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Um adeus a Marcello Grassmann, o grande artista feito de sonhos

segunda-feira, 24 junho 2013

Marcello_Grassmann

Foi na sexta-feira passada, 21 de junho, às 2h, que Marcello Grassmann partiu. Ilustrador, gravurista, artista múltiplo, tinha 87 anos ao falecer. Mas continuava lúcido, indignado e crítico à frivolidade na arte conforme atestou Jacob Klintowitz, seu amigo próximo e curador da última exposição de Grassmann no Espaço Cultural Citi em São Paulo. “Era um símbolo. Agora espero que o simbolismo se renove e que sua morte seja o ponto de partida para uma reflexão sobre o brilho seminal de sua obra” afirmou Jacob Klintowitz neste final de semana.

Leia abaixo, o último texto escrito por Klintowitz sobre a obra de Marcello Grassmann:

Marcello Grassmann: matéria dos sonhos

Por Jacob Klintowitz

Talvez nada seja mais belo, poético, revelador, profético e inspirador do que a “Tempestade”, de 1612, a última peça de Shakespeare (1564-1616). E, é provável, que este texto outonal seja o testamento do poeta, a derradeira mensagem, a sua síntese sobre a humanidade e a saga dos homens. Nele, Próspero, a sublime criatura sonhada por William Shakespeare, define a natureza do homem e da vida: “Somos feitos da matéria dos sonhos”.

Ao contemplar as formas criadas por Marcello Grassmann, a extraordinária qualidade do seu desenho, o aprofundamento do tema de maneira tão elevada e com tanta propriedade, resta em nós a convicção de que entramos num universo antes desconhecido e agora revelado pela lucidez do artista. Este mundo que ele nos descobre e do qual sentimos que dele habitava em nós certo reconhecimento, agora recuperado, esta enevoada  e submersa realidade: a estranheza deste lugar de cavalheiros e armaduras, animais míticos, donzelas intangíveis e belas, e no qual o destino paira sobre todos. É o mundo feito da mesma matéria de que se fabricam os sonhos.

Marcello Grassmann elabora com a matéria sutil e a sua revelação é a de uma estrutura metafísica e ideal, densa e soberana, mas, e aqui uma das marcas do artista, construída na atmosfera da energia delicada e inapreensível, aquela feita de mitos e fábulas, que somente se acende quando a consciência adormece. 

Este universo manifesto é fatal e impassível, e só nos contempla como personagens.

Muitos poderão acreditar que se trata do resultado de uma vida inteira de trabalho e do aprimoramento de um artista que, afinal de contas, é hoje, aos 86 anos, um dos nossos decanos, patriarca e santo protetor da arte brasileira. E também teria razão. Ou certa razão, o que é menos do que a razão. Pois Marcello Grassmann desde o seu início sempre se destacou devido a sua originalidade e extrema consciência de sua individualidade. Entretanto, o artista, com o tempo a favor para elaborar a própria identidade artística,  afirmou de maneira esplêndida a singularidade de sua iconografia. Marcello Grassmann, um dos artistas destacados dos séculos XX e XXI, é referência seminal da arte brasileira.

Dom Quixote por Marcello Grassmann. Gravura em metal

Dom Quixote por Marcello Grassmann. Gravura em metal

Pietro Maria Bardi, duas ou três coisas que sei dele

sexta-feira, 5 agosto 2011

Por Jacob Klintowitz*

Pietro Maria Bardi é um herói brasileiro. Ele comandou a formação do melhor acervo de arte ocidental da América do Sul. Ele comandou a criação do MASP, o primeiro museu em moldes contemporâneos do Brasil. Hoje, o acervo do MASP vale bem mais de um bilhão de dólares. Bardi foi esta raridade da nossa vida pública: deu lucro ao país. E nos ensinou muito. Eu sinto saudades do nosso convívio. Abaixo, minha matéria sobre ele, publicada  na revista “Itália em São Paulo 2011”:

