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A paixão de Anna Akhmátova e Amedeo Modigliani

sexta-feira, 17 outubro 2014

Anna Akhmátova e Amedeo Modigliani. Ela, uma poeta russa vinda da aristocracia. Ele, um artista italiano sem nenhum dinheiro no bolso. Seus encontros, na Paris de 1910 e 1911, foram capazes de despertar paixões e insuflar ainda mais inspiração nesses dois nomes que acabariam por habitar o panteão das artes. Ele virou personagem em poemas dela. Ela, modelo de desenhos e esculturas dele.

Anna_Amedeo

Belos, jovens e talentosos: assim eram Amedeo Modigliani e Anna Akhmátova quando se encontraram

O momento em que seus destinos se cruzaram está no livro Modigliani, de Christian Parisot, Série Biografias L&PM:

Empreendimentos que dão errado, fracassos em cadeia, ele tem a impressão que seu horizonte escurece um pouco mais a cada dia. Mas uma clareira romântica subitamente iluminará seu caminho tortuoso: seu encontro com a poetisa Anna Adreevna Gorenko, mais conhecida sob seu pseudônimo de Anna Akhmátova, uma aristocrata russa nascida em Odessa e em viagem de núpcias em Paris com o primeiro de seus três maridos, o poeta Nicolaï Goumilev, de que se divorciará em 1916.

Ela tem vinte anos quando conhece Amedeo, que tem 26. É uma mulher muito fina, de belo rosto típico, com cabelos negros, olhos rasgados. Ela lhe lembra Maud Abrantès. Ele a corteja como sabem fazer os italianos, falando-lhe de seu país e de sua arte. Enquanto seu marido está na Sorbonne para cursos ou conferências, eles passeiam longamente pelas alamedas do Jardin du Luxembourg recitando poemas de Verlaine, que os dois conhecem de cor. Ela tem uma paixão violenta por Amedeo, por esse pintor de quem não conhece nada. “Ele morava então no Impasse Falguière. Ele era um indigente, por isso no Jardin du Luxembourg sempre nos sentávamos em bancos e não em cadeiras, que era preciso alugar. Ele não se queixava de nada, nem de sua miséria, nem do fato de não ser reconhecido.”

Quando ela volta para a Rússia, Amedeo escreve-lhe cartas de amor apaixonadas. Ela lhe responde com poemas. (…) Em 1911, enquanto seu marido parte para a a África por seis meses – não sem ter pensado em guarnecer abundantemente sua conta no banco para que não faltasse nada a ela –, Anna volta para Paris e se instala no número 10 da Rue Bonaparte. Ela reencontra Amedeo; ele lhe pede para posar:

“Nessa época, Modigliani sonhava com o Egito. Ele me convidou ao Louvre, para que eu visitasse o Departamento das Antiguidades Egípcias; ele afirmou que todo o resto não era digno de atenção. Ele desenhou minha cabeça com um penteado de rainha egípcia ou de dançarina, e me pareceu inteiramente tomado pela arte do Egito antigo… Hoje chamam esse período de período negro. Ele dizia “as joias devem ser selvagens”, a propósito de meu colar africano, e me desenhava com o colar… Ele não me desenhava na natureza mas em minha casa, e me presenteava com seus desenhos. Ganhei dezesseis.”

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Os desenhos que Modigliani deu a Anna Akhmátova foram destruídos durante a Revolução Russa. Sobreviveram aqueles que ficaram com ele como estes.

A partir da publicação de seu segundo livro, em 1914, Anna Akhmátova se tornaria um grande sucesso. Foi a primeira vez na literatura russa que uma mulher não tentava competir com os homens, mas sim criar uma expressão única ao utilizar uma linguagem concisa, direta e despida de ornamentos. A Coleção L&PM Pocket publica seus principais poemas com tradução direta do russo.

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Modigliani, Klimt e Degas por Peter Lindbergh

quinta-feira, 24 janeiro 2013

O fotógrafo Peter Lindbergh fez um ensaio com a atriz Julianne Moore para a revista Harper’s Bazaar em que ela aparece reproduzindo obras famosas de grandes pintores. A mais emblemática, talvez, seja a releitura de “Woman With a Fan” de Amedeo Modigliani.

