Posts Tagged ‘A imaginação’

A folha em branco

sexta-feira, 31 agosto 2012

Tudo começa com uma folha – ou uma tela – em branco. É ali que um escritor deposita o fruto de sua imaginação, de sua observação, de suas ideias. O branco que precisa ser preenchido e dominado. Jean-Paul Sartre inicia o livro A imaginação falando nela, a temida folha em branco. Nessa obra, escrita no início da sua carreira de pensador, Sartre propõe uma teoria única para analisar a imaginação, observando de que maneira os grandes filósofos como Descartes, Leibniz, Hume e Spinoza pensaram o assunto. A imaginação está entre as reedições importantes que acabam de chegar. Para quem quer ir fundo na análise da imagem, é um prato cheio. Ou melhor: um livro cheio.     

Olho esta folha em branco colocada sobre minha mesa; percebo sua forma, sua cor, sua posição. Essas diferentes qualidades têm características comuns: em primeiro lugar, elas se oferecem ao meu olhar como existências que posso apenas constatar e cujo ser não depende de modo algum do meu capricho. Elas são para mim, não são eu.  (…) De nada serve discutir se essa folha se reduz a um conjunto de representações ou se ela é e deve ser algo mais. O certo é que o branco que constato não é minha espontaneidade que pode produzi-lo. Essa forma inerte, que está aquém de todas as espontaneidades conscientes, que deve ser observada, aprendida aos poucos, é o que chamamos uma coisa. (Sartre em A imaginação, tradução de Paulo Neves)

Jean-Paul Sartre veio ao mundo com atraso

quinta-feira, 21 junho 2012

A mãe, Anne-Marie Sartre (nascida Anne Marie Schweitzer), e o pai Jean-Baptiste Sartre, esperavam seu primeiro filho para fins de maio e início de junho. Oficial da marinha francesa, Jean Baptiste não pode esperar pelo nascimento da criança em Paris e partiu em missão. A criança nasceria bem depois do esperado – provavelmente por um erro de cálculo -  em 21 de junho de 1905. A ele, seria dado o nome de Jean-Paul Sartre.  

O ano de 1905 ia começar e, poucos meses depois, Anne-Marie daria à luz “uma pequena Annie” ou “um pequeno Paul”, como dizia, com flagrante predileção para que fosse menina. O ano de 1905 ia começar e, pela futura mamãe e pela criança, o oficial da Marinha decidiu renunciar à viagem ao Japão com que tanto sonhava. Guerras coloniais, doenças e pressões hierárquicas contribuíram bem depressa para a desistência: desde então, Jean-Baptiste só pensa em voltar para a terra firme. Percorre ministérios, gabinetes, candidata-se a um cargo de “redator da Marinha”, recorre até a pistolões oficiais, contempando as soluções mais absurdas.

A pequena Annie (ou o pequeno Paul) vai nascer nos primeiros dias de junho, lá por fins de maio talvez, com um pouco de sorte, espera Jean-Baptiste, cuja licença sem soldo expira impreterivelmente no dia 15 de maio; o regulamento é muito severo: qualquer falta será punida. Ocorre, então, uma espécie de corrida contra o tempo para encontrar emprego em terra antes da data fatal, talvez com o desejo secreto de que a criança nasça prematura. (…) No dia 14 de maio, contrariado, J.-B. deixa Paris e vai para Toulon. No dia 29, desesperado, embarca no torpedeiro La Tourmente, como segundo-oficial que parte primeiro rumo a Sicília, depois Creta, com escalas em Messina, Palermo e Canea. De cada um desses portos, ele telegrafa à mulher; e durante todos esses primeiros dias no mar espera a participação do nascimento. (…) Todo mundo, então, em Creta, em Thiviers, em Paris, começa a esperar. Os Schweitzer alugaram um casarão no Mâconnais e o “erro de cálculo” traz muitos transtornos: quanto mais a criança demora a nascer, menores as chances de poder ser levada para fora de Paris. Enfim, esse contratempo é realmente lamentável. “Continuamos sem notícias do nosso marinheiro”, escreve de Thiviers a futura vovó Sartre em 21 de junho. Poucas horas depois, o vovô Schweitzer expede dois telegramas, um para Creta, outro para Thiviers: comunica o nascimento de um menino.