Pietro Maria Bardi com um Cézanne

O rosto era vertical, com traços fortes e recortados de maneira brusca. Parecia ter sido desenhado por um escultor. Um esboço feito às pressas, sem muito tempo para detalhes, pois o que interessava era o volume e as áreas de incisão. Quando ria, os olhos e a boca se alçavam em forma de letra “V” e acentuavam a verticalidade interna do volume. Caminhava de maneira decidida, rápido, os braços soltos, num movimento impulsivo em direção ao alvo. Numa época de indecisões, incertezas, opiniões matizadas de infinitas alternativas, Pietro Maria Bardi parecia não ter dúvidas e dizia rapidamente as suas opiniões, sempre curtas e diretas. Certamente eram os olhos, brilhantes e expressivos, ornados por grossas sobranceiras, que lhe davam a aparência irônica. De alguma maneira lembrava um fauno, com a sua voluntariedade, certeza instintiva e objetividade. Mas os faunos, ao que me consta, não eram dotados de ironia e senso de humor.

Pietro Maria Bardi foi um dos mais fascinantes personagens da arte brasileira, dotado de extraordinária capacidade de ação, decisivo na formação do melhor acervo de arte da América do Sul, homem de paixões, polêmico, generoso, e administrador cuidadoso e detalhista. Tudo via, sabia e controlava. Mais de uma vez me levou a visitar o Museu de Arte Brasileira, MASP, a sua suprema realização, às 7h00. Percorria imediatamente todas as dependências, incluindo os banheiros. Eu indaguei, numa ocasião, sobre este procedimento:

- Bardi, nesta altura da vida, com quase oitenta anos, com tantas responsabilidades altas e urgentes, não caberia delegar esta função, a de inspecionar banheiros, a um funcionário?

- Jacob, eles precisam saber que todos os dias eu vou verificar tudo. No dia em que eu não fizer isto, os banheiros deixarão de ser tão limpos.

Bardi era um descrente da vida social, sempre me dizia que não valia à pena, tinha imenso tédio com jantares, conversas descomprometidas, roupas da moda – Bardi comprava as suas roupas em lojas de departamento e em supermercados – e frivolidade. Até o esnobismo de alguns pretensos conhecedores de vinhos, o aborrecia. Estabeleceu para si mesmo um horário rígido e fez todos saberem disto. Deitava às 21h00 e acordava às 4h00. Na maioria dos dias, às 6h00, já estava na sua galeria, a Mirante das Artes, na rua Estados Unidos. Costumava estar no museu antes da 8h00. Com esta vida ascética e dedicada ao trabalho, não tolerava atrasos. Um dos mais humildes funcionários do MASP vinha, de maneira sistemática, chegando tarde. A desculpa era sempre a mesma: dificuldades com o trânsito e o transporte coletivo, já deficiente àquela época. Bardi chamou a atenção do funcionário e disse que lhe descontaria no salário os seguidos atrasos. No outro dia chamou o faltoso e lhe deu de presente uma bicicleta. E manteve o desconto na folha salarial.

De todos os personagens que conheci no universo das artes o olhar mais fulminante, imediato, decifrador, foi de Pietro Maria Bardi. Ele tinha este dom misterioso de saber de pronto, sem passar pelo método dedutivo. E não era um saber titubeante, mas uma convicção que desafiava qualquer dúvida. Era como se ele estivesse em contato permanente com o inconsciente, este oceano de saber que nos é vedado, em boa parte, pelo consciente. Esta maneira particular de ir direto para o conhecimento, o resultado, o desnudamento, servia ao Bardi para praticamente tudo: escolha de amigos, seleção de artistas para o museu, autenticação de obras de arte.

Certa vez um amigo meu, Darcy Barros, despachante de alto gabarito na área de importação e exportação, esportista e amigo das artes, desejava um encontro com Bardi e não conseguia ser recebido. Darcy Barros estava em dúvida entre comprar ou não uma pequena pintura de Pablo Picasso e tinha a informação de que Bardi seria capaz de saber da autenticidade ou não da pintura. Ajudei-o a marcar o encontro. Antes de tudo, Bardi lhe fez saber que não cobraria pelo trabalho, mas que aceitaria doação ao MASP. Eu prevenira ao amigo que não deveria ocupar demais o tempo do “professor”, que evitasse a inútil contestação. Pois bem, Darcy Barros ainda não terminara de desembrulhar totalmente a pintura, vista em três quartos de sua superfície e já recebeu o veredicto: falsa!

