E-books: muito barulho por nada

O mote shakespereano cabe como uma luva depois de se percorrer esse imenso Salão. No final de um corredor secundário perto da praça de alimentação, um estande com meia dúzia de curiosos expõe vários tipos de readers. Ao lado, um auditório alugado pela Sony anunciava uma palestra sobre “a leitura do futuro”. Entrei e vi um japonês falando um bom francês, auxiliado por slides superproduzidos, tentando convencer uma plateia que não ocupava nem um terço dos 150 lugares que o futuro já havia chegado. Afora neste pequeno setor do pavilhão não vi mais nada sobre leitura digital.
Quem passeia pelos acolhedores corredores do grande pavilhão está totalmente alheio ao marketing fabuloso das empresas de tecnologia. A multidão que enfrentou as filas e a garoa parecia se sentir feliz naquele ambiente cheio de cores e formas. Feliz como se fica quando se está entre bons companheiros. A onda digital chegou ao livro apenas pelos jornais via os espetaculares lances de marketing das empresas.
Uma pesquisa – a primeira feita sobre os e-books na França – publicada com estardalhaço pelo influente diário conservador “Le Figaro” comprova exatamente o contrário do que dizia o esforçado japonês da Sony no auditório quase vazio. O instituto Opinionway, contratado pelo jornal, ouviu três mil leitores que responderam a apenas duas perguntas.
- Hoje, sob qual suporte você lê um livro?
- No futuro, pretende ler em que suporte?
Com bom humor a matéria começa dizendo: “O papel está morto! Nos anunciam isso 10 vezes por dia. Mas parece que não é bem assim…” Na primeira pergunta, 91% dos franceses responderam que lêem em papel, 7% lêem na tela do computador e apenas 1% são adeptos dos readers. O restante não respondeu. Quanto à segunda pergunta, sobre onde leriam no futuro: 77% pretendem seguir lendo em papel, 11% lerão na tela do computador, 7% em readers, 2% em audiolivros, 2% no celular e 1% não responderam.
A conclusão é simples. A gigantesca propaganda que vem do vale do silício (quase) conseguiu convencer a imprensa. Mas o leitor gosta e gostará ainda por algum tempo de ler no velho e bom papel.

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  1. Diana disse:

    Concordo plenamente, até leio e-books, mas não sinto a mesma emoção que tenho ao folhear um livro.
    Kindle, ipad são úteis mas não substituem a sensação e o contato com o livro.

  2. Anonymus disse:

    1– Em 1972, quando o fast food invadiu Paris, os McDonalds pululando como novidade, não faltaram comentaristas saudando um novo estilo de comer, a idade moderna da gastronomia etc.. Hoje os restaurantes “tradicionais”prosperam e se multiplicam, enquanto o fast food se consolida como símbolo definitivo do mau gosto e da indigestão. Os redatores dos necrológios dos livros, dos jornais e revistas vão morrer antes dos livros, jornais e revistas.

    2– O blog da L&PM está ótimo. E o Ivan continua o mesmo repórter/redator/fotógrafo de alto nível que deixou a redação da Folha da Manhã, em 1974, para fundar com o Lima a L&PM.

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  4. Social comments and analytics for this post…

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  5. Sonia disse:

    Concordo, o livro de papel ainda é insubstituível. E será por muito tempo, acredito. Além das cores e formas e sensações táteis, nada é melhor do que o cheiro de um livro – novo ou velho…
    E a intimidade física que a gente consegue com ele é imbatível!

  6. Karl H. Benz disse:

    Acho o leitor eletrônico uma ótima idéia. Chega de carregar malas com livros pesados e poeirentos prá todo lado. Quando a LPM vai começar a comercializar seus bons livros em formato compatível com leitor eletrônico?

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