A guerra dançada

No futebol, sublimação ritual da guerra, onze homens de calção acabam sendo a espada vingadora do bairro, da cidade ou da nação. Estes guerreiros sem armas nem couraças exorcizam os demônios da multidão e confirmam sua fé: em cada confronto entre duas equipes, entram em combate velhos ódios e amores herdados de pai para filho. O estádio tem torres e estandartes, como um castelo, e um fosso fundo e largo ao redor do campo. No meio, uma raia branca assinala os territórios em disputa. Em cada extremo, aguardam os arcos, que serão bombardeados por boladas. Em frente aos arcos, a área se chama zona de perigo. No círculo central, os capitães trocam flâmulas e se cumprimentam como manda o ritual. Soa o apito do árbitro e a bola, outro vento assobiador, põe-se em movimento. A bola vai e vem e um jogador leva essa bola e passeia com ela até que alguém lhe dá uma trombada e ele vai escarranchado. A vítima não se levanta. Na imensidão da grama verde, jaz o jogador. E na imensidão das arquibancadas, vozes trovejam. A torcida inimiga ruge amavelmente:
- Morre!
- Que se muera!
- Devi morire!
- Tuez-le!
- Mach ihn nieder!
- Let him die!
- Kill kill kill!


Como a Copa termina neste final de semana, nossa série de posts com trechos de 
Futebol ao sol e à sombra, de Eduardo Galeano também encerra-se por aqui. Que vença o melhor. Ou não.
Leia os posts anteriores:
Cruyff
Gol de Zarra
Obdulio
Gol de Maradona
O gol
O árbitro
Gol de Nilton Santos
O pecado de perder

Tags: , , , ,

Envie seu comentário

* Campos obrigatórios