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Dia de lembrar, homenagear e ler Caio Fernando Abreu

quarta-feira, 12 setembro 2018

Caio Fernando Abreu nasceu em 12 de setembro de 1948. Estaria completando 70 anos hoje. Seus textos, às vezes crus, outras vezes extremamente poéticos, seguem encantando, emocionando, fazendo vibrar. Sua obra é considerada tão marcante que até o Google está prestando sua homenagem:

CAIO DUDDLE

Para marcar a data postamos aqui um trecho do livro O ovo apunhalado que traz 21 contos que como diz Lygia Fagundes Telles no prefácio são “inseparáveis na sua alquimia profunda”.

 antes que tentes aviso que já disse tudo não sou nada além de meu nome meu nome é minha essência mais profunda assim como a tua talvez seja a que vivas no momento talvez sejas além destas paredes descascadas destes móveis poucos esta bacia de louça naquele canto mas não te julgo pelo que vejo em ti externamente não julgo a ninguém nem a mim mesmo vim duma coisa que ainda não conheces vim duma coisa enorme da escuridão e de luz mais absolutas que possas imaginar a um só tempo vim duma coisa sem medo mas não sabes que trago em mim o princípio e o fim de todas as coisas

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Dia de lembrar Caio Fernando Abreu

quinta-feira, 12 setembro 2013

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Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê.

(Página inicial de O ovo apunhalado, de Caio Fernando Abreu)

Caio Fernando Abreu nasceu em 12 de setembro de 1948.

 

Dia de Caio Fernando Abreu

quarta-feira, 12 setembro 2012
Sempre é terrível para um escritor revisar seu próprio texto. Escrito às vezes num jorro de emoção, sem interrupções nem autocrítica, muitos anos depois corre-se o risco de rejeitar o filho crescido, independente, talvez feio, deformado. Perdão e amor, então, são os únicos sentimentos capazes de atenuar a crítica que, inevitavelmente impiedosa, não deverá jamais ser estéril ou esterilizante.

Assim Caio Fernando Abreu abre o livro Triângulo das águas que, em 1984, lhe rendeu o prestigiado Prêmio Jabuti.

De todos os meus livros, Triângulo das águas é certamente o mais atípico. Eu simplesmente posso dizer que não o escrevi: fui escrito por ele. Ao contrário de todos os outros, não seguiu nenhum seguro plano prévio. Eu simplesmente não sabia ao certo o que queria dizer ou contar. Para saber, foi preciso aceitar escrevê-lo como pedia, foi preciso abandonar temporariamente São Paulo para viver um ano num quarto de hotel em Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Ele exigia liberdade, solidão, desprendimento, descobri depois.

Caio nasceu em Santiago do Boqueirão, cidade do Rio Grande do Sul quase na fronteira com a Argentina. Chegou na manhã de 12 de setembro de 1948, em casa, pelas mãos de uma parteira, filho mais velho de Zaél Menezes de Abreu e Nair Loureiro de Abreu. Cresceu nessa cidadezinha com ruas de chão batido, pomar no quintal, animais soltos. Ele mesmo contava que havia começado a escrever ficção aos 6 anos, estimulado pela avó que era professora de português. Morreu precocemente em 25 de fevereiro aos 1996 aos 47 anos. Deixou muitas histórias e uma imensa saudade. Feliz Aniversário Caio!

Caio Fernando Abreu (à direita) aos sete anos e seu irmão José. Nessa época, ele já escrevia ficção.

Além de Triângulo das águas, a Coleção L&PM Pocket publica O ovo apunhalado, Ovelhas negras e também Fragmentos, uma coletânea de contos que traz um texto inédito, cedido por seu amigo Luciano Alabarse.

Os 63 anos de Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 12 setembro 2011

Parece exagero, mas eu comecei a escrever ficção com 6 anos de idade, assim que aprendi a ler e escrever. As coisas foram indo devagar. Eu nasci no interior e minha avó, que era professora de português no colégio estadual, me estimulava muito. Minha mãe era professora de história, tinha muito livro em casa, e eu comecei a escrever de uma forma um pouco inconsistente, intuitiva mesmo. Logo comecei a inventar as minhas historinhas: minha primeira heroína foi Lili Terremoto, uma menina da pá virada. Não parei mais. Eu não sabia muito bem o que estava fazendo. Acho que não me passava pela cabeça que livros fossem escritos por escritores. Não sabia que queria ser escritor. Depois, eu comecei a ir por esse caminho, li muito Monteiro Lobato, li As mil e uma noites, e atacava a biblioteca do meu pai às escondidas: as coisas que ele me proibia de ler eram justamente as que eu lia. (Caio Fernando Abreu em seu diário, texto publicado no livro Para sempre teu, Caio F. de Paula Dipp, ed. Record) 

