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Operação Condor: um relato corajoso e necessário

terça-feira, 6 novembro 2012

Por Amanda Zulke*

Em mais um final de ano, como uma espécie de ritual, ganhei da minha mãe um grande livro. Conhecedora que é dos meus gostos, ela me presenteou, na virada de 2009 para 2010, com o livro Operação Condor: o sequestro dos uruguaios da L&PM Editores. Como jornalista, já admirava o trabalho e a coragem do autor, Luiz Cláudio Cunha, jornalista brasileiro dos mais valorosos; como militante de esquerda, aguardava ansiosa para ler esse que prometia ser um relato fiel e visceral de uma das tantas operações militares que esmagou os direitos humanos durante pesadas ditaduras na América do Sul.

Não me enganei. Cunha, que foi testemunha viva do sequestro de Lílian Celiberti e Universindo Diaz pelos órgãos de repressão uruguaios no Brasil, em 1978, em Porto Alegre, concebeu um dos melhores livros-reportagem dos últimos anos. À época, ele trabalhava na sucursal da revista Veja no Rio Grande do Sul e, alertado por um telefonema anônimo, foi conduzido com o fotógrafo J.B. Scalco até o apartamento em que militares uruguaios e policiais brasileiros mantinham escondido o casal. Pela primeira vez no continente, jornalistas testemunhavam a Condor em pleno vôo.

Luiz Cláudio Cunha cumpriu uma honesta e difícil missão como jornalista: contou a história do sequestro de um casal e seus dois filhos pelas forças repressoras, reconstruiu aqueles tempos duros de ditadura militar e, mais do que isso, com as reportagens conseguiu que as vidas de Diaz e de Lilian fossem poupadas. São os dois únicos casos conhecidos de pessoas sequestradas na Operação Condor que ficaram vivas.

Para quem, como eu, não viveu a escuridão da ditadura, mas acredita na máxima de que para entender o presente é preciso reconhecer o passado, Operação Condor é um livro necessário. Uma obra-prima que revela em detalhes a face cruel de uma época, onde ter voz era permitido apenas a quem tinha poder. Em 2008, o fatídico seqüestro completou 30 anos. Universindo Diaz morreu de câncer em setembro de 2012. No mesmo mês, Cunha foi convidado pela presidenta Dilma Roussef a integrar a Comissão Nacional da Verdade. E a luta para que o país possa reparar erros históricos continua…

* Toda semana, a Série “Relembrando um grande livro” traz um texto assinado em que grandes livros são (re)lembrados. Livros imperdíveis e inesquecíveis.

21. Nós e o SNI (Serviço Nacional de Informações)

terça-feira, 29 março 2011

Por Ivan Pinheiro Machado*

O Luis Claúdio Cunha, combativo jornalista e autor do clássico “Operação condor: o sequestro dos uruguaios” (L&PM, 2009) me alertou no ano passado (2010) que a Casa Civil da Presidência da República estava disponibilizando, para qualquer cidadão brasileiro, sua ficha (se houvesse) junto aos órgãos de segurança durante o período da Ditadura Militar (1964-1985). Embora eu jamais tenha me considerado um perigoso subversivo, por curiosidade, solicitei formalmente ao Gabinete da Presidência da República a minha “folha corrida” nos órgãos de segurança e repressão da ditadura militar..

Sinceramente, achava que receberia uma resposta tipo “nada consta”. Eis que, poucos dias depois, aterrissou na minha mesa um envelope pardo enviado por Sedex, cujo remetente era “Casa Civil da Presidência da República”, com brasão e tudo. Abri o envelope. Havia termos de responsabilidade, confidencialidade, etc, e um aviso dizendo que aquilo era um resumo de cada registro em meu nome, junto ao Serviço Nacional de Informações (SNI), no período entre 1974 e 1985. Caso eu desejasse as informações detalhadas, teria de fazer nova solicitação. As informações resumidas, com o número de cada “ocorrência”, compreendiam umas dez páginas, com mais de 30 registros. Muitas delas me ligavam ao meu pai e ao Paulo Lima, meu sócio até hoje, e ao jornalista Mario Lima, pai do Paulo, todos nós descritos como perigosos subversivos. Registravam os livros ditos “perigosos para o regime” que lançávamos e incluía como fato altamente subversivo, uma jornalzinho de humor, o “Risco”, que editávamos no início da década de 80. Há registros tais como “Ivan Gomes Pinheiro Machado chegou em Frankfurt, Alemanha, em 14 de outubro de 1976. Em 18 de outubro já estava em Londres, Inglaterra, hospedado na casa de Douglas Aguiar… Em seguida foi para Lisboa onde participou de reuniões com grupos de exilados e elementos anti-regime liderados por Josué Guimarães, Fernando Gasparian…” e por aí vai.  Havia menções  também a conversas com o “perigoso subversivo Flavio Koutzii, recém chegado da Argentina”. Os registros do SNI descreviam minuciosamente os nossos passos quando ciceroneamos em Porto Alegre Luis Carlos Prestes, na sua volta do exílio. Prestes era amigo e antigo companheiro de partido do meu pai. Enfim, havia nos resumos cifrados, numerados e carimbados, outros detalhes da minha vida na década de 70 de que eu até já havia esquecido. Li atentamente tudo aquilo e fiquei pensando, pensando. A gente era permanentemente espionado e não sabia. Ou melhor, suspeitávamos que éramos espionados, mas isto sempre se punha na conta da paranóia geral daqueles tempos. “Cuidado com o telefone!”, ou “Não fala alto que o fulano é do DOPS…”. Por outro lado, ingenuamente, não nos achávamos importantes para os órgãos de informação. Quando houve a primeira apreensão de livros por motivos políticos, nos demos conta de que nossa atividade era de risco; aqueles que faziam livros, para uma ditadura, eram mais perigosos do que os criminosos comuns.

Charge de Santiago que está no livro “Retroscópio” (L&PM, 2010)

Lembro até de uma frase do Millôr Fernandes, sobre aqueles tempos sombrios: “Nós temos muita importância para sermos presos e nenhuma importância para sermos soltos…”. Era bem isso. Hoje se vê; quanto dinheiro eles gastavam para espionar os cidadãos! Estabelecer conexões para xeretear a viagem de um menino de 23 anos em Frankfurt, Londres, Lisboa! Os documentos oficiais que me chegaram às mãos comprovam como uma ditadura é burra, insensível e dispendiosa. Deu pra ver que tínhamos, sim, razões para ter medo. E deu também para chegar a uma melancólica conclusão sobre a natureza humana. Há, nestas dezenas de folhas que eu recebi da Casa Civil, informações quase íntimas, que faz supor que o inimigo/informante, se não estava ao lado, estava muito próximo e muitas vezes, quem sabe, sentado na nossa mesa no bar…

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