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O adeus a Beethoven

segunda-feira, 26 março 2018

beethoven_pintura

Em 26 de março de 1827, às 17h45, morria o genial Ludwig van Beethoven. Dono de uma personalidade forte e melancólica, filho de um músico alcoólatra e de uma mãe tuberculosa, cercado de irmãos ineptos, Beethoven escapou do papel de menino prodígio que o pai tentou impor-lhe na esteira de Mozart e brilhou com luz própria. Por meio de melodias surpreendentes e perturbadoras, ofereceu à humanidade ideais de liberdade. E mesmo que a surdez tenha lhe tirado dos palcos, ela não foi capaz de impedir que ele continuasse compondo. Depois de Beethoven, a história da música nunca mais foi a mesma.

Por volta das quatro da tarde, o céu escureceu e caiu uma tempestade, “uma tempestade formidável, acompanhada de granizo e de neve”, escreveu Gerhard von Breuning. Beethoven ergue a mão, cerra o punho como se quisesse desafiar o céu, conta Hüttenbrenner, enfeitando talvez a cena. E acrescenta: “Quando a mão caiu sobre o leito, os olhos estavam semi-fechados. Com a mão direita ergui sua cabeça, apoiando a esquerda sobre seu peito. Nenhum sopro saía mais dos seus lábios, o coração havia parado de bater. Fechei seus olhos, sobre os quais depus um beijo, assim como na testa, na boca, nas mãos”. (Trecho de Beethoven, de Bernard Fauconnier, Série Biografias L&PM).

“Quero morrer pintando” (Paul Cézanne)

sexta-feira, 23 outubro 2015

“Quero morrer pintando”, costumava dizer para Joachim Gasquet. No dia 15 de outubro de 1906, uma tempestade desabou enquanto pintava sobre o motivo na estrada do Tholonet. Ele ficou várias horas debaixo da chuva, paralisado, tremendo de frio. Finalmente, guardou seu material e tentou voltar para casa. De súbito, sentiu-se mal e desmaiou no meio da estrada. O motorista do carro de uma lavadeira encontrou-o e levou-o para casa, na Rue Boulegon. A governanta, senhora Bremond, chamou o médico, que prescreveu repouso total ao paciente. Porém, Cézanne só fazia o que lhe dava na cabeça: ele não estava doente, não era nada. Na manhã seguinte, insistiu em ir até seu ateliê de Lauves para trabalhar. No final da manhã, sentiu-se mal novamente, arrastou-se até a Rue Boulegon e enfiou-se na cama. Ele nunca mais se levantará. O médico diagnosticou uma congestão pulmonar. Todavia Cézanne lutava. Ainda havia tanto por fazer. Ele delirava, gritava contra seus inimigos, chamava por seu filho. A vida o abandonara. No dia 20 de outubro, sua irmã Marie mandou uma carta para Paul, insistindo para que o sobrinho viesse para Aix “o mais rápido possível”. Ela também sugeria, em termos inequívocos, que Hortense ficasse em Paris mais um mês, porque o marido transferira seu ateliê para o quarto de vestir da esposa. Uma mesquinharia incrível, justo no instante em que Cézanne agonizava. No dia 22, a senhora Bremond mandou um telegrama para Paul Júnior: “Venham imediatamente os dois pai muito mal”. Hortense recebeu o telegrama, mas não disse nada para o filho: ela tinha uma hora marcada no costureiro para provar algumas roupas, e a isso não se falta. No seu quarto da Rue Boulegon, Paul Cézanne mantinha os olhos obstinadamente fixos na porta. Ele esperava a chegada do filho. Cézanne morreu no dia 23 de outubro sem revê-lo. Um dia, quando lhe pediram para se identificar com um pensamento, ele escreveu esses dois versos de Vigny:

Senhor, me fizestes poderoso e solitário,
Permita que eu adormeça de sono da terra.

(Trecho de Cézanne, de Bernard Fauconnier, Série Biografias L&PM)

Paul Cézanne pintando em 1906 / Foto: Ker-Xavier Roussel

“Mount Sainte-Victoire” foi a última pintura concluída por Cézanne

Enquanto isso, há 200 anos na biografia de Beethoven…

segunda-feira, 7 maio 2012

No outono de 1812 acontece um curioso episódio, que lança uma luz um tanto desfavorável sobre as concepções morais de Beethoven. Seu irmão caçula Johann, farmacêutico em Linz, inicia um caso amoroso com uma mulher de costumes considerados discutíveis, Teresa de Obermeyer. Ciúmes? Sobressalto de pudicícia? Reflexo do clã? Velho rancor que busca apenas um pretexto para explodir em violência tirânica? Teresa, na verdade, é mãe de uma filha de pai desconhecido. Imediatamente, Beethoven corre a Linz. Parece furioso. Injúrias, rixa com o irmão: na família Beethoven, as diferenças se resolvem mediante punhos. Ele quer que a intrusa desapareça da vida do irmão. Chega até a alertar as autoridades da cidade e o bispo para que a expulsem. O caso dura cerca de um mês. No final, Johann pega o irmão de surpresa: ele se casa com a amante. Ludwig assiste à cerimônia praguejando, ele que não consegue se casar, e já no dia seguinte volta a Viena. Pelo menos, durante essa tragicomédia familiar bastante lamentável, conclui sua Oitava Sinfonia…

(Trecho de Beethoven, Bernard Fauconnier, Série Biografias)

Ouça aqui a Oitava Sinfonia: