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32. Atravessando o Brasil de Fusca para fazer uma editora nacional

terça-feira, 14 junho 2011

Por Ivan Pinheiro Machado*

Quando fizemos a L&PM e lançamos nosso primeiro livro, o “Rango 1”  do Edgar Vasques, decidimos que ela não seria uma “editora gaúcha”, mas uma editora brasileira. Portanto, precisávamos apresentá-la ao Brasil. Isto na prática significava levar o primeiro livro em mãos para os principais jornais do centro do país. O jornalista Mario de Almeida Lima, pai do Paulo, o “L” da L&PM, era diretor da sucursal do “Estadão” em Porto Alegre e preparou-nos uma lista de jornais e jornalistas importantes de Florianópolis, Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro. Para alguns editores amigos, o Mario Lima fez uma carta de apresentação.

Não tínhamos dinheiro para fazer este périplo de avião. Naqueles tempos ancestrais, você pagava para ir de Porto Alegre ao Rio o mesmo que hoje se paga para ir a Paris… O Lima tinha um Fusca 1971 (estávamos em 1975) e eu tinha um Puma conversível quase Zero km. Os pneus do carro do Lima estavam completamente “carecas” e no Puma (um esportivo de dois lugares) não cabiam as caixas de livros e a nossa bagagem. A solução foi tirar as rodas do Puma, colocar no Fusca (era a mesma bitola) e enfrentar a velha BR-116 rumo ao Rio de Janeiro com escala em outras capitais. Tudo ocorreu conforme o planejado. Fomos aos principais jornais de Floripa e Curitiba, e em São Paulo conseguimos uma matéria de meia página no Estadão extremamente elogiosa sobre o “Rango 1”, primeiro e – até então – único lançamento da L&PM. E foi com o Estadão embaixo do braço que fomos para o Rio. Primeiro visitamos o grande jornal da época, o Jornal do Brasil, editado pelo gaúcho Raul Riff e depois O Globo. Em ambos os jornais o “Rango 1” obteve resenhas consagradoras – e este seria o primeiro passo para que Edgar Vasques se tornasse colaborador do famoso O Pasquim.

Foi aí então que resolvemos ligar para o célebre Ziraldo, na tentativa de que ele nos recebesse. Ele foi muito simpático e marcou um encontro conosco às 13 horas no restaurante de um hotel à beira mar em Copacabana, pois morava ali perto. O Lima e eu ficamos excitadíssimos. Íamos conhecer o grande Ziraldo!… Chegamos no velho prédio do Ouro Verde Hotel, subimos para o restaurante e ficamos ao mesmo tempo impressionados e preocupados. Na sala de espera do restaurante, decorada em pesados lambris de mogno e velhas gravuras inglesas, o embaixador Walther Moreira Salles lia o “Le Fígaro”. Mais tarde ficamos sabendo que a revista americana Fortune, havia incluído o restaurante do Ouro Verde entre os “10 melhores pequenos restaurantes do mundo”… Ziraldo já nos aguardava numa mesa diante de um geladíssimo vinho branco português. Nos apresentamos e começamos uma ótima conversa. Como sempre, Ziraldo foi muito simpático. E do alto da sua celebridade tratou os dois jovens desconhecidos muito bem. Apresentamos o projeto de um “Álbum do bebê”, utilizando os personagens da turma do Pererê, personagem desenhado por ele. Ziraldo achou ótimo, conversamos bastante e então pedimos o almoço. Ou melhor, o Lima e eu, apavorados com os preços, optamos pela saladinha mais barata.

O Ouro Verde Hotel, na Avenida Atlântica em Copacabana, palco de um célebre encontro com Ziraldo

O resumo desta história é o seguinte: o papo foi sensacional, comemos, bebemos, até que chegou a conta. Para os nossos modestíssimos recursos, era um valor astronômico. O Lima e eu nos preparávamos para rachar o prejuízo quando o Ziraldo magnanimamente disse: “Não! Esta conta é comigo!!”. O imenso alívio que tomou conta de nós, no entanto, durou pouco. Ele começou a apalpar os bolsos insistentemente até que disse: “Xiiiiii! Acho que esqueci a carteira em casa… então paguem vocês”.

Íamos ficar mais uma semana no Rio de Janeiro, curtindo as lendárias noites do Baixo Leblon, no “Luna Bar”, “Diagonal”, Pizzaria Guanabara” etc. Mas no outro dia, na madrugada, contrariando nossos planos, estávamos já na estrada. Depois de pago o almoço do Ouro Verde, mal sobrou para alguns sanduíches e a gasolina da viagem. As aventuras no Baixo Leblon ficariam para uma próxima oportunidade.

