Arquivo mensais:agosto 2011

39. Martha Medeiros: uma história de sucesso

Por Ivan Pinheiro Machado*

No começo dos anos 80, Beth Perrenoud trabalhava como assessora de imprensa da L&PM Editores. Um dia, ela deixou sobre a minha mesa uma pasta e disse “lê esta poeta. É sensacional”. A luta pela sobrevivência numa inflação de 20, 30% ao mês, não permitiu que houvesse clima para examinar com carinho aqueles poemas cuidadosamente encadernados numa daquelas pastas de colégio, com presilhas.

Capa da primeira edição de "Strip-tease", da Brasiliense

Um ano depois, em 1985, Beth surgiu na minha sala novamente, desta vez com um livro na mão: “olha o livro que não quiseste publicar”. E me deu Strip-Tease, de Martha Medeiros, lançado pela Brasiliense que, na época, era uma das mais importantes e prestigiadas editoras brasileiras. A Beth, além de bonita, é uma ótima pessoa. Amiga da Martha e leal à L&PM, ela estava muito chateada, afinal me dera a oportunidade de publicar o livro…

Eu li Strip-Tease em uma hora. Eram poemas diferentes daqueles que chegavam diariamente à minha mesa, pleiteando publicação. Uma linguagem coloquial e ao mesmo tempo intensa, visceral. Uma poesia contemporânea, falando sobre sua geração de uma forma nova, direta, sem arabescos desnecessários, mas com uma intensa força poética. Enfim, eu estava diante de uma grande poeta que a inflação, o descuido, a inexperiência e as vicissitudes de um começo difícil tinham nos impedido de publicar.

Poucos têm uma segunda chance na vida. Graças a minha insistência e a generosidade da Martha, tivemos a nossa. E publicamos seu segundo livro de poemas, Meia noite e um quarto em 1987. Depois, em 1991, lançamos Persona non Grata e, em 1995, De cara lavada. Em 1998, Martha reuniu todos os seus livros de poemas e fez uma seleção que foi publicada na então recém criada Coleção L&PM POCKET com o título de Poesia reunida.

A esta altura ela estava abandonando uma próspera carreira de publicitária e já era uma cronista de sucesso, escrevendo semanalmente para o jornal Zero Hora em Porto Alegre. Em 1997, publicamos seu primeiro livro de crônicas, Topless. Depois, saíram Trem-Bala (1999), Non Stop (2000), Cartas extraviadas e outros poemas (2000), Montanha-russa (2003), Coisas da vida (2005) e o bestseller Doidas e Santas (2008). Pela editora Objetiva, ela publicou os romances “Divã”, “Selma e Sinatra”, “Tudo o que eu queria te dizer” e “Fora de mim”.

Foram feitas adaptações – com grande sucesso – de seus livros para TV, teatro e cinema. Enfim, Martha tornou-se um sucesso nacional. Ou melhor, um grande sucesso nacional. Seu livro mais recente Feliz por nada, lançado dia 15 de junho de 2011,  já era o livro mais vendido no Brasil duas semanas depois, ocupando o primeiro lugar nas listas dos mais vendidos das revistas nacionais Veja e Época.

Hoje, o Brasil inteiro conhece Martha através dos seus livros, da TV, dos filmes, das peças de teatro e das crônicas que ela publica semanalmente nos jornais Zero Hora, de Porto Alegre e O Globo do Rio de Janeiro.

Com o tempo, como cronista, ela foi ampliando esta visão do cotidiano com as belas ferramentas que sua grande poesia lhe dá. Suas crônicas tem o raro sortilégio da identificação. Quando recém começava sua carreira literária, muito jovem, no início dos anos 80, Martha chamou a atenção de Millôr Fernandes e de Caio Fernando Abreu que se encantaram com o seu trabalho. Em seu texto sobre ela, Caio foi sintético e profético sobre o futuro da cronista/poeta: “A poesia de Martha acontece o tempo todo, do lado de dentro ou de fora da gente. Por ser poeta, ela consegue captá-la e dar-lhe a mais sensível e contemporânea das formas. Então comove. E segue o baile.”

*Toda terça-feira, o editor Ivan Pinheiro Machado resgata histórias que aconteceram em mais de três décadas de L&PM. Este é o trigésimo-nono post da Série “Era uma vez… uma editora“.

As viagens de William Burroughs

William S. Burroughs foi mais longe do que os outros beats. Não que tenha feito mais sucesso, mas viveu mais do que  seus amigos Allen Ginsberg e Jack Kerouac. Morreu de ataque cardíaco em 2 de agosto de 1997 aos 83 anos. Um verdadeiro sobrevivente a oito décadas de vida junky. Se foi para o céu, ninguém sabe, já que além de um séquito de fãs e amigos famosos, seu currículo incluía relações com garotos menores de idade e o assassinato da esposa (que ele matou sem querer ao brincar de Guilherme Tell).

