O adeus de Stefan Zweig

Foto dedicada aos leitores brasileiros

Stefan Zweig amou o Brasil que o acolheu. O escritor austríaco já era famoso no mundo inteiro quando chegou ao Rio de Janeiro, em 1936. Esperava encontrar “uma daquelas repúblicas sul-americanas que não distinguimos bem umas das outras, com clima quente e insalubre, situação política instável e finanças em desordem…”, como escreveu em seu livro Brasil, um país do futuro. Mas ao desembarcar, a sensação foi outra: “Fiquei fascinado e, ao mesmo tempo, estremeci. Pois não apenas me defrontei com uma das paisagens mais belas do mundo, esta combinação ímpar de mar e montanha, cidade e natureza tropical, mas ainda com um tipo completamente diferente de civilização”. Em 1941, sem poder voltar a Europa por causa da II Guerra, mudou-se para Petrópolis, no Rio, com sua segunda esposa, Lotte. Ao lançar Brasil, um país do futuro, foi acusado por alguns de ter feito o livro por encomenda do governo Vargas, o que ele fez questão de desmentir em sua última entrevista: “Em quarenta anos de vida literária, me orgulho de nunca ter escrito um livro por outra razão que a da paixão artística, e jamais visando uma qualquer vantagem pessoal ou interesse econômico.”

Em 23 de fevereiro de 1942, depois de uma alta dose de barbitúricos, Stefan Zweig e sua esposa foram encontrados já sem vida pelos empregados da casa. Abraçados na cama, eles preferiram deixar a vida “de cabeça erguida” a continuar vendo os horrores do nazismo. Sobre a mesa de cabeceira, estava uma declaração em que Zweig agradecia ao Brasil e explicava o porquê de estar indo embora tão cedo.

O último texto escrito por Stefan Zweig

Declaração

Stefan Zweig

Antes de deixar a vida, de livre vontade e juízo perfeito, uma última obrigação me é imposta: agradecer profundamente a este maravilhoso país, o Brasil, que propiciou a mim e à minha obra tão boa e hospitaleira guarida.  A cada dia fui aprendendo a amar mais e mais este país, e em nenhum outro lugar eu poderia ter reconstruído por completo a minha vida, justo quando o mundo de minha própria língua acabou-se para mim e meu lar espiritual, a Europa, se auto-aniquila. Mas depois dos sessenta anos precisa-se de forças descomunais para começar tudo de novo. E as minhas se exauriram nestes longos anos de errância sem pátria.  Assim, achei melhor encerrar, no devido tempo e de cabeça erguida, uma vida que sempre teve no trabalho intelectual a mais pura alegria, e na liberdade pessoal, o bem mais precioso sobre a terra.

Saúdo a todos os meus amigos!  Que ainda possam ver a aurora após a longa noite! Eu, demasiado impaciente, vou-me embora antes.

Stefan Zweig
Petrópolis, 22. II. 1942

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