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Maradona ao sol e à sombra

quarta-feira, 25 novembro 2020

Ele foi um gênio indomável. Um baixinho gigantesco que correu como ninguém com uma bola. Ele escorregou, caiu, levantou, equilibrou-se na linha tênue dos prazeres da vida. Ele foi o mais “prima-dona” dos jogadores, o mais argentino dos argentinos. Maradona levantou olas e taças. Segurou na mão de Deus e a pegou emprestada. E marcou seu nome na história dos que jamais serão esquecidos.

R.I.P. Diego Maradona.

Para lembrá-lo e homenageá-lo, compartilhamos aqui trechos de Futebol ao sol e à sombra, livro que Eduardo Galeano escreveu sobre os momentos inesquecíveis e emblemáticos do “fútbol”:

Foi em 1973. Jogavam as equipes infantis de Argentinos Juniors e River Plate, em Buenos Aires. O número 10 do Argentinos recebeu a bola de seu goleiro, evitou o beque central do River e começou a corrida. Vários jogadores foram ao seu encontro: passou a bola por fora de um deles, entre as pernas de outro, e enganou mais um de calcanhar. Depois, sem parar, deixou paralisados os zagueiros e botou o goleiro caído no chão, e se meteu caminhando com a bola na meta rival. No campo tinham ficado sete meninos fritos e quatro que não conseguiam fechar a boca. Aquela equipe de garotinhos, os Cebollitas, estava invicta há cem partidas e tinha chamado a atenção dos jornalistas. Um dos jogadores, Veneno, que tinha treze anos, declarou:

– Jogamos para nos divertir. Nunca vamos jogar por dinheiro. Quando entra dinheiro, todos se matam para ser estrelas, e então chega a hora da inveja e do egoísmo.

Falou abraçado ao jogador mais querido de todos, que também era o mais alegre e o mais baixinho: Diego Armando Maradona, que tinha doze anos e acabava de fazer aquele gol incrível. Maradona tinha o costume de pôr a língua de fora quando estava em pleno impulso. Todos os seus gols tinham sido feitos com a língua de fora. De noite dormia abraçado com a bola e de dia fazia prodígios com ela. Vivia numa casa pobre de um bairro pobre e queria ser técnico industrial.

(Texto “Gol de Maradona”)

MARADONA CEBOLLITA

Na Copa de 86, participaram catorze países europeus e seis americanos, além do Marrocos, Coreia do Sul, Iraque e Argélia. (…) . Mas aquele foi o Mundial de Maradona. Contra a Inglaterra, Maradona vingou com dois gols de esquerda o orgulho pátrio ferido nas Malvinas: fez um com a mão esquerda, que ele chamou de mão de Deus, e o outro com a perna esquerda, depois de ter derrubado no chão a defesa inglesa. A Argentina disputou a final contra a Alemanha. Foi de Maradona o passe decisivo, que deixou sozinho Burruchaga para que a Argentina se impusesse por 3 a 2 e ganhasse o campeonato quando o relógio já marcava o fim da partida, mas antes tinha havido outro gol memorável: Valdano arrancou com a bola desde o arco argentino, cruzou toda a cancha e quando Schumacher saiu para cortar, colocou-a rente à trave direita. Valdano vinha falando com a bola, vinha lhe suplicando: – Por favor, entre. A França se classificou em terceiro lugar, seguida pela Bélgica. O inglês Lineker liderou a lista de artilheiros, com seis gols. Maradona fez cinco, como o brasileiro Careca e o espanhol Butragueño.

(Trecho do texto “O Mundial de 86″)

