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3. A ditadura que odiava os livros – parte I

quarta-feira, 24 novembro 2010

Por Ivan Pinheiro Machado*

Foi em setembro de 1978 que a última apreensão de um livro por motivos políticos aconteceu no Brasil. O título da obra em questão: “Memórias: a verdade de um revolucionário”. Seu autor: General Olympio Mourão Filho. Sua editora: a L&PM. Mesmo que estivéssemos no início de uma “abertura” – que mais parecia uma fresta de redemocratização, a censura insistiu em bater novamente à nossa porta. O general Mourão Filho havia sido o chefe das tropas que insurgiram em 31 de março de 1964, derrubando Jango e dando início à ditadura militar. Estabelecido o governo golpista, Mourão acabou sendo preterido na hora da escolha no Presidente da República. Primeiro, em detrimento do General Castelo Branco e, depois, do General Costa e Silva. A partir de então, o General Mourão deixou-se corroer pelo sentimento de injustiça até morrer amargurado em 1972. No leito de morte, legou a um amigo, o historiador Hélio Silva, um pacote com os originais das suas memórias, obtendo de Hélio a promessa de que o livro seria publicado. Louco de curiosidade com o que tinha nas mãos, assim que chegou em seu amplo apartamento na Avenida Atlântica, Hélio abriu o pacote e começou a ler a cópia datilografada em papel de seda, com tipos azulados do carbono. Ao final de algumas horas, ele já havia vencido 300 das 500 páginas do original. Estava pasmo. Tinha consigo uma metralhadora giratória cujos alvos eram os poderosos ex-presidentes Castelo Branco, Costa e Silva e Médici. Engoliu em seco ao lembrar do juramento ao General moribundo. Meses depois da morte de Mourão, Hélio havia mostrado os originais a todos os editores importantes do Rio de Janeiro e, diante das recusas em série, concluiu que só um louco seria capaz de publicar aquilo. Mas não desistiu. Mais do que obstinado, Hélio era um católico convicto e, para ele, juramento era algo divino.

Corria o ano de 1977. Meu pai, Antonio Pinheiro Machado Netto, era dono de um colégio, o Educandário Cecília Meirelles, que inaugurou em Porto Alegre a prática de trazer grandes personagens da cultura brasileira para conferências pagas. Lembro de Décio Pignatari, Barbosa Lima Sobrinho, Antonio Callado, Helio Pelegrino e muitos outros, entre os quais Hélio Silva, considerado na época um dos principais historiadores brasileiros do período republicano. Ele falou, foi brilhante e, no final de sua conferência, foi apresentado a mim e ao Lima pelo meu pai. Ali, ficou sabendo que tínhamos uma editora e interessou-se. Era um dos grandes autores nacionais, editado pela Civilização Brasileira, a mais importante editora do país na época. Seu “Ciclo de Vargas”, em 16 volumes de mais de 500 páginas cada, um é uma referência obrigatória para quem quer conhecer a História recente do Brasil. Pois bem. Hélio olhou para nós e perguntou sem rodeios:

“Vocês teriam coragem de publicar um material altamente explosivo?”

“Como assim?” perguntou o Lima.

“As memórias do homem que iniciou a revolução de 1964”.

Eu ri e disse: “Desculpe professor, mas nós não somos uma editora de direita…”

Foi a vez dele rir: “Vocês nem imaginam o que ele diz dos milicos. Ele brigou com todos os generais. É um livro importantíssimo, pois há informações absolutamente inéditas sobre o golpe de 64”.

Fez uma pausa e acrescentou: “Por uma questão de honestidade, devo dizer a vocês que é um material perigoso, pois vai incomodar muita gente. Ele esculhamba os generais e ridiculariza o golpe.”

Estávamos espantados com a revelação. Éramos muito jovens, iniciantes e querendo nos firmar nacionalmente como editores. Esta poderia ser uma boa chance. Topamos na hora. O acordo foi no jantar, com brinde e tudo. Estávamos muito excitados com a possibilidade de editar o livro. Meses depois, estaríamos quase arrependidos e tecnicamente quebrados… (continua na próxima semana)

Ivan Pinheiro Machado e Paulo Lima com o livro de Hélio Silva nas mãos

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