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Dorothy Parker e “The Ginger Man”

terça-feira, 6 dezembro 2011

Quatro vivas entusiasmados*

Por Dorothy Parker

J. P. Donleavy, autor do impressionante romance The Ginger Man, nasceu no Brooklyn, cresceu no Bronx, então foi para Dublin e estudou no Trinity College. Ele provavelmente voltou ao seu solo nativo por algum tempo, pois a contracapa de seu romance [McDowell, Obolensky, edição expurgada, 1958] diz que grande parte dele foi escrito no Bronx e em Boston, mas seja lá onde tenha sido, ele o fez com o amor por Dublin no coração e a batida de Dublin na cabeça. Apesar de ter uma lista completa de preferências menos perfeitas do que esse livro – eu penso que muitos dias vão se passar antes de me deparar com algo que chegue perto de brilhar tanto quanto The Ginger Man. Acredito que, quando isso acontecer, terá sido escrito pelo Sr. Donleavy.

A palavra “picaresco” de alguma forma me soa sonolenta, mas acredito que seja necessária agora – todos temos de fazer sacrifícios de vez em quando. Então vamos lá: The Ginger Man é o romance picaresco que faz todos pararem. Vigoroso, violento, loucamente divertido, ele é a malemolência da malandragem, uma clamorosa canção cômica sobre sexo. Um crítico na Inglaterra – onde o livro teve um sucesso surpreendente – o chamou de “uma contribuição inequívoca para o tema dos ‘jovens homens furiosos’”, mas uma nota biográfica explica que o Sr. Donleavy não gosta disso, nem deveria.

Seu livro não é furioso, a menos, é claro, que você queira deslocar seu alcance para o postulado de que comportamentos ultrajantes sejam uma forma de protesto furioso. (Eu entendo, aliás, que todos os chamados jovens homens furiosos se sintam insultados pelo título dado ao grupo. Eu não vejo porque se ressentem disso – certamente se há qualquer geração que tenha o direito de sentir raiva é a deles.) Mas com certeza não há nenhuma indignação na boa e honesta obscenidade; e é inegável que The Ginger Man é o mais obsceno possível. Se há os que se chocam com ele, fico tentada a dizer, “Tudo bem, vá em frente e fique chocado.” Eu acredito, de fato, que eu poderia ceder à tentação e gritar essas devastadoras palavras a qualquer minuto.

Outro crítico inglês diz que o estilo do Sr. Donleavy é uma mistura de Henry Miller e James Joyce –a influência de Joyce eu até posso ver, claro, mas a conexão com Henry Miller é um enigma para mim. (É justo admitir que por muito tempo qualquer coisa relacionada a Henry Miller era um enigma para mim. Mas então um enorme cão, em uma ovação de boas-vindas depois que ficamos separados por apenas um quarto de hora, pulou sobre mim e me jogou pra trás, causando uma concussão. E talvez seja desse choque não premeditado que tenha se originado minha atual cativante inabilidade de lembrar um número de telefone durante o tempo que se passa entre a lista telefônica e o aparelho, efeito que me concedeu visão dupla por alguns dias. E que empreguei para tentar ler novamente as obras do Sr. Miller, prosseguindo sem dificuldades.) Para mim The Ginger Man traz em seu humor absurdo uma leve sugestão de como o Murphy de Samuel Beckett teria sido se o Sr. Beckett não tivesse se enrolado em uma escrita elaborada, ou talvez traga de forma nebulosa à memória o ótimo romance de Joyce Cary, The Horse’s Mouth, apesar do Sabastian Dangerfield do Sr. Donleavy fazer o patife de Joyce Cary ficar parecendo o queridinho do professor. Mas isso é exagero da minha parte. No que se refere ao estilo e ao tema do livro do Sr. Donleavy, temos que tirar o chapéu para ninguém menos do que o Sr. Donleavy.

*Dorothy Parker escreveu esta resenha, entitulada “Four rousing cheers” em julho de 1958 para a Revista Esquire. Tentamos traduzí-lo mantendo a sonoridade, mas, para quem lê em inglês, vale clicar aqui e dar uma olhada no original, repleto de jogos de palavras e aliterações. The Ginger Man acaba de chegar à Coleção L&PM POCKET com o título de Um safado em Dublin.

