Palavra do Leitor

Não digam à minha mãe que sou jornalista

segunda-feira, 27 setembro 2010

*José Antonio Pinheiro Machado

Não há nada que irrite mais o príncipe do que o conhecimento da verdade, quando ela se opõe aos seus fins ou impede seus propósitos, escreveu Juan Luis Cebrián, num livro indispensável que acaba de ser lançado no Brasil: O pianista no bordel.O título do livro utiliza a ironia de um ditado espanhol: “Não digam à minha mãe que sou jornalista, prefiro que continue pensando que toco piano num bordel.” É um livro que celebra o jornalismo e as dificuldades para exercer com correção e eficiência essa profissão. Cebrián foi diretor-fundador de um dos mais importantes jornais do mundo, El Pais, que começou a circular em 1976, durante a transição na Espanha da ditadura de Franco para a democracia, e atualmente é um dos administradores do francês Le Monde. Os dois jornais têm algo em comum: El Pais, nas últimas três décadas, e Le Monde, desde sempre, se tornaram referências mundiais na busca da isenção e na despreocupação em desagradar os personagens de suas matérias. O grande Balzac é um exemplo: quando era elogiado, adorava os jornais. Quando recebeu críticas mudou de lado e escreveu: “Se a imprensa não existisse, seria preciso não inventá-la.”

*Advogado e jornalista.  Autor de diversos livros de gastronomia publicados pela L&PM.

Das necessárias reuniões

segunda-feira, 5 abril 2010

* Por Tiago Maino Pinheiro

García Márquez, o Gabo, já pairava ali, ele e alguns outros mais; parecia recordar seus anos de solidão. Dostoiévski, que entre amigos atendia pela alcunha de Dodô, também adentrava sala. Reunião costumeira, cada dia em lugar diverso, reunia célebres de todos os cantos.  Tal qual Machado, o Assis, que chegou logo depois, alegando hora perdida porque mais uma feita o interpelaram pela rua no intento de explicações sobre uma dissimulada Capitu. Hemingway aportou logo em seguida, desculpando atraso fruto dum velho do mar, ou algo do gênero, que o parara a fim de contar algumas aventuras de pescador, histórias sobre certo peixe lutador.
Scliar deu ares em seguida, disse que vinha de outros lados, duma festa de castelo, a qual Eurípedes, que logo também viria ao encontro, bem podia abastecer com vinhos e tudo o mais; pois conhecia, parece, quem plenamente entendia de festeiro e embriagante assunto. Mais tarde, à entrada, junto aos Veríssimos, os quais havia encontrado pelo caminho, e já sabatinando todo mundo sobre qual era a questão, apresentou-se o garboso e eloquente Shakespeare. Dos lusitanos ares, Saramago, quase que ensaiando uma cegueira, tateou porta logo depois.
Já à mesa, Orwell infinitamente explanava sobre seu grande irmão; que espiava ali, olhava acolá, curioso de dar dó. Falando em grande, Fitzgerald mostrava-se saudoso pelo velho amigo Gatsby. Em frente, Huxley, que achou melhor ponderar sobre o vindouro, proferia sobre um admirável e novo mundo, coisa assim. Já Kafka, que se entretia com uma barata que passeava sob a mesa, bem parecia, em verdade, ter quase indecifráveis lembranças. O bichinho logo alumiou também Orwell, que de imediato trocou o assunto do irmão para o de uma fazenda que tinha bichos falantes e revolucionários; fato que despertou ainda a memória de Lewis Carroll, que logo relatou duma menina que falava com coelhos e coisas mais. Drummond, em cadeira de balanço, só observava. À porta, relatando a odisseia que passara para chegar ali, Homero também dava as caras.
Como se de caravana tivessem vindo, em discussões fartamente animadas, outros tantos de repente também adentraram local; vinham ali Clarice, Millôr, Chico, Rachel, Nelson, Vinícius, João do Rio, Alencar, Quintana, Ubaldo, Lygia, Prata. Gente boa que não findava mais. Quanto mais as figuras se aproximavam, maior vontade surgia de se chamar mais e mais convivas para aquela festa de sublimes inventores; encontro de perenes contadores da vida, os quais, sem pestanejar, faziam boa questão de abertamente deixar suas histórias contagiarem o mundo.  Júbilo inebriante. Tal reunião era sempre benquista, tanto que, já de conhecida ciência, sucedia sempre em lugares diferentes; lugares que, aliás, de forma bastante frequente, também atendiam, ou melhor, se entendiam como afortunadas e bem variadas mentes.

* Tiago Maino Pinheiro é pós-graduando em Jornalismo Digital e graduado em Letras. É autor do blog www.dascronicas.blogspot.com