12 de setembro de 1949: o aniversário de um aninho de Caio Fernando que aqui aparece no colo do pai e ao lado da mãe

Caio Fernando Abreu nasceu no dia 12 de setembro de 1948 na cidade gaúcha de Santiago do Boqueirão. Menino de cidade pequena, cresceu ouvindo as músicas do rádio do avô, trilhas sonoras de partir o coração nas vozes de Carlos Gardel e Liberdad Lamarque. Sua infância teve os pés na terra batida, as mãos nas frutas do quintal, os olhos abertos como os das suas duas corujas de estimação. 

Pena que, como os pássaros de sua infância, ele tenha voado tão cedo pra longe de nós… Saudades de Caio…

De Caio Fernando Abreu, a L&PM publica Fragmentos, O ovo apunhalado, Triângulo das águas e Ovelhas negras.

Os contos de Caio Fernando Abreu, por Lygia Fagundes Telles

quarta-feira, 1 junho 2011

O que me inquieta e fascina nos contos de Caio Fernando Abreu é essa loucura lúcida, essa magia de encantador de serpentes que, despojado e limpo, vai tocando sua flauta e as pessoas vão-se aproximando de todo aquele ritual aparentemente simples, mas terrível porque revelador de um denso mundo de sofrimento. De piedade. De amor.

Mundo de uma desesperada busca, onde as palavras se procuram no escuro e no silêncio como mãos que raramente (tão raramente, meu Deus) se encontram e se separam em meio do vazio. Da solidão. “O pensamento verte sangue” diz o poeta. É desse sangue que essas páginas ficam impregnadas – mas tão disfarçadamente, tão ambiguamente: por pudor, talvez, Caio Fernando Abreu disfarça, escamoteia através das personagens (sempre anti-heróis) a “dor que deveras sente” . O medo, a perplexidade, a cólera, a ironia, o fervor – o sentimento do homem caça e caçador é redescoberto neste corpo a corpo de criador e criação. Sim, suas personagens são os antiheróis, mas com eles Caio não constrói o anticonto tão ao gosto de seus companheiros de geração. Revolucionário sempre. Original sempre, mas sem se preocupar com modismos (importados ou não) que tentam impressionar um público que, de resto, já não se impressiona com nada. Ele não escreve o antitexto, mas O TEXTO que reabilita e renova o gênero. Caio Fernando Abreu assume a emoção.

Emoção esta que é vertida para uma linguagem que em alguns momentos atinge a rara plenitude próxima de um estado de graça. Linguagem que o coloca na família dos possessos (que já nos deu um Van Gogh, um Dostoievski, um Orson Welles), cultivadores não só da “paixão da linguagem”, na expressão de Octavio Paz, mas também da “linguagem da paixão”.

Gostaria de destacar aqui os contos que mais amei deste singular livro do moço gaúcho que um dia me escreveu numa carta: “Os crepúsculos têm sido lindos. Passei o melhor verão da minha vida, ganhei um gatinho chamado Saturno (ele é Capricórnio), amei muito, fiz ioga à beira-mar. Enfim, tenho agradecido por estar vivo e ter andado por todos os lugares onde andei e ter vivido tudo o que vivi e ser exatamente como sou”.

Apontar este ou aquele conto? Mas se vejo cada um dos textos que formam O ovo apunhalado como peças de um jogo, destacáveis e curiosamente inseparáveis na sua alquimia mais profunda, cada qual trazendo sua parcela de realidade e sonho, rotina e poética magia – vida e desvida com seu mistério e sua revelação.

Quando nos seminários de literatura os teóricos pedantes acabam por condenar a palavra, minha vontade é simplesmente mostrar-lhes um livro como este. Provar-lhes a atualidade da desacreditada palavra com a própria palavra, quando a serviço de uma técnica rica de recursos. Aliada a uma imaginação cintilante.

Lygia Fagundes Telles – São Paulo, abril de 1975

Texto publicado no Prefácio do livro O ovo apunhalado, de Caio Fernando Abreu – Coleção L&PM POCKET

Caio e Lygia nos anos 1970