi, onde acontece a Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que começa hoje e segue até o dia 19 de agosto. Aberta oficialmente às 11 horas, com a presença da Ministra de Estado da Cultura, Ana Buarque de Hollanda, do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, e de outras autoridades, editores, livreiros e leitores, a 22ª edição da Bienal promete grandes momentos. E já começou bem, diga-se de passagem: foi emocionante a apresentação do Hino do Brasil feita pelo maestro João Carlos Martins com a Orquestra Bachiana do Sesi – SP.
Pouco a pouco, o público vai tomando conta dos corredores e estandes da Bienal. O lema desse ano, “Livros transformam o mundo”, a curadoria de peso, que inclui nomes como os jornalistas e apresentadores Paulo Markun e Zeca Camargo, os eventos e atrações programados e, obviamente, a quantidade colossal de livros são chamarizes para essa que é a maior feira de literatura do país.
Uma variedade inacreditável de formatos, cores e gêneros de livros estão expostos em quase 500 estandes. Um desses espaços é o da L&PM, que atrai leitores e livreiros com seu catálogo multifacetado. Agatha Christie, Jack Kerouac, Shakespeare, Eduardo Galeano e Martha Medeiros convivem harmoniosamente nas prateleiras, junto de HQs, mangás, livros eróticos e muitos mais. Não há quem não se sinta contemplado nesse espaço.
* Amanda Zulke é assessora de imprensa da L&PM e está na Bienal do Livro de São Paulo.
A longa estrada de Jack Kerouac
Por André Bernardo*
Jack Kerouac foi o primeiro a reconhecer que seu livro, o semiautobiográfico On the Road, daria um ótimo filme. Tanto que, em 1957, escreveu uma carta para Marlon Brando, propondo a ele que comprasse os direitos de adaptação para o cinema. E mais: sugeria também que Brando interpretasse Dean Moriarty e ele, Sal Paradise. “Vamos lá, Marlon, arregace as mangas e responda”, instigava. Em vão. Kerouac morreu em 1969, sem ter recebido uma resposta sequer do ator. Dez anos depois, em 1979, Francis Ford Coppola comprou os direitos da obra. De lá para cá, vários cineastas, como Jean-Luc Godard, Joel Schumacher e Gus Van Sant, se revezaram na direção, mas o projeto nunca vingou. Tudo começou a mudar em 2004, quando Coppola assistiu a Diários de Motocicleta no Festival de Sundance e resolveu convidar Walter Salles para adaptar a obra-prima de Kerouac. “Li On the Road pela primeira vez quando tinha 18 anos e lembro que ele me marcou profundamente. É um livro que fala da necessidade de explorar o mundo e viver a vida à flor da pele. Quando rodei Diários de Motocicleta, tornei a lê-lo porque queria estar impregnado daquela ânsia por liberdade. A cada nova leitura, eu tinha uma reação diferente”, descreve Walter Salles, que levou seis anos para pesquisar o filme e 69 dias para rodá-lo.
Walter Salles durante as filmagens de Na Estrada
“On the Road narra a busca por liberdade e a quebra de tabus. Embora tudo parecesse bem, nada estava realmente bem nos EUA do pós-guerra”, sintetiza o cineasta, que convidou os ainda pouco conhecidos atores Sam Riley e Garrett Hedlund para interpretarem os papéis de Sal Paradise e Dean Moriarty, os dois jovens amigos que, movidos a sexo, drogas e jazz, resolvem desbravar os EUA, de Costa a Costa.
MITO LITERÁRIO OU IMPULSO CRIATIVO?
Nos seis anos que levou para pesquisar sobre o filme, Walter Salles refez – “umas cinco vezes”, calcula o diretor – o trajeto que Sal e Dean percorrem no livro; conheceu pessoalmente contemporâneos de Kerouac, como o escritor Lawrence Ferlinghetti, hoje com 93 anos; e viu de perto o manuscrito de On the Road, um “pergaminho” de 37 metros de comprimento e cerca de 175 mil palavras.
Biógrafo de Jack Kerouac – King of the Beats, o inglês Barry Miles confirma a lenda de que a primeira versão de On the Road teria sido escrita em inacreditáveis 20 dias: de 2 a 22 de abril de 1951. “Para realizar essa façanha, Kerouac contou com a ajuda extra de algumas doses de benzedrina e café. Para não perder tempo colocando folhas de papel na máquina de escrever, redigiu o livro num enorme pergaminho feito de papel de teletipo”, afirma Miles.
Sim, a primeira versão de On the Road levou apenas três semanas para ser escrita. Mas, até a obra ser publicada, em 5 de setembro de 1957, Kerouac teve que reescrevê-lo algumas vezes. O livro é quase que um diário de bordo dos sete anos em que Kerouac e Neal Cassady passaram na estrada, vivendo de carona e sem destino certo. Em On the Road, Kerouac e Cassady foram rebatizados de Sal e Dean. Outras figuras importantes do movimento beat, como o poeta Allen Ginsberg e o romancista William Burroughs, ganharam os nomes de Carlo Marx e Old Bull Lee. Em Na Estrada, de Walter Salles, o autor de Uivo foi interpretado por Tom Sturridge e o de Almoço Nu, por Viggo Mortensen. Já LuAnne Henderson, mulher de Neal Cassidy, foi vivida pela atriz Kristen Stewart, mais famosa pelo papel de Bella na saga Crepúsculo.
