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Lisboa de Pessoa

quarta-feira, 3 outubro 2012

Por Paula Taitelbaum

Semana passada estive em Lisboa. Lisboa que emana poesia: “Ó mar salgado, quanto do teu sal, são lágrimas de Portugal…”. Fernando Pessoa, aliás, é onipresente nesta cidade que se esparrama a partir das margens do Tejo. Valorizado por tudo e por todos, o poeta está não apenas nas vitrines das livrarias, mas também nas paredes dos restaurantes, no souvenir oferecido ao turista, nos desenhos do artista anônimo da esquina, nos grafites dos prédios. Imaginar que ele andou pelas mesmas ruas por onde passei, que viu a mesma paisagem, já seria bom demais. Mas entrar na livraria Betrand do bairro do Chiado – aliás, bem pertinho da casa onde nasceu Pessoa – e pensar que ele muitas vezes esteve ali, levou-me para uma viagem além do Tejo… Quase pude vê-lo “a folhear” alguma obra, quem sabe autografando um livro (pra mim!). Fundada em 1732, a Bertrand é considerada a mais antiga do mundo pelo Guiness Book e você pode imaginar quanta gente letrada já passou por lá nesses mais de dois séculos e meio.

A fachada da Bertrand do Chiado, a mais antiga livraria do mundo

O anúncio da vitrine revela que a Bertrand foi testemunha até do grande terremoto que destruiu Lisboa em 1755 (clique para ampliar)

O ano do Brasil em Portugal começou no dia 21 de setembro e vai até junho de 2013. Quem sabe você não aproveita e vai conhecer o país de Fernando Pessoa, Eça de Queiroz, Florbela Espanca e Luís de Camões. Pra facilitar, a TAP (Transporte Aéreos Portugueses) tem vôos que partem direto de dez capitais do Brasil. Pois, pois…

A tataravó de todas as livrarias

segunda-feira, 25 abril 2011

Ela foi considerada pelo Guiness Book of Records como a “livraria mais antiga do mundo”. E não há como contestar o feito: a livraria Bertrand, de Lisboa, foi aberta em 1732 no bairro Chiado. Para receber o certificado (que foi colocado em uma das paredes da loja) foi preciso passar por uma “rigorosa prestação de provas”. Entre elas, a Bertrand teve que confirmar que sua atividade nunca foi interrompida ao longo destes 279 anos.

A portuguesa Bertrand tem 279 anos e é considerada a mais antiga livraria do mundo

A Bertrand Livreiros foi fundada por Pedro Faure, que tinha origem francesa, e hoje é a maior cadeia de livrarias do país, com 53 filiais em Portugal e uma loja virtual que oferece mais de 100 mil títulos. No site da Betrand, aliás, pode-se ler o manifesto “Somos livros”. O texto (na verdade um poema) cita o terremoto de 1755 que devastou Lisboa, balançou as estruturas da Bertrand, mas, mesmo assim, não foi capaz de fazê-la fechar as portas. Abaixo, o manifesto:

O fim é o princípio.

Uma página que se vira.

Somos a tinta fresca em folha áspera.

A capa dura. Aquilo que procura.

Somos a História.

Desde sempre.

O terremoto de 55 e a revolução de 74.

Somos todos os nomes.

As pessoas do Pessoa,

Alexandre Herculano e Ramalho Ortigão.

O Mundo na mão.

Ponto de encontro.

De quem pensa. De quem faz pensar.

Temos pele enrugada de acontecimento.

As páginas são nossas.

E o pó que descansa na capa também.

Sabemos falar de guerra e paz,

explicar a origem das espécies

e dizer qual a causa das coisas.

Somos o que temos.

A tradição e a vocação.

A atenção. A opinião.

A história de dor e de amor.

Somos o nome do escritor.

A mão do leitor.

O certificado do Guiness Book está na parede da livraria Bertrand do bairro Chiado, que nunca deixou de funcionar. Ao visitar Lisboa, vale conhecer.