Vale a pena conhecer as outras releituras que incluem a do quadro “Adele Bloch Bauer I” de Gustav Klimt e “Little Dancer, Aged Fourteen” de Edgar Degas.

Modigliani no paraíso dos escultores

quinta-feira, 24 janeiro 2013

A meningite tuberculosa que o consumia há tanto tempo piorara subitamente. Na noite de sábado 24 de janeiro [de 1920], às 20h50, sem sofrer, pois fora posto para dormir com uma injeção, Amedeo vai ao encontro do paraíso dos escultores.

(…)

Hanka e Ortiz levaram a triste notícia a Jeanne. Ela estava quase parindo. Eles ficaram longo tempo com ela. A pequena Paulette Jourdain a acompanhara a um hotel na Rue de Seine, onde ela passara o resto da noite. Na manhã seguinte, ela fora até a Charité com seu pai para ver Amedeo. Moïse Kisling e outro pintor amigo seu, Conrad Moricand, haviam tentado, sem conseguir, fazer um decalque de seu rosto. Por fim, com restos de gesso Lipchitz fizeram doze moldes que foram distribuídos aos amigos de Modigliani e aos membros de sua família. Um rabino fizera a oração dos mortos.

Quando entrara no quarto em que ele jazia, Jeanne aproximara-se, olhara-o por longo tempo, depois, segundo Francis Carco, cortara uma mecha de seus cabelo, que colocara sobre o peito de seu bem-amado e saíra sem dizer uma palavra para reunir-se aos Zborowski e os amigos que a esperavam. À tarde, ela voltara para a casa de seus pais, na Rue Amyot.

(…)

André Hébuterne, o irmão de Jeanne, passara grande parte da noite seguinte com ela, em seu quarto, para fazer-lhe companhia. Mas com a proximidade da aurora ele deve ter adormecido, e Jeanne aproveitara o momento para atirar-se da janela do quinto andar.

(…)

O funeral de Modigliani foi imponente. Como a família de Amedeo não tivera como conseguir passaportes, pois a Itália ainda estava em guerra, Moïse Kisling organizara uma arrecadação junto aos amigos para as exéquias.

(…)

Na terça-feira, 27 de janeiro, mais de mil pessoas seguiram, num silêncio impressionante, o carro fúnebre florido puxado por quatro cavalos negros. Todos os amigos de Modigliani estavam lá: Max Jacob, André Salmon, Moïse Kisling, Chaïm Soutine, Constantin Brancusi, Ortiz de Zarate, Gino Severini, Léopold Survage, Jacques Lipchitz, Andre Derain, Fernand Léger, André Uttre, Suzanne Valadon, Maurice Utrillo, Kees van Dongen, Maurice de Vlaminck, Foujita, a infeliz Simone Thiroux, as modelos e vários outros. Vendo a polícia parar o trânsito nos cruzamentos, Pablo Picasso murmurara no ouvido de Francis Carco:
          – Veja, agora ele foi vingado.
Léon Indenbaum disse:
          – No fundo, Modigliani se suicidou.
Em silêncio, Léopold Zborowski lembrava que pouco antes de morrer Amedeo lhe dissera: “Não se atormente. Em Soutine, deixo-lhe um homem de gênio”.

(…)

Toda Montmartre e todo Montparnasse, mesmo os garçons dos cafés que muitas vezes o colocaram para fora das espeluncas, todo mundo estava no Père-Lachaise, seus amigos, seus inimigos, seus admiradores.

(Trechos de Modigliani, de Christian Parisot, Série Biografias L&PM)

O charmoso Amedeo Modigliani em 1916 no seu ateliê

A linda Jeanne Hébuterne, o grande amor de Modigliani, que suiciou-se poucos dias depois da morte do amado, quando estava grávida do segundo filho deles

Modigliani ao lado de Pablo Picasso e André Salmon que depois estariam presentes em seu funeral

A máscara mortuária de Modigliani, cujo modelo foi feito no dia de sua morte, em 24 de janeiro de 1920