MARADONA 87

Jogou, venceu, mijou, perdeu. A análise acusou a presença de efedrina e Maradona acabou de mau jeito seu Mundial de 94. A efedrina, que não é considerada droga estimulante no esporte profissional dos Estados Unidos e de muitos outros países, é proibida nas competições internacionais. Houve estupor e escândalo. Os trovões da condenação moral ensurdeceram o mundo inteiro, mas mal ou bem se fizeram ouvir algumas vozes de apoio ao ídolo caído. E não só na sua dolorida e atônita Argentina, mas também em lugares tão longínquos como Bangladesh, onde uma manifestação numerosa rugiu nas ruas repudiando a FIFA e exigindo o retorno do expulso. Afinal de contas, julgá-lo era fácil, e era fácil condená-lo, mas não era tão fácil esquecer que Maradona vinha cometendo há anos o pecado de ser o melhor, o delito de denunciar de viva voz as coisas que o poder manda calar e o crime de jogar com a canhota, que segundo o Pequeno Larousse Ilustrado significa “com a esquerda” e também significa “o contrário de como se deve fazer”. Diego Armando Maradona nunca tinha usado estimulantes, nas vésperas das partidas, para multiplicar seu corpo. É verdade que se metera com cocaína, mas se dopava em festas tristes, para esquecer ou ser esquecido, quando já estava encurralado pela glória e não podia viver sem a fama que não o deixava viver. Jogava melhor do que ninguém, apesar da cocaína, e não por causa dela. Estava esgotado pelo peso de sua própria personagem. Tinha problemas na coluna vertebral, desde o longínquo dia em que a multidão havia gritado seu nome pela primeira vez. Maradona carregava uma carga chamada Maradona, que fazia sua coluna estalar. O corpo como metáfora: suas pernas doíam, não podia dormir sem comprimidos. Não tinha demorado a perceber que era insuportável a responsabilidade de trabalhar como deus nos estádios, mas desde o princípio soube que era impossível deixar de fazê-lo. “Necessito que me necessitem”, confessou, quando já tinha há muitos anos o halo na cabeça, submetido à tirania do rendimento sobre-humano, intoxicado de cortisona, analgésicos e ovações, acossado pelas exigências de seus devotos e pelo ódio dos que ofendera. O prazer de derrubar ídolos é diretamente proporcional à necessidade de tê-los. Na Espanha, quando Goicoechea pegou-o por trás e sem a bola e o deixou fora das canchas por vários meses, não faltaram fanáticos 196 que carregaram nos braços o culpado deste homicídio premeditado, e em todo o mundo não faltaram pessoas dispostas a comemorar a queda do arrogante argentininho intruso nos píncaros, o novo-rico que tinha fugido da fome e se dava ao luxo da insolência e da fanfarronice. Depois, em Nápoles, Maradona foi Santa Maradonna e São Gennaro se transformou em São Gennarmando. Nas ruas vendiam-se imagens da divindade de calções, iluminada pela coroa da virgem ou envolta no manto sagrado do santo que sangra a cada seis meses, e também vendiam-se ataúdes dos times do norte da Itália e garrafinhas com lágrimas de Silvio Berlusconi. Os meninos e os cachorros usavam perucas de Maradona. Havia uma bola ao pé da estátua de Dante e o tritão da fonte vestia a camisa azul do Nápoles. Havia mais de meio século que o time da cidade não ganhava um campeonato, cidade condenada às fúrias do Vesúvio e à derrota eterna nos campos de futebol, e graças a Maradona, o sul obscuro tinha conseguido, finalmente, humilhar o norte branco que o desprezava. Campeonato atrás de campeonato, nos estádios italianos e europeus, o Nápoles vencia, e cada gol era uma profanação da ordem estabelecida e uma revanche contra a história. Em Milão odiavam o culpado desta afronta dos pobres que deixaram seu lugar, chamavam-no presunto cacheados. E não só em Milão: no Mundial de 90, a maioria do público castigava Maradona com furiosas vaias toda vez que tocava a bola, e a derrota argentina frente à Alemanha foi comemorada como uma vitória italiana. Quando Maradona disse que queria ir embora de Nápoles, houve os que lhe lançaram pelas janelas bonecos de cera atravessados por alfinetes. Prisioneiro 197 da cidade que o adorava e da camorra, a máfia dona da cidade, ele já estava jogando contra a vontade, no contrapé; e então, explodiu o escândalo da cocaína. Maradona transformou-se subitamente em Maracoca, um delinquente que se tinha feito passar por herói. Mais tarde, em Buenos Aires, a televisão transmitiu o segundo acerto de contas: a detenção, ao vivo, como se fosse uma partida, para deleite dos que desfrutaram o espetáculo do rei nu que a polícia levava preso. “É um doente”, disseram. E disseram: “Está acabado”. O messias convocado para redimir a maldição histórica dos italianos do sul tinha sido, também, o vingador da derrota argentina na guerra das Malvinas, mediante um gol velhaco e outro gol fabuloso, que deixou os ingleses girando como piões durante alguns anos; mas na hora da queda, o Pibe de Ouro não passou de um farsante cheirador e putanheiro. Maradona tinha traído os meninos e desonrado o esporte. Deram-no como morto. Mas o cadáver levantou-se de um salto. Cumprida a penitência da cocaína, Maradona foi o bombeiro da seleção argentina, que estava queimando suas últimas possibilidades de chegar ao Mundial de 94. Graças a Maradona, chegou lá. E no Mundial, Maradona era outra vez, como nos velhos tempos, o melhor de todos, quando estourou o escândalo da efedrina. A máquina do poder o tinha jurado. Ele lhe dizia de tudo, e isso tem seu preço, o preço se paga à vista e sem descontos. E o próprio Maradona ofereceu a justificativa, por sua tendência suicida de servir-se de bandeja na boca de seus muitos inimigos e por essa irresponsabilidade infantil que o impele a precipitar-se em todas as armadilhas que se abrem em seu caminho. Os mesmos jornalistas que o pressionam com os microfones reprovam sua arrogância e suas zangas e o acusam de falar demais. Não lhes falta razão; mas não é isso que não podem perdoar nele: na verdade, não gostam do que às vezes diz. Este garoto respondão e esquentado tem o costume de lançar golpes para cima. Em 86 e em 94, no México e nos Estados Unidos, denunciou a ditadura onipotente da televisão, que obrigava os jogadores a extenuar-se ao meio-dia, esturricando-se ao sol, e em mil e uma ocasiões, ao longo de toda a sua acidentada carreira, Maradona disse coisas que mexeram em casa de marimbondos. Ele não foi o único jogador desobediente, mas foi sua voz que deu ressonância universal às perguntas mais insuportáveis: Por que o futebol não é regido pelas leis universais do direito do trabalho? Se é normal que qualquer artista conheça os lucros do show que oferece, por que os jogadores não podem conhecer as contas secretas da opulenta multinacional do futebol? Havelange se cala, ocupado com outros afazeres, e Joseph Blatter, burocrata da FIFA que nunca chutou uma bola mas anda em limusines de oito metros com motorista negro, limita-se a comentar:

