Em sua crônica, Luís Augusto Fischer reflete sobre a Feira do Livro de Porto Alegre

DE TUDO

Luís Augusto Fischer*

- FEIRA – Sensação meio ruim de andar na Feira examinando as bancas: o cenário parece tomado por sebos a desovar estoques de livros irrelevantes e por instituições com escassa relação com o livro. (Para dar um exemplo, apenas: por que bom motivo há um estande do Tribunal do Trabalho ali, bem no meião de tudo?) Para achar publicação relevante, é preciso muita paciência. Em 2010, algumas perguntas se impõem: por que mesmo acabou o desconto, que era uma das grandes atrações da Feira? E por que mesmo não fazem mais a lista dos mais comprados? Quem é que a Feira quer circulando e comprando os livros?

- ANIMAL AGONIZANTE – Deve voltar a cartaz em seguida uma adaptação para o palco de O Animal Agonizante, romance de Philip Roth, com uma atuação excelente de Luiz Paulo Vasconcellos no papel daquele melancólico professor de literatura, um veterano das fantasias de 1968 que pretendeu viver com sexo livre e sem laço significativo com uma parceira. Tudo no lugar: a gente ri, pensa, sente, quase chora, tudo numa levada cênica amena, sem apelação sensacionalista alguma, mas profunda o suficiente, capaz de nos fazer experimentar o espelho revelador que uma grande narração pode oferecer. A direção de Luciano Alabarse volta ao drama contemporâneo otimamente, porque não se a vê – diretor de drama, como de cinema, precisa ter suas marcas, mas é tão melhor quanto mais se pareça àquele ideal do juiz de futebol, que deixa rolar o jogo e não chama a atenção sobre si.

- DOR SEM FORMA NEM TAMANHO – Morreu no domingo o jovem Floriano Xavier Reckziegel, filho de duas figuras queridas, a Isabel e o Roque. Nessa hora em que o futuro é abruptamente interrompido fiquei repassando um vasto passado que compartilho com eles: o Roque e eu (mais o Cajo) fazíamos artesanato, num hippismo adolescente magnífico, ele um artista talentoso desde menino; por um tempo de juventude, moramos juntos (ele, eu, o Cícero e depois o então Nestorzinho), e foi nessa época que ele e a Isabel se conheceram, ela uma ex-aluna minha, talentosa desde sempre, depois colega de profissão da maior competência. Tanto laço bom, que nós temos a fortuna de poder recordar. A memória, talvez a suprema humanidade. O Floriano não vai usufruir dela; ficamos nós com a tarefa.

- PREGO – Foi exatamente uma dor desse tipo, pela morte do meu irmão, Sérgio “Prego”, que gerou o livro Puro Enquanto, pela L&PM (obrigado, Ivan, Lima, Cacá), reunindo o material inédito dele mais um conjunto de depoimentos sobre ele (a memória, que nos faz ser o que somos). Foi há mais de três anos, e desde então muita gente de mobilizou para que na segunda que vem, dia 15, às 18h (no Memorial, Sala dos Jacarandás), a gente pudesse fazer o lançamento.

* O texto acima foi originalmente publicado no Segundo Caderno do Jornal Zero Hora em 9 de novembro de 2010.

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  1. Concordo plenamente com o Fischer. Se eu vou na Feira, eu vou com o objetivo de comprar determinado livro na ocasião, não mais aproveitar a Feira par comprar todos os livros que eu quero e posso porque a Feira é o grande momento do ano em Porto Alegre. Com todo o respeito, mas, existe muito lixo nos sebos. E essa do Tribunal do Trabalho também serve para se tentar entender por que existem bancas que realmente estão apenas fazendo mershandising lá, e fazem a gente percorrer quilômetros para encontrar as bancas de livros? A Feira vale hoje pelo evento, pelo contato com os escritores, as palestras, o passeio com os amigos, mas comprar livros está virando algo acessório.

  2. Joel Robinson disse:

    Mas essa não é a “maior feira do livro do universo” tão apregoada pela midia…
    Essa feira já era. Encontrei o mesmo livro numa loja da Cel Vicente por 15 reais e na feira estava, com desconto(?) por 22 reais!!! e rara a mesma banca da loja.
    Best regards

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