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69. O homem que amava o Brasil

terça-feira, 28 fevereiro 2012

Por Ivan Pinheiro Machado*

Tomei conhecimento de Stefan Zweig lendo a biografia que ele escreveu sobre Balzac. Além de ensaísta, romancista, contista, Zweig era um conceituado biógrafo. Famosas são suas biografias de Maria Antonieta, Romain Roland, Montaigne, entre muitas outras. Na biografia de Balzac, há o subtítulo “romance de uma vida”. É um texto de arrebatada admiração. Tão emotivo, tão literário e tão devotado à memória de Balzac que serve como um conduto para o enorme manancial que são os livros do grande romancista. Posso dizer até que ele tem um pouco de responsabilidade pelo mergulho que dei na obra do autor de “A comédia humana”.

Stefan Zweig era assim. Um homem apaixonado, emotivo e de extrema sensibilidade. Deprimido pela guerra, pelo avanço do nazismo e da intolerância contra os judeus, principalmente na Áustria, sua terra natal, suicidou-se juntamente com sua mulher há exatos 70 anos, em fevereiro de 1942, em sua casa em Petrópolis na serra carioca. Encantado com o que encontrou por aqui, ele escreveu “Brasil, o país do futuro”. De enorme repercussão na época em que foi lançado, graças à este livro o Brasil ganhou internacionamente, nas décadas de 50 e 60, o “slogan” de “país do futuro”. No começo deste século, em 2004, com Caroline Chang, a Cacá, minha colega e editora da L&PM (recentemente mãe de Dora), tive alguns encontros na Feira do Livro de Frankfurt com Mme. Lindi Preuss, agente literária que representava os interesses do espólio de Stefan Zweig. Lembro que em cada reunião ela oferecia a mim e a Cacá um doce típico alemão. Um gesto emblemático que transformava nossos encontros em conversas leves e agradáveis. A partir de um acordo com a agente de Zweig, publicamos “24 horas na vida de uma mulher”, “Medo” e “Brasil, um país do futuro”, livro fundamental que, há décadas, estava fora das livrarias do país.

"Brasil, um país do futuro" na Coleção L&PM Pocket e com prefácio de Alberto Dines

Esta publicação foi saudada pelos admiradores e entidades que cultuam a memória do grande escritor, especialmente por um dos seu biógrafos, o brilhante jornalista Alberto Dines, que promoveu um verdadeiro “happening” de relançamento de “Brasil, um país do futuro” no Rio de Janeiro.

A Casa Stefan Zweig de Petrópolis e o consulado da Áustria ofereceram um coquetel com uma exposição de fotos sobre a estada de Zweig no Brasil. Para quem não sabe, o consulado da Áustria era uma das últimas casas que resistiam na Avenida Atlântida em Copacabana. De lá, se tinha uma visão paradisíaca do Rio de Janeiro em frente ao mar. Nesta noite, estávamos eu e meu filho Antonio representando a L&PM e vários foram os discursos, com destaque para a bela fala de Alberto Dines, autor do excelente “Morte no Paraíso” (1981), a biografia de Stefan Zweig, e responsável pelo prefácio do nosso “Brasil, um país do futuro”. Estávamos num terraço no sobrado do consulado. A noite estava perfeita e a lua cheia fazia com que o mar, os morros, os prédios enormes, a areia, tudo, tivesse um toque de maravilhamento.

O antigo consulado da Áustria em Copacabana, vendido em 2009

Eu olhava a paisagem inteira e ficava imaginando o Rio que Stefan Zweig conheceu, tantas décadas antes. Se agora, assediada pela transformação dos tempos, pelos prédios gigantescos, pelas favelas, pelos  milhares de carros, por tudo que o “futuro” traz, esta cidade ainda é maravilhosa, imagine naquele tempo. A beleza da paisagem sugeria um amanhã espetacular, cordial, longe da selvageria que o nazismo havia trazido para a Europa naquele início de guerra.

“Brasil, um país do futuro” é lindo e às vezes ingênuo. Confrontado com a realidade, no entanto, ele é profético. A velha Europa que encheu seus cofres e museus com as riquezas do mundo subdesenvolvido parece que está perdendo o fôlego. Com exceção – paradoxalmente, no caso de Zweig – da Alemanha, há dúvidas e suspeitas quanto ao futuro. Por outro lado, o Brasil, que há duas décadas tinha uma inflação de 1% ao dia, figura hoje como um país em pleno desenvolvimento, como se o futuro que Zweig previu tivesse finalmente chegado.

*Toda terça-feira, o editor Ivan Pinheiro Machado resgata histórias que aconteceram em mais de três décadas de L&PM. Este é o sexagésimo nono post da Série “Era uma vez… uma editora“.

Stefan Zweig, o criador da expressão “Brasil, um país do futuro”

segunda-feira, 28 novembro 2011

Em 28 de novembro de 1881, nascia Stefan Zweig. Vienense, herdeiro de uma família da alta burguesia austríaca, sua trajetória se cruzaria com a do Brasil em 1936 quando, ao ser convidado para um congresso em Buenos Aires, o já famoso escritor Zweig aproveitou para visitar também o Brasil. Chegou esperando encontrar “uma daquelas repúblicas sul-americanas que não distinguimos bem umas das outras, com clima quente e insalubre, situação política instável e finanças em desordem…”, como depois escreveria. Mas ao desembarcar no Rio de Janeiro, a sensação foi outra: “Fiquei fascinado e, ao mesmo tempo, estremeci. Pois não apenas me defrontei com uma das paisagens mais belas do mundo, esta combinação ímpar de mar e montanha, cidade e natureza tropical, mas ainda com um tipo completamente diferente de civilização”. A partir de então, Zweig envolveu-se tão intensamente com o Brasil que, em 1941, junto com a mulher, mudou-se para Petrópolis, virou biógrafo de Américo Vespúcio e escreveu o apaixonado ensaio histórico Brasil, um país do futuro.

O pequeno Zweig no colo de seu pai

Foi em Petrópolis que, em 1942, o escritor e sua mulher foram encontrados abraçados e sem vida. Desiludidos com a II Guerra, eles se suicidaram ingerindo uma quantidade elevada de barbitúricos.

Além de seus livros mais conhecidos, entre eles Medo e outras histórias e 24 horas na vida de uma mulher (Coleção L&PM Pocket), Zweig deixou um legado que inclui traduções, ficções, teatro, poemas e ensaios biográficos de gente como Paul Verlaine, Rimbaud, Romain Rolland, Freud, Casanova, Stendhal, Tolstói, Américo Vespúcio e Maria Antonieta.

Brasil do futuro do passado: Stefan Zweig ao lado de Getúlio Vargas