*Toda terça-feira, o editor Ivan Pinheiro Machado resgata histórias que aconteceram em mais de três décadas de L&PM. Este é o trigésimo segundo post da Série “Era uma vez… uma editora“.

21. Nós e o SNI (Serviço Nacional de Informações)

terça-feira, 29 março 2011

Por Ivan Pinheiro Machado*

O Luis Claúdio Cunha, combativo jornalista e autor do clássico “Operação condor: o sequestro dos uruguaios” (L&PM, 2009) me alertou no ano passado (2010) que a Casa Civil da Presidência da República estava disponibilizando, para qualquer cidadão brasileiro, sua ficha (se houvesse) junto aos órgãos de segurança durante o período da Ditadura Militar (1964-1985). Embora eu jamais tenha me considerado um perigoso subversivo, por curiosidade, solicitei formalmente ao Gabinete da Presidência da República a minha “folha corrida” nos órgãos de segurança e repressão da ditadura militar..

Sinceramente, achava que receberia uma resposta tipo “nada consta”. Eis que, poucos dias depois, aterrissou na minha mesa um envelope pardo enviado por Sedex, cujo remetente era “Casa Civil da Presidência da República”, com brasão e tudo. Abri o envelope. Havia termos de responsabilidade, confidencialidade, etc, e um aviso dizendo que aquilo era um resumo de cada registro em meu nome, junto ao Serviço Nacional de Informações (SNI), no período entre 1974 e 1985. Caso eu desejasse as informações detalhadas, teria de fazer nova solicitação. As informações resumidas, com o número de cada “ocorrência”, compreendiam umas dez páginas, com mais de 30 registros. Muitas delas me ligavam ao meu pai e ao Paulo Lima, meu sócio até hoje, e ao jornalista Mario Lima, pai do Paulo, todos nós descritos como perigosos subversivos. Registravam os livros ditos “perigosos para o regime” que lançávamos e incluía como fato altamente subversivo, uma jornalzinho de humor, o “Risco”, que editávamos no início da década de 80. Há registros tais como “Ivan Gomes Pinheiro Machado chegou em Frankfurt, Alemanha, em 14 de outubro de 1976. Em 18 de outubro já estava em Londres, Inglaterra, hospedado na casa de Douglas Aguiar… Em seguida foi para Lisboa onde participou de reuniões com grupos de exilados e elementos anti-regime liderados por Josué Guimarães, Fernando Gasparian…” e por aí vai.  Havia menções  também a conversas com o “perigoso subversivo Flavio Koutzii, recém chegado da Argentina”. Os registros do SNI descreviam minuciosamente os nossos passos quando ciceroneamos em Porto Alegre Luis Carlos Prestes, na sua volta do exílio. Prestes era amigo e antigo companheiro de partido do meu pai. Enfim, havia nos resumos cifrados, numerados e carimbados, outros detalhes da minha vida na década de 70 de que eu até já havia esquecido. Li atentamente tudo aquilo e fiquei pensando, pensando. A gente era permanentemente espionado e não sabia. Ou melhor, suspeitávamos que éramos espionados, mas isto sempre se punha na conta da paranóia geral daqueles tempos. “Cuidado com o telefone!”, ou “Não fala alto que o fulano é do DOPS…”. Por outro lado, ingenuamente, não nos achávamos importantes para os órgãos de informação. Quando houve a primeira apreensão de livros por motivos políticos, nos demos conta de que nossa atividade era de risco; aqueles que faziam livros, para uma ditadura, eram mais perigosos do que os criminosos comuns.

Charge de Santiago que está no livro “Retroscópio” (L&PM, 2010)

Lembro até de uma frase do Millôr Fernandes, sobre aqueles tempos sombrios: “Nós temos muita importância para sermos presos e nenhuma importância para sermos soltos…”. Era bem isso. Hoje se vê; quanto dinheiro eles gastavam para espionar os cidadãos! Estabelecer conexões para xeretear a viagem de um menino de 23 anos em Frankfurt, Londres, Lisboa! Os documentos oficiais que me chegaram às mãos comprovam como uma ditadura é burra, insensível e dispendiosa. Deu pra ver que tínhamos, sim, razões para ter medo. E deu também para chegar a uma melancólica conclusão sobre a natureza humana. Há, nestas dezenas de folhas que eu recebi da Casa Civil, informações quase íntimas, que faz supor que o inimigo/informante, se não estava ao lado, estava muito próximo e muitas vezes, quem sabe, sentado na nossa mesa no bar…

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