Posts Tagged ‘Florbela Espanca’

A poeta portuguesa que nasceu, casou e morreu no mesmo dia

terça-feira, 8 dezembro 2015

Florbela Espanca, com dezenove anos, ao lado do primeiro marido

Florbela Espanca era lírica até no nome. Flertou com a morte em seus poemas, explicitou sua sedutora angústia em versos, consagrou-se postumamente como uma das maiores poetas de língua portuguesa. Em sua biografia, o dia 8 de dezembro aparece três vezes, formando um triângulo de nascimento, amor e morte. Em 8 de dezembro de 1894, Florbela veio ao mundo no Alentejo, em Portugal. Em 8 de dezembro de 1913, a jovem Florbela casou-se pela primeira vez. Em 8 de dezembro de 1930, Florbela optou por dormir e não mais acordar. Apesar de ser amplamente divulgado que seu suicídio foi planejado, essa afirmação ainda gera controvérsias. O sonífero Veronal, que ela tomava diariamente, era perigoso para quem tinha problemas pulmonares e cardíacos, como era seu caso. Associado ao cigarro, que ela fumava sem parar, a situação poderia se agravar. No entanto, a hipótese de premeditação é a mais aceita porque, ao ser encontrada já sem vida em seu quarto, havia sob a cama dois frascos de Veronal completamente vazios. Para completar, poucos dias antes de morrer, “Bela”, como era conhecida, confessou a uma amiga de infância que, se passasse do dia do seu aniversário, morreria velha. O que não aconteceu. Florbela foi-se jovem, com apenas 36 anos. Em seus poemas, deixou claro que a morte era muito mais do que o fim: era a libertação do sofrimento, era um passaporte para o infinito, era a forma de reencontrar o irmão, Apeles, que morrera em um acidente aéreo. Foi após a morte do irmão, aliás, que sua melancolia latejou de forma ainda mais intensa.

 

À MORTE

Morte, minha Senhora Dona Morte,

Tão bom que deve ser o teu abraço!

Lânguido e doce como um doce laço

E como uma raiz, sereno e forte.

Não há mal que não sare ou não conforte

Tua mão que nos guia passo a passo,

Em ti, dentro de ti, no teu regaço

Não há triste destino nem má sorte.

Dona Morte dos dedos de veludo,

Fecha-me os olhos que já viram tudo!

Prende-me as asas que voaram tanto!

Vim da Moirama, sou filha de rei,

Má fada me encantou e aqui fiquei

À tua espera,… quebra-me o encanto!

Em seus poemas e sonetos, Florbela Espanca não explora somente  a morte, mas também o amor e todas as sensações que regem a vida. A L&PM publica, na Coleção L&PM POCKET, todos os seus poemas em dois volumes.

Filme sobre Florbela Espanca chega ao Brasil

sexta-feira, 25 abril 2014

Depois de estrear nos cinemas portugueses em 2012 – e de atingir a marca de filme mais assistido em Portugal naquele ano – “Florbela” finalmente chega ao Brasil na próxima semana.

O filme, baseado na vida de Florbela Espanca, a maior poeta portuguesa de todos os tempos, terá pré-estreia em São Paulo no dia 1º de maio, quinta-feira. A atriz Dalila Carmo, que faz o papel de Florbela, chega a São Paulo neste final de semana para participar do lançamento.  No domingo, 27 de abril, das 18h às 19h, Dalila participar de um sarau na Livraria da Vila do Shopping Higienópolis com leitura de obras da poeta.

Florbela Espanca foi a maior poeta portuguesa de todos os tempos

Florbela Espanca foi a maior poeta portuguesa de todos os tempos

Com versos cheios de erotismo e intimidade, Florbela escandalizou a sociedade do início do século XX. E fez isso não só com sua poesia, mas também pela forma como viveu: com sucessivos casamentos e divórcios, sua maneira ousada de vestir e sua personalidade “forte”.

O filme é centrado numa Portugal atordoada pelo fim da I República, quando Florbela (Dalila Carmo) separa-se de forma violenta de António. Ela então apaixona-se por Mário Lage (Albano Jerónimo) e refugia-se num novo casamento para encontrar estabilidade e escrever, mas a vida de esposa na província não parece combinar com sua alma inquieta. Florbela não consegue escrever, nem amar. Ao receber uma carta do irmão Apeles, oficial da Aviação Naval e de licença em Lisboa, corre em busca de inspiração perto da elite literária que fervilha na capital. Na cumplicidade do irmão aviador, a escritora procura um sopro em cada esquina: amantes, revoltas populares, festas de foxtrot… O marido tenta resgatá-la para o que considera a “normalidade”, mas como dar norte a quem tem sede de infinito? Entre a realidade e o sonho, os poemas surgem quando o tempo pára. Nesse imaginário febril de Florbela, neva dentro de casa, esvoaçam folhas na sala, panteras ganham vida e apenas os seus poemas a mantém sã. Por isso, Florbela tem que escrever…

A Coleção L&PM Pocket publica a obra completa de Florbela Espanca em dois volumes.

 

Fanatismo por Florbela Espanca

sexta-feira, 28 março 2014

FANATISMO

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver.
Não és sequer a razão do meu viver
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No mist’rioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!…

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, digo de rastros:

“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu é como Deus: princípio e fim!…”

(De Poesia de Florbela Espanca – Volume 2Coleção L&PM Pocket)

Na poesia da portuguesa Florbela Espanca (1894-1930) pulsa um verdadeiro e ousado diário íntimo que emociona quem tem contato com seus versos. Entre os fãs da poeta está o cantor Raimundo Fagner que já musicou várias de suas criações. O primeiro foi justamente o poema acima, de um álbum de 1981, que virou um grande sucesso na época. Depois disso, Fagner já musicou o “Soneto I”, “Chama quente”, “Tortura”, “Frieza”  – em que  o cantor fazia um dueto com Amelinha - e ainda “Impossível” em parceria com a cantora espanhola Ana Belém.