– O último astro argentino foi Di Stéfano.

Quando Maradona foi, finalmente, expulso do Mundial de 94, os campos de futebol perderam seu rebelde mais clamoroso. E perderam também um jogador fantástico. Maradona é incontrolável quando fala, mas muito mais quando joga: não há quem possa prever as diabruras deste criador de surpresas, que jamais se repete e goza desconcertando os computadores. Não é um jogador veloz, tourinho de pernas curtas, mas leva a bola costurada no pé e tem olhos em todo o corpo. Seus malabarismos inflamam o campo. Ele pode resolver uma partida disparando um tiro fulminante de costas para o gol ou servindo um passe impossível, de longe, quando está cercado por milhares de pernas inimigas, e não há quem o pare quando se lança a driblar adversários. No frígido futebol do fim de século, que exige ganhar e proíbe divertir-se, este homem é um dos poucos que demonstra que a fantasia também pode ser eficaz.

(Texto “Maradona”)

MARADONA 94

100 mil vezes obrigada

quarta-feira, 5 março 2014

100mil

Chegamos aos 100 mil fãs no Facebook. 100 mil pessoas reais que curtem o que a L&PM Editores divulga, conta, mostra e posta. 100 mil leitores. 100 mil amantes de livros. 100 mil curiosos. 100 mil descobridores. 100 mil navegadores pelos mares da poesia e da prosa. Obrigada a cada um de vocês. E que venham mais 100 mil. :-)

Ainda não curte a página da L&PM Editores no Facebook? Vai lá: www.facebook.com/LePMEditores

 

QR Codes L&PM: uma surpresa em cada livro

sexta-feira, 7 dezembro 2012

Se você prestar atenção nos mais recentes lançamentos da L&PM, verá que eles trazem um QR Code na capa. Assim como um código de barras, o QR Code contém informações que podem ser acessadas através de um aplicativo que lê esse código por meio da câmera do celular (iPhone, Android, Blackberry, etc).

Nos livros da L&PM, os QR Codes dão acesso a vídeos exclusivos, produzidos pela L&PM WebTV para que os leitores possam conhecer melhor a obra e o autor. Com isso, até mesmo antes de comprar o livro, é possível assistir, por exemplo, a uma pequena entrevista dentro da livraria.

