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Um viva aos tradutores!

quarta-feira, 30 setembro 2015

Eles traduzem do inglês, francês, espanhol, alemão, italiano, polonês, norueguês, russo, holandês, chinês, grego… Estudam cada palavra, analisam cada frase, revisam cada linha. Sem os tradutores, nossas opções de leitura seriam muito mais limitadas e nossa biblioteca muito mais reduzida.

Para homenagear os tradutores no Dia Internacional da Tradução – 30 de setembro – vai aqui um texto de Millôr Fernandes que traduziu, entre outros, Shakespeare:

Le dernière translation (Homenagem à Sociedade Brasileira de Tradutores):

Quando morre um velho tradutor

Sua alma, anima, soul,

Já livre do cansativo ofício de verter

Vai direta para o céu, in cielo, to the heaven, au ciel, in caelum, zum himmel,

Ou pro inferno, Holle, dos grandes traditori?

Ou um tradutor será considerado

In the minute hierarquia do divino (himm’lisch)

Nem peixe nem água, ni poisson ni l’eau,

Neither water nor fish, nichts, assolutamente niente?

Que irá descobrir de essencial

Esse mero intermediário da semântica

Corretor da Babel universal?

A comunicação definitiva, sem palavras?

Outra vez o verbo inicial?

Saberá, enfim!, se ele fala hebraico

Ou latim?

Ou ficará infinitamente no infinito

Até ouvir a Voz, Voix, Voce, Voice, Stimme, Vox,

Do Supremo Mistério partindo do Além

Voando como um pássarobirduccelopájarovogel

Se dirigindo a ele em…

E lhe dando, afinal,

A tradução para o Amén?

(De Millôr definitivo – A bíblia do caos)

A história de “Millôr definitivo – a Bíblia do Caos”

quarta-feira, 4 abril 2012

Por Ivan Pinheiro Machado

Durante muitos anos Millôr Fernandes sonhou em fazer um livro de frases. Como o projeto envolvia passar um “pente fino” em praticamente 50 anos de produção ininterrupta, este projeto era sempre protelado. Até que, num dia de 1992, o Lima e eu assumimos esta mega-tarefa. Convocamos a Jó Saldanha e a Fernanda Veríssimo, que na época trabalhavam na L&PM,  e montamos uma estratégia de ação para reunir num livro o “pensamento de Millôr Fernandes”.

Mandamos fazer cópia (Xerox) de toda a coleção das colunas da Veja, Isto é e Jornal do Brasil, mais os livros que ele havia publicado nas décadas de 50, 60, 70 e 80, incluindo as velhas páginas da coluna Pif Paf da revista O Cruzeiro (onde Millôr se assinava “Vão Gogo”), mais os poucos números da revista Pif Paf editadas pelo Millôr em 1965 e fechada pela ditadura militar,  a produção de O Pasquim e produções esparsas, além das peças originais, como “Um elefante no caos, “É”, “Flávia, cabeça trondo e membros” e muitas outras fontes. Se fizéssemos uma pilha de todas as páginas Xerox, ela teria mais de 3 metros de altura, conforme medimos na época. Foram dois anos de trabalho. A técnica utilizada foi destacar nos textos as frases importantes. Uma vez destacadas, as frases eram digitadas com a data e o local onde foram publicadas. Assim separamos cerca de 10 mil que foram digitadas e enviadas para o Rio de Janeiro num calhamaço de quase 1.000 páginas. Destas 10 mil, o Millôr selecionou 5.142 e batizou como “Millôr Definitivo – a Bíblia do Caos”. Vale a pena ler na capa do livro as 62 definições que Millôr dá às suas frases: “5.142 pensamentos, preceitos, máximas, raciocínios, considerações, ponderações, devaneiros, elucubrações, cismas, disparates, ideias, introspecções, etc..etc..”.

O livro foi lançado em 1994, comemorando os 20 anos da L&PM em dois mega-lançamentos: na churrascaria Marius no Rio de Janeiro e no saudoso restaurante Birra e Pasta em Porto Alegre. “Millôr definitivo” teve mais de 20 edições. No final dos anos 1990, fizemos uma edição especial em capa dura. No ano 2000, ela foi reeditada novamente em capa-dura, mas com novo layout de capa e o acréscimo de 157 frases. E finalmente em 2002 o “Millôr Definitivo” foi editado na coleção L&PM POCKET, onde convive nas livrarias paralelamente com a edição de luxo em “hard cover”.

Esta é a história deste clássico.

“Millôr Definitivo” reúne num grande livro o pensamento deste que foi um dos maiores pensadores brasileiros de todos os tempos.

AMOR
Da cintura para cima o amor é platônico. Da cintura para baixo é anacrônico.

BÊBADO
O bêbado é o subconsciente do abstêmio.

CARTÃO DE CRÉDITO
O dinheiro é o cartão de crédito do pobre.

CRIME
Não é que o crime não compensa. É que, quando compensa, muda de nome.

DEBOCHE
Deboche é um gozo maior do que o nosso.

DEMOCRATA
Nunca neguei a ninguém o direito de concordar inteiramente comigo.

ERRO
Tudo é erro na vida do revisor.

EXPLICAÇÃO
Os pássaros voam porque não têm ideologia.

FOBIA
Fobia é um medo com Ph.D.

GOURMET
O gourmet é o comilão erudito.

HOMEM
O homem põe. E o publicitário cacareja.

INVOLUÇÃO
Todo homem nasce original e morre plágio.

LIBERDADE, LIBERDADE
Livre como um táxi.

MEMÓRIA
O criticado tem memória melhor do que a do crítico.

NUDISMO
Pois é: estão querendo adotar o nudismo. Se esquecem de que tudo começou assim e não deu certo.

OTIMISTA
O otimista não sabe o que o espera!

POLÍTICO
Mais cedo ou mais tarde todo político corresponde aos que não confiam nele.

PONTUALIDADE
A pontualidade é uma longa solidão.

QUANTIFICAÇÃO
O bastante é muito pouco.

REVER
Rever é perder o encanto.

SEMÂNTICA
A semântica é o ópio dos psicanalistas.

SLOGAN DEFINITIVO
Há uma morte no seu futuro.

TÉCNICA
Quando você cair do galho agarre-se no de cima.

USURÁRIO
De que vale o homem que não gasta seu destino?

VANGUARDA
Não há vanguarda sem retaguarda.

XADREZ
O xadrez é um jogo que desenvolve a inteligência para jogar xadrez.

ZEN
Olha. / Entre um pingo e outro / A chuva não molha.