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Nelson Rodrigues: Christian Grey “avant la lettre”

segunda-feira, 1 outubro 2012

Por Ivan Pinheiro Machado

Segundo a revista Veja, 99,9% dos leitores de “Cinquenta tons de cinza” são mulheres. Portanto, estou entre os 0,1% dos homens que leram o livro. Porque eu li? Primeiro por dever profissional – meu trabalho é editar livros; segundo, por curiosidade. Desta esmagadora estatística que aponta quase 100% de leitura feminina, pode-se concluir que os homens não estão muito interessados em saber no que as mulheres estão pensando. E isto pode ser um problema… Nota-se que a mulherada está ávida por este livro, a ponto de estabelecer um recorde histórico no mercado editorial: “Cinquenta tons…” vendeu em seis semanas o que o mega bestseller “O Código da Vinci” vendeu em dois anos. Ou seja, nunca na história um livro vendeu tanto em tão pouco tempo. Não vou falar sobre os méritos literários, ou a falta deles. Longe de mim falar mal de uma obra que as mulheres – segundo todos os veículos de comunicação da terra – têm devorado ansiosamente em todos os quadrantes. Não sei o que a turma da burka acha disso, mas o fenômeno de vendas é planetário. Em poucas palavras, este mega bestseller consagra as frases célebres de Nelson Rodrigues escritas há mais de 50 anos: “Mulher gosta de apanhar” e “Dinheiro compra até amor verdadeiro”. Grosso modo (!), e vendo tudo com muito bom humor, esta é a síntese perfeita do livro “Cinquenta tons de cinza”. Christian Grey, o milionário pervertido e Anastassia, a virgem submissa, protagonizam a comprovação das teses rodriguianas, meio século depois. Eu acho que nós definitivamente não sabemos nada sobre o universo feminino. Somos seres anacrônicos que mandamos flores, dizemos gracinhas, fazemos galanteios… Christian Grey, o bilionário estúpido, tornou-se, com uma torrente de grosserias e muita palmada na bunda, o herói de (quase) todas as mulheres…

Nelson para sempre Rodrigues

quinta-feira, 23 agosto 2012

Por Paula Taitelbaum*

Nelson valsa velada de portas fechadas criando climas e crimes paixões pressões pensões pretões. Nelson cheio de personalidade e personagens de pactos impactos e aparências que enganam. Nelson Flu fluindo flanando flertando nos folhetins de Suzana Flag e pelos conselhos de Myrna. Nelson genial e genioso sobre os palcos sobre as pernas sobretudo Sobrenatural de Almeida. Nelson tragédia grega pelas calçadas do Rio com beijos tapas taras temperaturas extremas. Nelson vestido de noiva camisa aberta dente de ouro outro por dentro. Nelson das viúvas das virgens das virtudes arrombadas arretos aterros atalhos atritos e atletas preferidos. Nelson anjo pornográfico joia literária jeito de menino jinga das palavras jogando junto e tudo pro alto. Nelson de segredos e saudades sonhador e a partir de hoje centenário.

*Paula Taitelbaum é escritora, autora de Ménage à Trois e Porno Pop Pocket e amante de Nelson Rodrigues (no sentido literário, é claro). Este texto foi escrito no dia dos 100 anos do nascimento de Nelson, que veio ao mundo em 23 de agosto de 1912.