7. Josué & Millôr, os primeiros grandes autores

terça-feira, 21 dezembro 2010

Por Ivan Pinheiro Machado*

Josué Guimarães foi autor de obras-primas como os romances “A Ferro e Fogo – Tempo de Solidão”, “A Ferro e Fogo – Tempo de Guerra”, “É Tarde para saber”, “Camilo Mortágua”, “Enquanto a noite não chega”, entre outros. Era amigo e cliente do meu pai. Por ter sido colaborador de Jango e Brizola, a ditadura nunca largou o pé do Josué, a ponto dele ter que refugiar-se primeiro em Santos, São Paulo, com nome falso e mais tarde em Lisboa, onde testemunharia a Revolução dos Cravos em 1975. A propósito do movimento que acabou com o regime truculento do ditador Salazar, escreveu o livro “Lisboa Urgente”, publicado pela editora Civilização Brasileira que pertencia ao seu amigo Enio Silveira. Foi nesta época que eu o conheci. Estava indo para Frankfurt e tinha uma escala em Lisboa. Meu pai pediu para que eu fosse portador de uma encomenda para o Josué. Quando desembarcamos em Lisboa para pegar a conexão para Frankfurt, o Josué me aguardava no aeroporto. Conversamos uma meia hora, entreguei o pacote e ele convidou-me para passar uns dias em sua casa em Cascais quando retornasse de Frankfurt. Dito e feito. Uma semana depois, cheguei à capital portuguesa e fui desfrutar da maravilhosa hospitalidade de Nídia e Josué. Foram dias inesquecíveis, não só pelo carinho dos anfitriões, mas pelo clima que se vivia em Lisboa. Era uma verdadeira festa de libertação que não acabava nunca. E pra quem, como eu, chegava de um país dominado por uma sombria ditadura, curtir Lisboa naquele ano de 1976, com vinte e poucos anos, era uma experiência pra nunca mais esquecer. Certa noite, depois do jantar, Josué abriu uma garrafa de vinho verde e me chamou pra sacada de sua bela casa. “Vem cá, guri, vamos conversar”. Obedeci, curioso. Josué foi direto ao ponto. “Tu queres publicar um livro meu?” Eu quase caí da cadeira.

A L&PM engatinhava, tinha publicado só 3 ou 4 livros e o Josué completava, com Erico Veríssimo e Dyonélio Machado, o trio de autores gaúchos com renome nacional no início dos anos 70. Obviamente eu disse sim. “Meu editor brasileiro me pediu pra modificar um romance que enviei para publicação. O principal personagem é um rapaz que atua na guerrilha urbana, é comunista e vive na clandestinidade. Ele conhece uma moça normal, de classe média, e eles se apaixonam, mas ela não sabe das atividades dele. Meu editor está com medo dos milicos. Não vou mudar o livro, vou mudar de editora. Toma os originais, lê e amanhã me diz alguma coisa, boa noite!” Comecei a ler naquela hora mesmo, 11 horas da noite. Às 3 da madrugada eu tinha terminado o livro com um nó na garganta. Mal conseguia dormir. A perspectiva de publicar um grande livro de um grande autor, era excitante demais para pegar no sono. Em julho de 1976, a L&PM lançava “É tarde para saber”, com capa do grande pintor gaúcho Nelson Jungbluth. O lançamento foi numa memorável tarde de autógrafos na tradicional Livraria Lima, em Porto Alegre. Foram milhares de livros vendidos na época. E vende muito até hoje, quando seguimos publicando a obra completa de Josué Guimarães.

Um mês depois, saiu o livro “Devora-me ou te decifro” do Millôr Fernandes. Ou seja, não dava mais para voltar atrás.

Para ler o próximo post da série “Era uma vez uma editora…” clique aqui.

A biblioteca de Fernando Pessoa também pode ser sua

terça-feira, 26 outubro 2010

Além de ler o livros de  Fernando Pessoa, publicados pela L&PM, você também pode, a partir de agora, ter acesso aos volumes que o escritor português possuia em sua biblioteca. Os 1.142 volumes do acervo da Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, foram digitalizados na íntegra e estão disponíveis na internet. Incluindo manustritos do próprio  Pessoa, além de poemas e traduções escritas nas páginas iniciais de alguns livros. No site da biblioteca virtual, estão ainda anotações, assinaturas, dedicatórias e selos adesivos. Isso mesmo: selos! Em seu diário, Fernando Pessoa colava os selos das lojas  em que costumava adquirir seus livros. Pelas entradas no caderno de anotações, presume-se que o escritor encomendava suas edições a partir de um catálogo de livraria ou de uma editora estrangeira. No espólio pessoano existem ainda muitas listas com as datas de encomenda de livros, como, por exemplo, uma de 7 de Abril de 1916, na qual figuram The MagnetThe Magic Seven, ambos de Lida Abbie Churchillque e que ainda hoje constam da biblioteca particular.

Para conhecer o acervo completo acesse http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt

"Não tinha a túnica vermelha / Vermelho é o sangue e o vinho / A pobre morte a quem amou" traduziu Pessoa na página inicial de "The Ballad of Reading Gaol" de Oscar Wilde