Um obsceno e apaixonante safado em Dublin

sexta-feira, 11 novembro 2011

Há cinquenta e sete anos atrás, no verão de 1954, J.P. Donleavy escreveu a carta que iria determinar o rumo da sua vida. O destinatário era Maurice Girodias, dono da editora Olympia Press, em Paris. “Caro senhor, eu tenho o manuscrito de um romance em inglês chamado Sebastian Dangerfield“. O livro, que seria renomeado como The Ginger Man, já havia sido rejeitado por mais de 30 editoras, em parte devido à sua narrativa considerada desconcertante, de conteúdo erótico e irreverente. “A obscenidade é uma parte muito importante desta novela”, alertou o autor em sua carta. Mas ele teve o cuidado de acrescentar que “partes já haviam sido publicadas no Manchester Guardian“.

Em meados de 1954, as publicações da Olympia Press incluiam autores que íam de Samuel Beckett a Jean Genet, passando por obras clássicas da literatura erótica como Fanny Hill e romances de Apollinaire e Bataille, todos em inglês. Na época, Girodias foi considerado um editor de livros de qualidade literária duvidosa (apesar de ter publicado, na Olympia, Lolita de Vladimir Nabokov), mas que não chegavam a ser vistos como pornografia barata. No entanto, este era o gênero que estava prestes a se tornar a especialidade de Girodias.

A Olympia Press comprou o romance de Donleavy por 250 libras, recebido pelo escritor em dinheiro e entregue por um intermediário em uma livraria do Soho. Só que, sem avisá-lo, Girodias incluiu The Ginger Man em uma coleção de livros literalmente pornográficos (tipo baixo nível) cujos títulos vinham anunciados na contracapa de The Ginger Man. “Quando eu descobri que meu romance tinha sido publicado nesta série pornográfica, eu percebi que ele nunca teria qualquer reputação, que meu livro nunca existiria de verdade, que ele seria apenas um pedaço de pornografia. Que eu jamais receberia nenhuma crítica. Foi um total pesadelo.” disse Donleavy ao jornal britânico The Guardian quando The Ginger Man completou 50 anos.

A capa da primeira edição de "The Ginger Man", da Olympia Press

Ao receber seus primeiros exemplares, Donleavy bateu com o punho cerrado na capa do livro e jurou que iria resgatar e vingar seu trabalho. Ele imediatamente tirou o livro da Olimpya Press foi processado por quebra de contrato. Vieram então vinte anos de litígio que terminou com Donleavy não apenas vencendo o processo como virando dono da Olympia Press.

Donleavy, que nasceu em Nova York no ano de 1926, mudou-se para a Irlanda depois da II Guerra Mundial e até hoje mora em uma fazenda em Levington Park, há 50 milhas de Dublin, onde continua escrevendo sempre à mão. The Ginger Man chegou a ser censurado – e banido nos EUA e na Irlanda – por ser considerado obsceno, mas hoje está na lista das 100 melhores novelas da Modern Library. O personagem principal de Donleavy, o fascinante canalha Sebastian Dangerfield, foi inspirado em um amigo americano do escritor: Gainor Stephen Crist. Crist teria morrido a caminho da América do Sul em 1964 e, aparentemente, uma cruz marca seu túmulo em Santa Cruz de Tenerife, nas Ilhas Canárias. Mas para Donleavy seu desaparecimento ainda é um “grande mistério”.

Em 2005, Donleavy encontrou-se pela primeira vez com Johnny Depp para conversar sobre uma possível adaptação do livro e, a partir de então, Depp visitou o escritor algumas. Mesmo assim, não há nenhuma notícia confirmada de que o filme realmente sairá, apesar da vontade de ambos. O ator, aliás, disse que The Ginger Man é um grande livro pelo qual é apaixonado.

J. P. Donleavy num bom papo com Johnny Depp

Para finalizar, fica aqui a boa notícia: The Ginger Man acaba de sair na Coleção L&PM Pocket com o nome de Um safado em Dublin e semana que vem começa a chegar nos pontos de venda. Para saber mais sobre ele, leia um texto escrito pelo editor Ivan Pinheiro Machado (que como Johnny Depp é apaixonado por The Ginger Man).