Jean-Paul Sartre chega ao mundo com atraso e, desde o início, atrapalha uma porção de planos familiares. Mas sua chegada coincide com certo número de acontecimentos políticos que vão marcar o século: 1905 é o ano das primeira revolução bolchevique, da guerra entre a Rússia e o Japão, ou, mais próxima ainda, da lei nacional que decreta a separação entre a Igreja e o Estado.

Trecho de Sartre – Uma biografia, de Annie Cohen-Solal

Jean-Baptiste Sartre morreria no ano seguinte em sua terra natal, Thiviers, por complicações advindas de uma doença crônica adquirida em uma missão na Conchinchina. Órfão de pai com pouco mais de um ano de idade, Jean-Paul foi criado pela família mãe e pelos avós maternos, a família Schweitzer.

De Jean-Paul Sartre a Coleção L&PM Pocket publica Esboço para uma teoria das emoções e A imaginação.

Sartre: o rosto misterioso de um irmão

terça-feira, 21 junho 2011

Hoje seria o aniversário de Jean-Paul Sartre (1905-1980). Poucos intelectuais encarnaram seu tempo como ele. Poucos filósofos esquadrinharam com tanta profundidade os abismos do ser humano. Filosofia que ele levou para a ficção com a coletânea de contos O muro, a trilogia Os Caminhos da Liberdade (A idade da razão, Náusea e Sursis) ou clássicos da dramaturgia como A prostituta respeitosa, Entre quatro paredes, A mosca entre muitos outros.

E se muitos de seus estudos filosóficos são de extrema complexidade e sofisticação, se a sua biografia de Flaubert, O Idiota da família, ficou inconclusa com pouco menos de quatro mil páginas (e isto é só a metade do que seria), o “outro” Sartre é pop. Coerente com sua vida e suas idéias, recebeu e recusou o Prêmio Nobel de Literatura de 1964. Cabeça privilegiada, soube, no ocaso de sua vida, ser um dos principais interlocutores da juventude rebelde que sacudiu Paris e o mundo em maio de 1968, transformando as ruas do Quartier Latin num campo de batalha. Foi engajado com as causas da esquerda, alinhou-se com Cuba e a URSS num determinado momento, mas mais tarde atacou o cerceamento às liberdades individuais. Sua visão da sociedade e dos homens era generosa e ao mesmo tempo utópica. Nunca perdeu a fé em um mundo mais justo, que fosse um lugar melhor para passar por esta efêmera experiência de existir. Ele mesmo dizia que o grande fracasso do ser humano era a existência da morte. E ao morrer, em abril de 1980, mais de 50 mil pessoas acompanharam seu funeral. Sobre este grande ato de despedida, o jornalista e intelectual francês Gilles Lapouge escreveu um belo texto que foi publicado no Brasil pelo O Estado de S. Paulo. Ele conclui assim:

“(…) é preciso não esquecer que as idéias de Sartre, por mais luminosas e fecundas que sejam, não passariam de um sistema a mais, se não tivessem sido expressas numa das linguagens mais límpidas e mais belas que existem. Sobretudo porque cada uma dessas idéias foi afiançada, garantida, por um homem que ao longo de toda a sua vida, mas principalmente na claridade descorada da morte, tinha o rosto misterioso de um irmão”.

(Ivan Pinheiro Machado)

A L&PM publica a grande biografia de Sartre, escrita por Annie Cohen-Solal, e as obras Esboço para uma teoria das emoções, da Série Pocket Plus, e A imaginação, ambas na Coleção L&PM Pocket.