Como conheci Caio F.

por Nanni Rios*

Quando cheguei ao trabalho naquela manhã de abril, vi em cima da mesa um embrulho com um bilhete. Bem que podia ser a lista de recomendações de uma chefe à sua estagiária que, naquele dia, trabalharia sem a sua supervisão. Mas como era meu aniversário, suspeitei que fosse um presente. Pelo formato do pacote, dava pra perceber que era um livro. Quando abri, descobri que era muito mais que isso.

Eu era estagiária do Núcleo de Comunicação do Centro de Artes da UDESC e minha chefe era a jornalista Celia Penteado, uma paulistana radicada em Florianópolis, mãe do Alê, esposa do Paulo, fã de Beatles e leitora de Kerouac e Caio (na época eu não conhecia nenhum dos dois). Um ser doce e gentil, além de profissional competente e antenada, a Celia me deu a melhor primeira experiência profissional que eu poderia desejar. Eu era apenas uma caloura do curso de Jornalismo na UFSC e também da licenciatura em Teatro da UDESC. Já gostava de música, literatura e cinema mas tudo ainda restrito às referências da academia e a parca programação cultural da Ilha. Até que naquele aniversário, a Celia deu o start para uma grande mudança.

O livro que ela havia deixado em cima da minha mesa era um exemplar de Morangos Mofados, de Caio Fernando Abreu. Uma edição da Brasiliense de 1987, o ano em que nasci. Um pouco gasto pelo tempo, com folhas amareladas e cheias de marcas, linhas e mais linhas sublinhadas e comentários escritos a lápis nas margens, aquele livro contava sobretudo a relação da Celia com a literatura do Caio. Era um presente e tanto, uma relíquia pessoal que me deixou lisonjeada.

No bilhete, ela me contava que leu e releu aqueles escritos quando tinha mais ou menos a minha idade e os registros e impressões daquela experiência ficaram guardados ali. Se já éramos próximas por diversas razões, aquele presente criou uma identificação ainda maior. Não tenho certeza se foi neste mesmo bilhete ou se foi pessoalmente, mas lembro que foi nesta época que ela inaugurou o bordão “Nanni, eu sou você amanhã!”

Depois do Morangos Mofados, não parei mais. Devorei tudo de Caio que encontrei pela frente, de livros a  filmes e peças de teatro. Foi um caminho sem volta.

*Nanni Rios é jornalista, editora de mídias sociais da L&PM e fã de Caio F.

Conheça os livros do Caio Fernando Abreu que fazem parte da Coleção L&PM Pocket: Fragmentos, Ovelhas Negras, O Ovo Apunhalado e o Triângulo das Águas.

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