Abaixo, Fagner e Zeca Baleiro cantando “Fanatismo”. Acompanhe lendo o poema:

Florbela Espanca nos cinemas portugueses

terça-feira, 3 julho 2012

Em março deste ano, estreou nos cinemas portugueses o filme “Florbela”, cujo nome já revela quem é seu personagem principal. Ela, a maior poeta portuguesa, Florbela Espanca. Com versos cheios de erotismo e intimidade, Florbela escandalizou a sociedade do início do século XX. E fez isso não só com sua poesia, mas também pela forma como viveu: com sucessivos casamentos e divórcios, sua maneira ousada de vestir e sua personalidade “forte”.

O filme é centrado numa Portugal atordoada pelo fim da I República, quando Florbela (vivida pela atriz Dalila Carmo) separa-se de forma violenta de António. Ela então apaixona-se por Mário Lage (Albano Jerónimo) e refugia-se num novo casamento para encontrar estabilidade e escrever, mas a vida de esposa na província não parece combinar com sua alma inquieta. Florbela não consegue escrever, nem amar. Ao receber uma carta do irmão Apeles, oficial da Aviação Naval e de licença em Lisboa, corre em busca de inspiração perto da elite literária que fervilha na capital. Na cumplicidade do irmão aviador, a escritora procura um sopro em cada esquina: amantes, revoltas populares, festas de foxtrot… O marido tenta resgatá-la para o que considera a “normalidade”, mas como dar norte a quem tem sede de infinito? Entre a realidade e o sonho, os poemas surgem quando o tempo pára. Nesse imaginário febril de Florbela, neva dentro de casa, esvoaçam folhas na sala, panteras ganham vida e apenas os seus poemas a mantém sã. Por isso, Florbela tem que escrever…

A Coleção L&PM Pocket publica a obra completa de Florbela Espanca em dois volumes.

É dia de Florbela Espanca

quinta-feira, 8 dezembro 2011

Considerada a figura feminina mais importante da Literatura Portuguesa, Florbela Espanca continua inspirando não apenas versos, como músicas. Para deixar o seu dia mais alegre, por exemplo, vale escutar “Florbela Espanca-me”, do grupo de rock português Ena Pá 2000. Apesar do trocadilho infame, é diversão garantida.

Florbela Espanca nasceu, casou e morreu no dia 8 de dezembro (clique aqui e leia post já publicado neste blog). Em 1930, no dia de seu aniversário de 36 anos, “Bela” foi encontrada morta. Mas apesar dos dois frascos vazios de Veronal que estavam em seu quarto, o suicídio nunca foi totalmente confirmado.

A L&PM publica, na Coleção L&PM POCKET, todos os seus poemas em dois volumes.

O “Dia Mundial da Poesia” e das flores

segunda-feira, 21 março 2011

O Dia Mundial da Poesia é também o primeiro dia da primavera no hemisfério norte. “O tempo da flor” – como é conhecida a estação mais colorida do ano – é perfeito para localizar a poesia amorosa. Já no século XI, na França, os poetas obedeciam estritamente à convenção de guardar suas odes amorosas para esta época do ano. Em língua portuguesa, há registros desta tradição deixados pelo rei-poeta D. Denis, que viveu no século XIII. Num diálogo entre duas jovens, uma delas apela para as flores novas de um pinheiro para saber notícias de seu amado.

A escolha do dia 21 de março como o Dia Mundial da Poesia não é, portanto, mera coincidência. Na obra da poeta portuguesa Florbela Espanca – que tem flor até no nome! – as flores são presença constante, como no soneto “Crisântemos”:

Sombrios mensageiros das violetas,
De longas e revoltas cabeleiras;
Brancos, sois o casto olhar das virgens
Pálidas que ao luar, sonham nas eiras.

Vermelhos, gargalhadas triunfantes,
Lábios quentes de sonhos e desejos,
Carícias sensuais d´amor e gozo;
Crisântemos de sangue, vós sois beijos!

Os amarelos riem amarguras,
Os roxos dizem prantos e torturas,
Há-os também cor de fogo, sensuais…

Eu amo os crisântemos misteriosos
Por serem lindos, tristes e mimosos,
Por ser a flor de que tu gostas mais!
(em Poesia de Florbela Espanca – volume 1)

Fernando Pessoa também canta as flores em seus poemas, sob o pseudônimo de Álvaro de Campos:

Dá-me lírios, lírios,
E rosas também.
Mas se não tem lírios
Nem rosas a dar-me,

Tem vontade ao menos
De me dar os lírios
E também as rosas.
Basta-me a vontade,
Que tens, se a tiveres,
De me dar os lírios
E as rosas também,
E terei os lírios –

Os melhores lírios –
E as melhores rosas
Sem receber nada,
A não ser a prenda
Da tua vontade
De me dares lírios
E rosas também.

Enquanto os poetas do lado de lá do globo gozam a chegada da primavera, do lado de cá, damos as boas vindas ao outono. Pablo Neruda, poeta chileno, faz as honras da estação em seu Livro das perguntas:

XLVII

Ouves em meio do outono
detonações amarelas

Por que razão ou sem razão
chora a chuva sua alegria?

Que pássaros ditam a ordem
da bandada quando voa?

De que suspende o beija-flor
sua simetria deslumbrante?

XLVIII

São os seus das sereias
os redondos caracóis?

Ou são ondas petrificadas
ou jogo imóvel de espuma?

Não se incendiou a pradaria
com os vagalumes selvagens?

Os cabeleireiros do outono
despentearam os crisântemos?