Confissões de sexta-feira

Angélica Seguí*

Sinto saudades do velho. O safado exercia sobre mim uma espécie de “domínio fatal”. Se é que isso é possível. Não era um domínio sexual, nem apenas intelectual. Era paixão. Pura e avassaladora. Por alguns anos foi assim. Ele e eu. Eu e Ele. Com eventuais traições com algum jornalista americano ou poeta uruguaio. Mas foram poucas…

Foi por meu velho que virei noites e noites, bocejei nas aulas mais divertidas sobre teorias de Roland Barthes e discuti, a ponto de quase pegar na faca, quando alguém quis ofender o velho. Foram bons anos.

Precisava devorá-lo diariamente. Os encontros eram cada vez mais frenquentes. Em casa, na faculdade, no ônibus, em praças, cafés, bares. Naquele tempo, ninguém conseguia prender minha atenção como ele.

Os amigos avisavam: “Larga esse velho! Você merece mais! Ele é um desbocado. Tem que voltar aos clássicos ou conhecer um europeu.” Eu ficava triste. Sentia que podiam ter razão. Mas, que mal poderia haver em gostar de um homem pobre, safado e bêbado? Que moça de família não havia amado alguém assim?

Depois de muitos anos juntos percebi que estava me entregando demais. Toda mulher deve se entregar por inteiro a uma paixão, pero no mucho.

Acordei numa manhã gelada de inverno, com a ressaca habitual de nossos encontros, e decidi: era o dia do fim.

Toda paixão acaba um dia. Ou se transforma.  Charles Bukowski foi uma grande paixão. Mas precisava conhecer outras pessoas.

Por que me apaixonei? Além da realidade crua com que me deparava em cada linha, havia algo mais naqueles livros. Bukowski quis ser escritor. E se entregou. E foi.

Hoje cuido bem do “nosso amor” relendo de tempos em tempos um dos seus livros ou poemas. Vibro com cada novo lançamento e quero, sinceramente, que conquiste outras moças.

Ele me ensinou muito sobre o pensamento masculino. Dos safados, é claro.

Para quem nunca leu, recomendo iniciar com Notas de um velho safado, Ao sul de lugar nenhum e Pulp.

Depois disso? Pare se for capaz…

Na Web TV L&PM tem uma entrevista fantástica com o Buk!

*jornalista e blogueira. Editora online da L&PM

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  1. Marina disse:

    Adorei!!! Dessa cachaça eu também bebo!!

  2. Uly disse:

    Obviamente, o Hank está longe de ser um escritor clássico (no sentindo clichê da palavra), mas sem dúvida alguma é o mais honesto. Nunca havia lido nada tão direto e cru como um soco na boca do estomago, o que deveras me apraz, pois acho que a sinceridade dele é algo extremamente raro na nossa sociedade hipócrita e demagoga.
    Todos sabem que o Chinaski é apenas um alterego invertido (pois normalmente tentamos criar um personagem melhor que nós mesmos, o que não acontece neste caso), e que o Velho não passava de mais um ser humano ordinário deste planeta que passou boa parte da como um funcionário público dos Correios, que tinha na escrita uma paixão, e passado os anos conseguiu a muito custo ganhar a notoriedade que merecia.
    Invariavelmente, o Velho Sujo é um dos meus escritores prediletos, não pela linguagem, nem pela genialidade, afinal nem espero isso dele, mas pela entrega e a dureza de suas palavras, pois a vida não é complacente com ninguém.

  3. Rody Cáceres disse:

    Bukowski é uma das minhas maiores influências, junto com os beats. Realmente, o cara quis ser escritor e conseguiu…gostaria de mandar todo o cânone tomar no cu… perdão, isso é Hank demais, deixo para ele então:

    “Se vai tentar
    siga em frente.

    Senão, nem começe!
    Isso pode significar perder namoradas
    esposas, família, trabalho…e talvez a cabeça.”

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