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A caverna dos sonhos esquecidos

quinta-feira, 7 março 2013

Por Paula Taitelbaum

Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Questionamentos tão clichês que às vezes soam como piada. Mesmo assim, essas perguntas parecem estar impregnadas em cada uma de nossas células. Somos o fruto da evolução do homem. Isso é fato. Mas também somos a soma das dúvidas que nos invadem cada vez que nos confrontamos com as evidências da vida nas cavernas. O que sentiam, afinal, nossos antepassados pré-históricos?

Na infância, eu adorava passar as tardes vendo O elo perdido na TV e sonhava em ser a amiga loira do Chaka. Na adolescência, eu li Antes de Adão, de Jack London, e tive a certeza de que talvez pudesse acessar as lembranças de meus distantes parentes das cavernas. Depois vieram mais filmes, livros e museus. Nenhum deles, no entanto, me impactou tanto quanto o documentário em 3D que assisti ontem: A caverna dos sonhos esquecidos, de Werner Herzog.

Herzog teve permissão para entrar na Caverna Chauvet, descoberta em 1994 no sul da França. Algo que só é permitido a poucos cientistas. A caverna, que teve sua entrada lacrada por um desmoronamento, apresenta as mais incríveis pinturas rupestres já encontradas, algumas com mais de 30 mil anos. E por terem ficado isoladas por tanto tempo, essas verdadeiras obras de arte parecem ter sido feitas recentemente. Na parte escura da caverna, alguns dos animais foram desenhados com várias patas e supõe-se que, quando as tochas pré-históricas iluminavam estas pinturas, elas permitiam uma sensação de movimento. Puro cinema!

Há belíssimos cavalos com um incrível jogo de luz e sombra e um salão só dedicado a leões. Há rinocerontes, bizões, aves e as pernas abertas de uma mulher… Há ossadas e marcas perfeitas no chão intocado: a pegada de um menino de oito anos ao lado da pegada de um lobo. E o cientista se pergunta: haverá o lobo encurralado o menino? Seriam eles amigos e andavam juntos? Ou as pegadas foram feitas em épocas diferentes? Respostas que, assim como muitas outras, nunca teremos.

A caverna dos sonhos esquecidos é um filme de 2010 que só agora chegou aos cinemas do Brasil. E provavelmente não ficará muito tempo em cartaz. Por isso, se você tiver a chance de assistir em 3D, sugiro que faça isso. E quem sabe, assim como eu, você descubra a gente não evoluiu tanto assim. Ao contrário: em certos aspectos, acho que andamos para trás.

Para completar a viagem no tempo, você também pode ler Pré-história, da Coleção Encyclopaedia.

Quando Jack London veio ao mundo

quinta-feira, 12 janeiro 2012

A vida do escritor Jack London foi uma aventura que começou antes mesmo do seu nascimento. Segundo contou sua mãe, a professora de música e espiritualista, Flora Wellman, quando ela comunicou ao companheiro, o astrólogo William Chaney, que estava grávida, ele exigiu que ela abortasse. Num ato de desespero, Flora atirou contra si mesma. Felizmente (para os fãs de Jack London), a mãe e seu bebê não sofreram nada grave. Mas ao nascer, em 12 de janeiro de 1876, o filho de Flora foi renegado e entregue à ex-escrava Virginia Prentiss. Naquele mesmo ano, Virginia casou-se com um veterano da Guerra da Secessão de nome John London que assumiu o bebê da esposa (também chamado de John) e deu a ele seu sobrenome.

Mas quando o pequeno John, que depois seria chamado de Jack, cresceu, quis saber mais de suas origens. Aos 21 anos, ele encontrou notícias de jornais que contavam sobre a tentativa de suicídio da mãe e davam o nome de seu suposto pai biológico. Ele então escreveu uma carta a William Chaney e teve a seguinte resposta:

“Nunca me casei com Flora Wellman, mas vivi com ela de 11 de junho de 1874 a 3 de junho de 1875. Sofria eu nesse tempo os terríveis efeitos de muitas privações, dificuldades de vida e excessivo trabalho intelectual, sendo inteiramente platônicas as nossas relações. Portanto, não posso ser o seu pai nem lhe dizer com certeza quem seja ele. (…) O ‘Chronicle’ disse que eu a expulsei de casa porque ela não quis fazer o aborto. Essa notícia correu o país inteiro, reproduzida por toda a imprensa. Por causa dessa história, duas das minhas irmãs se tornaram minhas inimigas. Uma delas morreu ainda me julgando culpado. Todos os outros parentes, exceto uma irmã que mora em Portland, estão ainda contra mim e me apontam como a vergonha da família. Na época do escândalo, publiquei em folheto uma declaração da polícia em que se demonstrava a falsidade de muitas acusações levantadas contra a minha conduta, mas nem o ‘Chronicle’ nem os outros jornais que me difamaram quiseram desmanchar a calúnia. Desisti então de me defender e durante anos e anos a minha vida pesou como um fardo. Veio finalmente a reação e agora já tenho alguns amigos que me consideram homem de bem. Já passei dos 76 e vivo na pobreza.” (Do livro “A vida errante de Jack London”, editora José Olympio).

London ficou mal com a resposta, mas seguiu adiante. Largou os estudos, foi jornaleiro, pescador e marinheiro. E ao morrer precocemente, aos 40 anos, deixou uma obra que, se você ainda não leu, não sabe o que está perdendo. Livros capazes de resgatar as origens, o lado animal do ser humano, o uivo engasgado na garganta…

E já que é aniversário dele, nada melhor do que uma foto que mostra como o autor de O chamado da floresta, Caninos Brancos, Antes de Adão, O lobo do mar, entre outros, veio ao mundo (ou quase):

Em 2012, a L&PM vai lançar mais um livro de Jack London: Martin Eden.