Viajar é preciso

Angélica Seguí*

Andar pelo mundo afora deveria ser lei. O governo, depois de deixar tudo em ordem, deveria disponibilizar uma cota dos nossos impostos pagos para que, pelo menos uma vez na vida, o cidadão pudesse viajar para um lugar bem longe de seu país. Muitos dizem que já não precisam viajar. Temos o Google Earth, os programas de transmissão via satélite em real time, fotos de anônimos quase tão boas como o velho Sebastião Salgado. Os hiperconectados que me desculpem. Viajar é preciso. E não sou apenas eu quem diz. No livro Teoria da viagem: poética da geografia,  Michael Onfray – pensador francês, autor de diversos livros de divulgação de filosofia – questiona, entre outras coisas, se o conceito de viagem ainda faz sentido. Eu digo: faz. E faz muito. Na mala apenas um par de roupas, a velha e surrada botina de caminhadas e um livro.
Viajando pela internet você não vai andar numa kombi modelo 1978 – caindo aos pedaços- com outros quinze trabalhadores peruanos, nem será salvo de um possível assalto por uma norueguesa em plena La Paz. Possivelmente também nunca viverá a emoção de encontrar um amigo por acaso no meio da multidão das ruas de uma grande metrópole. Não mesmo. Há coisas que só uma viagem faz por você: experimentar a cultura, enriquecer a mente, tentar comunicar-se em outro idioma ou simplesmente se deixar levar pela deriva.
Onfray diz ainda: “Nós mesmos, eis a grande questão da viagem. Nós mesmos e nada mais. Ou pouco mais. Certamente há muitos pretextos, ocasiões e justificativas, mas em realidade só pegamos a estrada movidos pelo desejo de partir em nossa própria busca com o propósito, muito hipotético, de nos reencontrarmos ou, quem sabe, de nos encontrarmos. A volta ao planeta nem sempre é suficiente para obter esse encontro. Tampouco uma existência inteira, às vezes. Quantos desvios, e por quantos lugares, antes de nos sabermos em presença do que levanta um pouco o véu do ser!”

Se você um dia se perdeu, se um dia precisou se encontrar, se precisou apenas sair do lugar… então viaje! Viaje sempre e sem parar! Se ainda está em dúvida, assista ao vídeo do artista norteamericano Matt Daniels. Ele reuniu imagens e sons de suas viagens pela América Central, Europa e Nova Zelandia. É emocionante.

* Jornalista e blogueira

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