Apesar dos QR Codes estarem cada vez mais populares, presentes em anúncios de revistas, placas de esquinas e outdoors, a L&PM é a única editora do Brasil a investir em conteúdo inédito e colocar QR Codes em todos os seus lançamentos e reedições.

Tá vendo esses quadradinhos nos livros? São os QR Codes

Para saber mais sobre como fazer a leitura do QR Code ou baixar o aplicativo, clique aqui.

O maior colecionador de pockets da L&PM

quarta-feira, 18 maio 2011

Há quem escreva por amor, pelo prazer de presenciar o encontro das palavras, por obrigação, ou mesmo porque nasceu para isso. Luiz Fernando Koch, irmão do famoso ex-tenista e campeão mundial Thomaz Koch, ao longo de sua vida, escreveu muito. Em todos os anos em que foi juiz, foram inúmeros referendos, notas, sentenças e tratados. Incontáveis as páginas. “Na verdade, sou um escritor anônimo”, brinca.  Luiz Fernando escreveu tanto que não teve tempo suficiente para ler tudo o que gostaria. Até que resolveu “recuperar o tempo perdido” e foi atrás de todos os livros que pudesse degustar, como se cada um deles fosse realmente uma saborosa refeição.

Koch, como um bom e determinado homem da lei, resolveu entrar de cabeça nesta missão. Uma dúzia de livros não foi o suficiente. Resolveu comprar logo a Coleção inteirinha da L&PM POCKET. “Não tenho a pretensão de ler todos estes livros”, diz ele em seu escritório, diante de uma parede repleta de coloridos e recheados livros. Mas prometeu que leria tudo o que conseguisse. “Queria comprar a coleção também para o meu neto e minhas filhas”, confessou Koch, que teve de adaptar o escritório para receber os novos moradores – que chegaram em 10 volumosas caixas. “Comprei há muito pouco tempo, mas é possível que meu escritório seja bem mais visitado agora por parentes e amigos”, diverte-se o maior colecionador de pockets L&PM que temos notícia.

Há quem diga que são os livros que fazem de uma casa um lar. Neste caso, não há dúvidas de que o escritório de Luiz Fernando Koch, em Porto Alegre, tenha ficado muito mais acolhedor quando quase mil histórias começaram a habitar o lugar. O escritor anônimo transformou-se em um conhecido leitor – e invejado por muita gente! Afinal, quem não gostaria de ter quase mil livros em sua sala?

Gostou? Então aguarde para ver na WebTV a entrevista que fizemos com Luiz Fernando Koch, em seu escritório, diante das centenas de livros da L&PM Editores.

L&PM recebe Troféu HQ Mix por publicação de “Peanuts completo”

quinta-feira, 7 outubro 2010

Que puxa! Peanuts completo trouxe mais uma alegria à L&PM. Ontem, no Sesc Pompeia, foi entregue o Troféu HQ Mix às melhores obras em quadrinhos publicadas em 2009. Foi a 22ª edição desta que é a principal premiação do mercado brasileiro de quadrinhos, organizada pela Associação dos Cartunistas do Brasil e Instituto Memorial de Artes Gráficas do Brasil. A L&PM Editores foi premiada na categoria “Publicação de Clássico” por Peanuts completo – 1950 a 1952, de Charles Schulz. Clóris Kluck estava lá, representando a L&PM, e recebeu o troféu das mãos de Serginho Groisman. Foi ela quem nos enviou essas fotos que agora dividimos com vocês.

Neon na entrada do evento no Sesc Pompeia em São Paulo

As estatuetas do HQ Mix

Clóris Kluck recebe o prêmio de Serginho Groisman

Juan Gabriel Vásquez, muito prazer

terça-feira, 6 abril 2010

Chegou às livrarias Os informantes, primeiro romance do colombiano Juan Gabriel Vásquez publicado no Brasil. Mas Vásquez é estreante apenas por aqui. Além de Os informantes, ele é autor de outros três livros que, juntos, foram publicados em mais de dez países. E como nós aqui do blog somos muito educados, resolvemos fazer as honras e apresentá-lo a vocês. Abaixo, seguem dois vídeos: o primeiro, um perfil de Vásquez produzido pelo programa colombiano Cultura Capital, e o segundo, uma entrevista feita em Barcelona, onde mora.