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“Terror cultural”: a perseguição a editores e livreiros na ditadura

terça-feira, 25 março 2014

O jornal O Globo publicou, em sua edição de sábado, dia 22 de março de 2014, uma matéria sobre a perseguição a editoras e livreiros durante a ditadura militar e cita a apreensão do livro de memórias do general Olympio Mourão Filho, editado pela L&PM e apreendido ainda na gráfica, em 1978:

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Ivan Pinheiro Machado (à esq.) e Paulo Lima, da L&PM, em 1978: livro de Mourão Filho foi apreendido na gráfica

(…)

Fundada justamente em 1974, a L&PM, sediada em Porto Alegre, estreou com um livro que já testava os limites da anunciada abertura política. Era uma coletânea de quadrinhos do personagem Rango, anti-herói miserável criado pelo cartunista Edgar Vasques que ironizava o discurso grandiloquente do “milagre brasileiro”. O livro vendeu 12 mil exemplares em poucos meses e rendeu ao editor Ivan Pinheiro Machado uma visita à delegacia para explicar as piadas com símbolos pátrios.

Assim como outras editoras perseguidas, a casa gaúcha sofria apreensões de livros e tinha crédito negado em bancos (num deles, Ivan ouviu do gerente que “o coronel ligou para cá e disse: L&PM não!”). Mas sobrevivia publicando livros de políticos da oposição, como Paulo Brossard e Pedro Simon, literatura nacional e estrangeira e antologias de humor com autores como Millôr Fernandes, Luis Fernando Verissimo, os irmãos Caruso e Angeli, entre outros. O lançamento mais conturbado foi “A verdade de um revolucionário”, livro de memórias do general Olympio Mourão Filho, um dos artífices do golpe de 1964. Morto em 1972, Mourão deixou uma obra em que dava sua versão dos eventos e criticava figuras proeminentes do regime. O livro foi apreendido ainda na gráfica, em 1978, e só foi publicado no ano seguinte, depois de uma longa disputa judicial.

— Acho que foi a última apreensão de livros da história do Brasil, até chegar o Roberto Carlos… — ironiza Ivan, relembrando o início turbulento da editora, que este ano completa 40 anos. — Éramos jovens e tínhamos um idealismo, uma revolta contra aquela situação. Lembro que o Darcy Ribeiro uma vez me disse: “Mas você é editor, numa época dessas? É por isso que o mundo vai para frente, por causa da insciência da juventude!”

Para ler a matéria na íntegra, clique na imagem abaixo para ampliar o fac-símile ou clique aqui para ler o texto na versão online.

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14. “O Ballet proibido”

terça-feira, 8 fevereiro 2011

Por Ivan Pinheiro Machado*

Quando eu era criança, lá nos anos 60, meu pai falava em Getúlio Vargas, Estado Novo, e para nós parecia que eram coisas passadas no período Paleolítico, há milhares de anos. Ele falava como se as coisas tivessem acontecido… ontem. No entanto, menos de uma década nos separava do suicídio de Vargas e da ditadura do Estado Novo. Eu imagino que você, que é jovem há menos tempo do que nós, tenha esta mesma sensação quando falo aqui neste blog sobre a ditadura militar. Perdoe-me, mas é impossível falar sobre o começo da L&PM sem falar da pré-história, como por exemplo, na ditadura implantada em março de 1964. Pois ela marcou nossa vida e nos perseguiu por mais de 10 anos, de 1974 quando foi fundada a editora até 1985 com o fim do governo do General Figueiredo.

As ditaduras alternam burrice e crueldade ou praticam as duas coisas ao mesmo tempo. Nós desafiamos a ditadura várias vezes. Claro que tínhamos medo, mas éramos muito jovens e não medíamos muito bem as consequências. E houve várias.

Em 1976, publicamos um livro que revelava de forma quase didática a face burra e totalitária da ditadura, “O Ballet Proibido”, do então senador pelo Rio Grande do Sul Paulo Brossard de Souza Pinto. Neste livro foi reproduzido o discurso do senador Brossard no plenário do Congresso, onde ele protestava contra a proibição da transmissão de uma apresentação do Ballet Bolshoi pela TV Globo. O Bolshoi, a mais famosa companhia de ballet do mundo, completava 200 anos e encenaria “Romeu e Julieta”. Uma superprodução liderada pela BBC de Londres, CBS americana e a Teleglob alemã enviaria para 112 países o grande espetáculo protagonizado por 300 bailarinos. Pois a TV Globo anunciou durante semanas o grande evento e, um dia antes, recebeu um comunicado da Censura Federal assinado por um coronel (assinatura ilegível) proibindo terminantemente a transmissão do acontecimento, considerado “subversivo”.

Para que você entenda a lógica dos milicos: o Bolshoi era um ballet russo e a Rússia fazia parte da então União Soviética, cujo regime era comunista; portanto era uma apresentação comunista. O governo proibiu a TV Globo de transmitir e, pior, proibiu a TV Globo de divulgar que tinha sido proibida a transmissão. Quando milhares de pessoas sentavam-se em frente a TV para assistir o melhor ballet do planeta, simplesmente, sem explicação nenhuma, entrou uma comédia holywoodiana de segunda ou terceira categoria.

Brossard ocupou a tribuna do Senado dias depois e incendiou o plenário com um discurso inflamado denunciando o fato patético da censura. Pela primeira vez, o Brasil ficava sabendo que a ditadura havia proibido o ballet e proibido a TV de dizer que o ballet estava proibido. Numa passagem de seu discurso ele diz ironicamente:

(…)“O Ballet Bolshoi, sabem os menos incultos é uma respeitável e secular instrumentação internacional de dança. É tão marxista quanto o seria Leon Tolstoi, e o germe da subversão comunista está presente nos compassos de sua dança como poderia estar vivo nas barbas do Czar Nicolau II. Sem medo de exagero, pode-se garantir que ele é tão soviético, quanto Shakespeare é inglês. Quer dizer: trata-se de um patrimônio cultural da humanidade que não pode ser aprisionado pelo realismo socialista lucakseano nem vai deixar de falar a linguagem universal da dança por vontade de  uma política, seja a nossa tropical, seja a temperada nas estepes da União Soviética”(…)

A L&PM publicou este discurso, juntamente com outros igualmente irreverentes e críticos do senador Brossard, menos de um mês depois de proferido. E quando foi aventada a hipótese de aprender o livro, nos agarramos a um eufemismo legal. O discurso estava já oficializado nos anais do Senado da República, portanto seria um grande escândalo proibir a manifestação de um senador que já havia se tornado pública por constar dos anais… Hoje é quase um delírio imaginarmos que um livro de discursos seria a única forma de contestar os atos de um governo. “O Ballet Proibido” tornou-se um clássico, pois representa magnificamente este período em que nós, editores, publicávamos livros como único meio de criticar o poder. E este desafio à truculência do governo transformou “O Ballet Proibido” em um Best-seller a ponto de encabeçar por várias semanas a lista dos mais vendidos da revista Veja.

*Toda terça-feira, o editor Ivan Pinheiro Machado resgata histórias que aconteceram em mais de três décadas de L&PM. Este é o décimo quarto post da Série “Era uma vez… uma editora“.