CLÁSSICOS DA GERAÇÃO BEATNIK
No Brasil, On the Road foi publicado, pela primeira vez, ainda na década de 80, com tradução de Eduardo Bueno. E logo cativou uma legião de admiradores, como o músico Jorge Mautner, o poeta Paulo Leminski, entre outros intelectuais de vanguarda.
Atualmente, a L&PM publica 18 títulos de Kerouac, como Cidade Pequena, Cidade Grande, Os Subterrâneos, Os Vagabundos Iluminados, Viajante Solitário, entre outros. Além de outros clássicos da geração beat, como Uivo, de Ginsberg, e Um Parque de Diversões da Cabeça, de Ferlinghetti.
Só On the Road, calcula Ivan Pinheiro Machado, editor da L&PM, já vendeu mais de 100 mil exemplares. “Kerouac passou uns 20 anos no limbo, sem procura e sem repercussão. Foi revivido pela coleção L&PM Pocket em 2004 e, aos poucos, tornou-se um dos livros mais lidos entre os 1.100 títulos da coleção”, orgulha-se Ivan.
Por aqui, um dos maiores “beatnólogos” que existem é o jornalista Roberto Muggiati. Autor de Blues – Da Lama à Fama, Improvisando Soluções e New Jazz – De Volta para o Futuro, ele leu On the Road em 1958, um ano depois de sua publicação.
No dia 5 de dezembro de 1959, Muggiati publicou um artigo intitulado Jack Kerouac e as Crianças do Bop no suplemento dominical do Jornal do Brasil e enviou uma cópia para o então agente de Kerouac, Sterling Lord. Três semanas depois, Muggiati recebeu um postal datilografado e assinado à mão pelo próprio Kerouac. Nele, o autor de On the Road dizia: “Eu lhe asseguro que a geração beat é um movimento honesto e, se a crítica é ‘Para onde vocês estão indo?’, a resposta é ‘Chegaremos lá’”. “Neal Cassady morreu em 1968, aos 42 anos, e Kerouac em 1969, aos 47. No caso deles, o que contou foi a intensidade, não a longevidade”, sublinha Muggiati.
Para o editor da L&PM, Ivan Pinheiro Manchado, não é difícil explicar o motivo do sucesso editorial de On the Road. “O livro de Kerouac reflete uma realidade que é o contraponto ao ‘american way of life’. Foi o primeiro de uma série de grandes livros que contestaram a sociedade americana pós-guerra e iniciaram uma nova estética transgressora. Transgressão, aliás, é uma boa palavra para definir o que foi o movimento beat”, opina Ivan. Walter Salles concorda. “De vez em quando, algumas pessoas me perguntam: mas, por que o movimento beat acabou? Nessas horas, só tenho a responder que o movimento beat não acabou; ele apenas se transformou em outra coisa. Não teria existido Bob Dylan se ele não tivesse lido On the Road, colocado a mochila nas costas e ido até Nova Iorque. Até hoje, ele seria apenas o Robert Allen Zimmerman”, reflete.
UMA VIAGEM QUE RESISTE AO TEMPO
Bob Dylan não foi o único. Johnny Depp é outro notório admirador de Kerouac. Em 1991, o astro desembolsou US$ 50 mil para comprar alguns itens do espólio do escritor, como uma capa de chuva, uma mala de viagem e um cheque sem fundos, entre outros itens. Dez anos depois, o famoso manuscrito de On the Road foi arrematado, em um leilão na Christie’s de Nova Iorque, por US$ 2,4 milhões. Curiosamente, quando morreu, em 21 de outubro de 1969, vítima de cirrose hepática, Kerouac tinha apenas US$ 19 em sua conta bancária. Mas o autor estava longe de ser uma unanimidade. Dos que atacavam seu estilo verborrágico de escrever, Truman Capote, de A Sangue Frio, foi um dos mais ácidos: “Isso não é literatura, é datilografia!”. Mas, e se Kerouac não tivesse sucumbido à bebida? Como estaria hoje, aos 90 anos, o ídolo da geração beat? Bem, para começo de conversa, Kerouac, provavelmente, detestaria a alcunha de “o ídolo da geração beat”. “O que sabemos é que ele não aceitava, no fim da vida, o rótulo de grande revolucionário”, pondera Ivan. Barry Miles confessa que se surpreendeu com o que descobriu sobre seu biografado. Ao longo dos anos, Kerouac criticou o movimento hippie, apoiou a Guerra do Vietnã e só votou em candidatos republicanos. “Acho que Kerouac odiaria o mundo de hoje”, opina Miles. Já Walter Salles pensa diferente. Ele pode até não saber ao certo como estaria hoje Kerouac, mas, a exemplo de alguns de seus contemporâneos, como Ferlinghetti e Gary Snyder, desconfia que o escritor continuaria “jovem de espírito”. “A coisa mais bacana de fazer o filme foi conhecer as pessoas de 80 anos mais jovens que já conheci na vida”, explica o cineasta.
*Matéria publicada no portal Saraiva Conteúdo em 15 de julho de 2012.




