Naturalmente o meu amigo recorreu a outras fontes, desta vez, com fundamentos científicos, análises com luzes especiais, conhecimento da linha histórica de proprietários da obra, etc, e, ao final, o resultado foi o mesmo. Era um falso Picasso.

"Estudante - Camille Roulin", de Van Gogh, é um dos tesouros do MASP

O acervo de arte ocidental do MASP é o melhor da América do Sul. Pietro Maria Bardi era um marchand bem relacionado no período anterior à Segunda Guerra Mundial e sabia onde estavam as obras, quem eram os proprietários, valores de mercado e era um exímio comerciante. Sabia vender e sabia, principalmente, comprar. Os preços estavam aviltados na Europa de pós-guerra, e Bardi, com a ajuda do jornalista Assis Chateaubriand, criador do MASP, ia comprando preciosidades. Por fim, esse acervo que hoje, em termos pessimistas, é avaliado entre um bilhão e meio de dólares à dois bilhões de dólares, necessitava ser pago. Boa quantidade das obras haviam sido compradas a crédito. Com a ajuda do embaixador Walter Moreira Salles, Assis Chateaubriand e Pietro Maria Bardi encontraram-se com David Rockefeller, banqueiro americano. Chateaubriand explicava o museu, o Brasil, a força de sua cadeia jornalística, a força da nossa economia. Bardi mostrava as fotos das obras, a sua história, os antigos proprietários, o seu valor futuro. Eles conseguiram quase o impossível, um empréstimo de U$ 4.000.000,00, na época uma quantia imensa. Chateaubriand assinou o empréstimo e Pietro Maria Bardi foi o avalista. No retorno ao Brasil, no avião, o jornalista dormia tranqüilo e Bardi estava inquieto. Num momento dado Bardi perguntou ao jornalista como fariam para saldar uma divida tão grande. Chateaubriand declarou com simplicidade: “Eu jamais vou pagar esta dívida”. Disse isto e voltou a dormir. Bardi, o avalista, não dormiu até chegar no Brasil.

Mais tarde, no governo Juscelino Kubitschek a dívida foi repassada para a Caixa Econômica Federal e, no período militar, o Ministro Jarbas Passarinho, perdoou o restante da dívida.

Na década de 50 houve uma mobilização contra o museu, o acervo e o seu diretor. Diziam que Pietro Maria Bardi fizera um museu de falsos. Naturalmente o museu sofria por duas razões óbvias. A primeira delas era a imensa quantidade de inimigos do jornalista Assis Chateaubriand, dono da maior rede de jornalismo do país. O MASP herdou as inimizades do jornalista, seu criador, e boa parte destes inimigos eram jornais concorrentes. A outra razão, mais dura do que a primeira, era feita deste pecado capital, a inveja. Estas duas razões fundamentais, aliadas ao sentimento do colonizado, criaram a dúvida: como o Brasil poderia ter estas obras-primas?

Em 1953, Pietro Maria Bardi cansado desta guerra provinciana manteve contato com o seu amigo German Bazin, na época Diretor do Museu do Louvre. Acertaram uma exposição do acervo do MASP que foi realizada, em Paris, no Museu de L’Orangerie. A mostra foi inaugurada com a presença do presidente da república, Vincent Auriol, que governou a França entre 1947 e 1954.

Dois dias antes Bardi ligou para Chateaubriand e lhe comunicou que Vicent Auriol, Presidente da Quarta República, inauguraria a mostra. O jornalista prometeu estar lá para receber o presidente, mas não apareceu e Bardi recepcionou sozinho o Presidente e lhe mostrou detalhadamente o acervo, ressaltando as peças que tinham sido adquiridas de coleções francesas. No outro dia:

Bardi relata os acontecimentos, Chateaubriand lhe disse:

- Professor, eu não fui, porque pensei que era uma piada, uma brincadeira, uma blague.

Pietro Maria Bardi, espantado, respondeu:

- Mas Dr. Chateaubriand, eu faria piada com o presidente da França?

Pietro Maria Bardi ao lado da estátua de Assis Chateaubriand

 * Jacob Klintowitz é escritor, crítico de arte e teve o privilégio de ser amigo de Pietro Maria Bardi.