Dois anos após a controversa morte acidental da mulher, que aconteceu em 1951, Burroughs se lançou em uma viagem pelo Peru e Colômbia, em busca do yage, ou ayahuasca, uma droga usada pelos índios da nascente do rio Amazonas à qual se atribuem poderes sensoriais e anestésicos. Dessa aventura, nasceu Cartas do yage, que traz a correspondência trocada entre ele e Allen Ginsberg. A seguir, alguns trechos:

Querido Al:

De volta a Bogotá. Tenho um caixote de yage. Tomei-o e sei mais ou menos como é preparado. Outra coisa, talvez você veja minha foto no Exposure. Encontrei um repórter chegando quando estava saindo. Certamente veado, mas tão degustável quanto um cesto de roupa suja (…) Todas as noites vou a um bar, peço uma garrafa de Pepsi e derramo dentro um pouco de álcool do laboratório. (…) Fui roubado outra vez. Meus óculos e meu canivete. Perdendo todos os meus fodidos valores em serviço. Esta é uma nação de cleptomaníacos. Em toda minha experiência como homossexual, nunca tinha sido vítima de roubos tão idiotas de artigos sem uso possível para outra pessoa. Até agora, óculos e cheques de viagem. O problema é que compartilho com o falecido padre Flanagan, o da Cidade dos Meninos, da profunda convicção de que não existem garotos maus. Tenho que largar a droga. Minhas mãos tremem tanto que mal posso escrever. Preciso parar.

Amor,
Bill

William Burroughs adorava armas e gatos

De William Burroughs, além de Cartas do yage, a Coleção L&PM publica O gato por dentro.

O livro além do livro

Começou neste sábado, 30 de julho, uma exposição em que o livro é matéria-prima para a criação de outras obras de arte. Além da Biblioteca é o nome desta mostra que ficará aberta ao público até 23 de outubro no Museu Lasar Segall em São Paulo.

Segundo a curadora, Ana Luiza Fonseca, esta exposição evidencia dois aspectos do livro: sua forma e seu conteúdo funcional. “As obras aqui expostas exploram a espacialidade do livro com a naturalidade de quem pertence ao universo criado por esse objeto, que é ao mesmo tempo mundano e enigmático. (…) O livro está presente nessas obras também com suas diferentes funções dentro do nosso cotidiano, afinal, este é o objeto usado pelas ideias como meio e veículo. Além da Biblioteca apresenta o atlas geográfico, o álbum de figurinhas, o dicionário, a enciclopédia, o romance, o caderno de desenho, o caderno de partitura, o livro de poesia, o flip-chart, e por aí vai…”  escreve a curadora no texto de apresentação que pode ser lido no site do museu.

Na lista dos onze artistas participantes estão Ana Luiza Dias Batista, Coletivo Zine Parasita, Daniel Escobar, Edith Derdyk, Fabio Morais, Jorge Macchi, Lucia Mindlin Loeb, Marcius Galan, Marilá Dardot, Nicolás Páris e Odires Mlászho.

"Da série Oceanos (Índico)", de Fábio Morais

"Cúmulus", de Marilá Dardot

"Livro cego", de Odires Mlászho

Serviço
Exposição: de 30 de julho a 23 de outubro de 2011
Horário: de terça a sábado e feriados das 14h às 19h
domingos das 14h às 18h até 23/10
Onde: Museu Lasar Segall (Rua Berta, 111 – fone 11 55747322
Quanto: grátis

“Feliz por nada”, de Martha Medeiros, é o livro mais vendido do Brasil

Como diria aquele célebre comercial: chegar ao topo de uma lista de mais vendidos não tem preço. Isso porque, para um escritor, essa conquista significa colher os frutos de um trabalho duro (sim, acredite, escrever não é nada fácil, escrever todo dia então…).

Pois “Feliz por nada“, de Martha Medeiros, já é o livro mais vendido no Brasil e, nesta segunda-feira, está em primeiro lugar nas listas da revista Veja, revista Época e jornal O Globo. “Feliz por Nada” foi lançado dia 15 de junho com uma tiragem inicial de 20 mil exemplares e reeditado uma semana depois, chegando em menos de um mês a uma tiragem total de cerca de 40 mil exemplares. Martha é autora de cerca de 15 livros entre poesia, crônicas e ficção. Algumas de suas obras como Divã, Doidas e Santas e Trem Bala já foram adaptadas para o teatro e o cinema.

Martha um dia foi publicitária, mas deixou as agências de propaganda para se dedicar ao seu ofício de escritora. Valeu a pena!

As listas dos mais vendidos da Revista Veja (esquerda) e Época (direita)