Um dia na vida de Galeano

Em maio de 2012, pouco depois de Eduardo Galeano lançar Os filhos dos dias, o jornalista Jorge Fernandéz Diaz, do jornal La Nación, acompanhou a rotina do escritor e fez uma ótima matéria contando curiosidades sobre seu dia-a-dia. Tomamos a liberdade de traduzir e transcrever alguns trechos dessa matéria. Para lê-la na íntegra, clique aqui.

O homem que sonha prodígios tem sonhos insignificantes na cama. Mas sua mulher entra na noite como quem vai ao cinema, e na primeira hora do dia, enquanto fazem o desjejum com café com leite, sucos e frutas, Helena o humilha contando as peripécias que viveu de olhos fechados. A companheira de Galeano sonhou uma vez que os dois estavam em uma grande fila, em um aeroporto irreconhecível, e que todos os passageiros levavam seus travesseiros embaixo do braço. Havia uma máquina que escaneava os travesseiros para descobrir se os cidadãos haviam tido sonhos perigosos. Eduardo e Helena permaneciam nessa fila esperando sua vez, temendo que soasse a campainha do detector de sonhos incorretos e eles tivessem que pagar por seus pecados noturnos. Eduardo, claro, anota esses contos, ela sonha obras-primas.

Faz muito tempo que Galeano e sua mulher decidiram eliminar o almoço de sua dieta diária. Para eles, cortava o dia e o escritor sentia-se  estufado: parecia que ele havia comigo uma vaca e então vagava por horas e horas arrastando os pés feito um zumbi. É por isso que em sua casa de Malvín o café da manhã é farto, forte e quente. O desjejum é um dos grandes momentos do dia, não apenas porque é quando Helena narra seus sonhos de Paramount, mas também porque ela possui uma voracidade sem limites por notícias. Galeano é imune ao jornal e apenas usa a televisão para ver futebol. Mas Helena é uma mulher hiperinformada que tem o prazer de ler para seu marido as notícias que lhe deixam alegre ou indignada, além de contar coisas que escutou no rádio ou viu na TV.  

Galeano costuma dizer que não tem horários ou rotina fixa e que escreve somente quando “le pica la mano”. Ou seja: é a mão que decide quando quer escrever e ele não pode dar ordens a ela. Isso começou quando, em um dia remoto, em um bar cubano, Galeano apreciava as maravilhas que um músico genial fazia com seu tambor. Eduardo aproximou-se dele em um momento de pausa e perguntou qual era o seu segredo. Ao que o músico respondeu: “Yo sólo toco cuando me pica la mano”. Galeano sentiu-se representado por esse capricho artístico. E a partir de então só escreve com essa “picazón”.

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